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Sociedade

Crônica

Um machado Simprim

por Menalton Braff publicado 16/05/2014 10h56
Assim como a dona Patrícia quer simplificar o Machado de Assis, para que seja "palatável", um amigo propõe que o Kant seja simplificado para a população discutir filosofia
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O escritor Machado de Assis

Admirável a intenção da senhora Patrícia Secco: ela, que, com toda certeza, teve muita dificuldade para entender o Machado de Assis, resolveu simplificar nosso escritor maior para aqueles que, como ela, não conseguiam penetrar os segredos da linguagem machadiana.

Mas como se pode afirmar algo assim tão subjetivo a respeito dessa senhora? Bem, cabem aqui algumas considerações. Que ela não entendeu o Machado é óbvio. Afirmar que em cada frase há umas cinco palavras de pouco uso! Ele, o Machado, conhecido por todos que o estudam como um dos autores brasileiros de vocabulário mais corrente, de menor extensão! Aquilo lá de esperteza, meu santo Benedito! Primeiro não é verdade a complexidade vocabular do Machado, mas não só isso, se desde o início de uma vida intelectual o indivíduo tiver à sua disposição apenas palavras conhecidas, o empobrecimento linguístico vai ser um desastre.

Eu me lembro de minha adolescência, em Porto Alegre, quando discutíamos quase aos tapas se o certo era baixar o nível da cultura para chegar aos menos cultos, ou elevar o nível cultural geral para integrá-los no mundo da cultura. Enfim, nivelar por baixo ou por cima?

Alguém vai me contestar, dizendo que este negócio de por baixo e por cima não existe mais. Ótimo. Nível é uma coisa ultrapassada.

Bem, mas assim como a dona Patrícia quer simplificar o Machado, para que seja palatável até mesmo por pessoas que fugiram da escola, um amigo meu propõe que o Kant seja simplificado para que toda a população possa discutir filosofia. Ou filosofia não é importante?

Outro dia, o frentista do posto onde abasteço com frequência, me pediu uma aula sobre física quântica, pois encontrou o assunto muito mal explicado em uma revista. Desconversei, claro, mas então me surgiu a ideia: por que não simplificar os conceitos da física quântica para que toda a população possa discutir sua teoria?

Mas quando se trata de literatura, dona Patrícia, me fica a certeza de que a senhora, com todo respeito, não sabe bem o que seja. Literatura, minha cara, não é historinha, é muito mais. A diegese machadiana, quem não sabe?, é simples, extremamente simples. A grandeza do Machado não está nos enredos, mas justamente em seu discurso. E discurso literário é irredutível. E historinha não é literatura. Então, o que se apresenta ao público de menor compreensão, não é mais o Machado, mas sua falsificação. De que adianta levar ao povo um guisado de gato, dizendo que é lebre?

A simplificadora age como esses alunos de cursinho, que leem um resumo do livro e propalam que conhecem a obra.

Apenas para exemplificar: o romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Roas, começa assim:

− Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal no baixo do córrego. Por meu acerto.

Bem, achei sua linguagem muito estranha e refiz o texto:

− Coisa sem importância. Os estampidos de revólver que o senhor ouviu não foram de briga de homem, louvado seja Deus. Fiz pontaria em uma árvore do quintal lá perto do riacho. Apenas pra treinar.

É evidente que o segundo texto não traz marca nenhuma de Guimarães Rosa. É gato, sim, não é lebre. Não se trata de ser pior ou melhor. Trata-se de respeitar a autoralidade. Quem não entender isso, ainda não sabe o que é literatura.

Se todos podem tudo, onde ficaram meus sonhos de ser pianista, jurista, alpinista e tantos outros? Sei algumas coisas, poucas, mas ninguém sabe tudo.