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Valeu a pena sonhar

por Socrates — publicado 23/08/2010 16h45, última modificação 23/08/2010 16h45
Lula está indo embora. Fez muito pelo País nesses oito anos. Talvez menos do que gostaríamos. Mas fez. Espero que o próximo presidente não deixe esse legado morrer

Lula está indo embora. Fez muito pelo País nesses oito anos. Talvez menos do que gostaríamos. Mas fez. Espero que o próximo presidente não deixe esse legado morrer

Chegamos ao Parque São Jorge por volta das 6 da manhã. Nunca foi fácil encarar uma viagem de volta a São Paulo partindo de São José do Rio Preto. Menos mal que tínhamos vencido. Todos nós descemos correndo do Mosqueteiro – imponente apelido do nosso ônibus –, pois o grande compromisso se avizinhava. Nem ao menos fizemos as despedidas de costume.

Com pressa, fomos cada um para a própria casa descansar um pouco. Antes das 10, já estávamos de volta para mais um jogo, vejam vocês. Mas era uma festa antes de tudo. No vestiário topamos com boa parte da inteligência nacional. A Fazendinha, naquele momento, mais parecia um encontro de velhos amigos.

Depois de anos calados à força, aquele acanhado e antigo estádio estava recebendo a nata da resistência ao regime que nos amordaçava. O motivo, a bandeira, o hino, era a campanha de Lula. A primeira aparição eleitoral de quem chegaria à Presidência 20 anos depois e que ora se despede com recorde de aprovação. Um metalúrgico candidato ao governo do estado mais rico da Federação! Ainda era um sonho, mas confiança era o que mais víamos nas faces de todos naquela linda manhã de domingo.

O objetivo era o de conseguir recursos para a divulgação da candidatura. A Democracia Corintiana, atores, cantores, músicos, produtores e diretores das mais diversas atividades artísticas se reuniram ali, naquele apertado recinto, para irmanarmos nossas convicções. Por meio da bola, nossa outra paixão.

Difícil sair a escalação dos dois times. Decidiu-se por um sorteio dirigido. Afinal, todos os Gonzaguinhas não poderiam estar do mesmo lado. A plateia, apesar de pequena, estava em êxtase. Como é interessante notar o quanto se multiplicou nestes últimos anos. Muito mais rápido do que poderíamos imaginar.

Depois do jogo, nos encaminhamos para o ginásio de esportes onde nos aguardava um churrasco regado a muito bom humor e alegria. Como sempre, aliás. Passamos a tarde a tagarelar esparramados pelo chão do restaurante improvisado. De vez em quando, pintava um violão a entoar cantigas dos presentes e, emocionando a todos, dos ausentes. Os versos de Chico Buarque, Apesar de você, amanhã há de ser outro dia, disputava com o Caminhando e cantando e seguindo a canção de Geraldo Vandré. Ou então: Diz lá pra Dina que eu volto, que seu guri não fugiu. O morro de São Carlos não podia faltar, nem pensar!

Era uma profusão de sentimentos e de brasilidade. A única baixa nesse período vespertino foi a do Casão. Saiu e nem me contou onde iria. Também, naquela confusão de brilhos...

Fernando Faro, diretor indicado e único, imagino, capaz de pôr ordem no show que aconteceria mais à noite, era só nervosismo. Falava com um. Chamava outro. Anotava tudo num caderno bem surrado e vez ou outra abria o sorriso. Uma hora achegou-se a mim: “Ô, Baixo (olhei-o com espanto), você viu se o Tim Maia confirmou a presença?” Não deu tempo de responder, porque naquele instante os portões (quase que eu escrevo porões lembrando da galera que sofreu na mão dos insensíveis) do ginásio estavam sendo abertos ao público e tínhamos de nos encaminhar para os camarins. E nada do Tim!

Casa cheia! Não me lembro de ter visto aquele gigante. Talvez na época de Wlamir, Amaury e Rosa Branca como cansam de falar o Juca e o Washington. Mas eu, recém-corintiano, jamais havia tido o privilégio. Foi emocionante. Na coxia tropeçava num mundo de gente que eu admirava. Os olhares estavam anos-luz do fato. É que tinha um cheiro de humanidade que impregnava a todos. Depois, só no Anhangabaú, ano e meio mais tarde, na campanha pelas Diretas que reuniu o mesmo povo e mais um monte de agregados.

A cantoria foi uma apoteose. Nossos melhores músicos e grandes cabeças entoando loas a um cara que nascido no Nordeste e, antigo passageiro de pau-de-arara, se tornara nossa esperança de um Brasil mais justo. O Barba sabia mais que ninguém o que representava no nosso sonho. Cada uma das almas que lá estavam tinha absoluta certeza de que o futuro era possível. Era real.

A alegria só não foi completa porque no final do show dei pela falta do Casão. Soube que havia ido buscar o Tim e não voltou. Parece que eles adoraram se conhecer. Hoje, infelizmente, não dá mais para juntar os dois. Que pena!

Lula está indo embora. Fez muito pelo País nesses oito anos. Talvez menos do que todos nós que lá estávamos gostaríamos. Mas fez! Que o próximo, seja Serra, seja Dilma, não se esqueça dos sonhos que eles também sonharam. Como todos nós, aliás.

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