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Sociedade

Reajuste de tarifa

Novo junho pela frente?

por Janes Jorge e Lincoln Secco — publicado 02/12/2014 06h12, última modificação 02/12/2014 10h34
Lembrar dos protestos do ano passado é inevitável diante da notícia de que Haddad deve aumentar o preço da passagem. Ainda mais em um 2015 que promete ser explosivo
Fotos Públicas
Ônibus de São Paulo

Curiosamente, o MPL, estopim das Jornadas de Junho, defende uma bandeira histórica do PT: a tarifa zero nos ônibus

Neste momento em que se noticia que o prefeito Fernando Haddad estuda aumentar o preço da passagem de ônibus em São Paulo, a lembrança do que ocorreu na cidade em junho de 2013 é inevitável. Os leitores devem recordar. É verdade que agora a prefeitura espera enfrentar menos protestos porque o aumento deve ser anunciado no início do ano e em mês de férias escolares. Ou quem sabe entre o Natal e o Ano Novo.

Quando o Movimento Passe Livre (MPL) acendeu o pavio da crise de Junho de 2013, nenhuma autoridade se incomodou diante de protestos que habitualmente eram dissolvidos pela polícia sem maiores consequências políticas.

Os protestos acabaram se desdobrando em inúmeras palavras de ordem e pautas, especialmente depois da comoção pública causada pela ação violenta da polícia, na quinta-feira 13 de junho. Não só os políticos de São Paulo tiveram que voltar atrás, mas as empresas jornalísticas que antes atacavam ou procuravam estigmatizar o movimento também. As manifestações se espalharam por todo o Brasil.

Naqueles dias, aliás, o prefeito e o governador de São Paulo foram a Paris e, juntos, cantaram o Trem das Onze de Adoniran Barbosa. Felizmente para eles, o vídeo da canção só veio a público depois... É verdade que Fernando Haddad havia antes segurado o aumento a pedido da presidenta Dilma Rousseff, que se preocupava com o impacto inflacionário.

Hoje é fácil dizer que, se o prefeito tivesse recuado no início, provavelmente não teríamos uma montanha de artigos e livros sobre as Jornadas de Junho, a crise dos partidos, os black blocs etc. Mas, agora, como explicar que o mesmo prefeito proponha uma medida política que lhe rendeu os piores índices de popularidade no exato momento em que essa popularidade começa a se recuperar, em que consegue mais recursos para a cidade em razão da renegociação da dívida pública com a união e com a vitória obtida na justiça derrubando a interdição do reajuste do IPTU? Tudo isso em um ano que promete ser explosivo em razão das dificuldades das forças oposicionistas em aceitarem o resultado das eleições presidenciais de 2014, do ajuste na economia e da perda de grande parte do eleitorado popular do PT em São Paulo.

Não é tarefa fácil. Ainda mais porque o prefeito tem ótima formação intelectual e parece atento ao que se passa no mundo. Contudo, para além das características pessoais do gestor, cabe buscar as razões de fundo. Nesse caso, seria necessário inserir a situação paulistana ao que se passa em outros países onde também se ampliam os descontentamentos das pessoas comuns em relação ao poder institucional, aparentemente incapaz de perceber e dialogar com as expectativas de amplos setores sociais.

O que hoje pode quebrar a apatia da população diante da rotineira troca de partidos no poder que aparentemente não se diferenciam mais, seria algo como uma revolução nos transportes urbanos.

Curiosamente, o MPL, estopim das Jornadas de Junho, defende uma bandeira histórica do PT: a tarifa zero. Uma prefeitura de esquerda deveria lutar por isso. Enquanto não for possível, ela poderia se comprometer com o congelamento das tarifas e a volta da saudosa CMTC rumo à estatização do transporte de passageiros em São Paulo.

Certamente haveria forte oposição daqueles que defendem a privatização por ideologia, mas adoram viajar no transporte estatal das principais cidades europeias. Para a esquerda, entretanto, a tarifa congelada já significaria uma segunda geração de conquistas sociais de enorme impacto eleitoral, depois do Bolsa Família e de várias outras medidas do período Lula.

Mas as Jornadas de Junho abriram uma nova agenda social. Vale apena correr de novo o risco de ignorá-la?

Janes Jorge é professor do departamento de História da Unifesp. Lincoln Secco é do departamento de História da Usp.