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Um ídolo romântico

por Rodrigo Martins publicado 11/12/2011 17h59, última modificação 11/12/2011 18h02
Brilhante e politizado, Sócrates viveu intensamente
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Brilhante e politizado, Sócrates viveu intensamente. Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP

Em 1984, o técnico da Fiorentina teve problemas para domar um atleta. Alto, magro, barbudo e de cabelos desgrenhados, o jogador sempre punha em dúvida as rígidas normas disciplinares do clube italiano, da proibição de fumar no ônibus à necessidade de ficar concentrado para uma partida. “Lembro de Sócrates assim”, comentou Giancarlo De Sisti, hoje com 68 anos, ao saber da morte do ex-craque brasileiro, ídolo do Corinthians e da Seleção Canarinho nos anos 1980. “No início de sua aventura na Fiorentina, ele não estava muito bem e os jornais o criticavam. Perguntei se sabia dessas críticas, ele me disse que lia os jornais, mas olhava a parte política, e eu disse que, pelo contrário, eu lia só a parte esportiva. Decidimos comprar um jornal só e dividi-lo.”

 

Sócrates nunca foi  um atleta convencional. Médico de formação, era politizado, contestador e cultivava um estilo de vida considerado impróprio para um esportista de seu calibre. Não era um homem deste século nem do anterior, como observou o jornalista e comentarista esportivo Juca Kfouri. “Eu o imaginava mais como um romântico do século XIX, de sobretudo preto, o cigarro acesso enquanto lia um poema. Um desses frequentadores de adegas da época, a discutir política com um copo de vinho na mão”, divaga o amigo de longa data, ressentido com o fato de Sócrates não ter o corpo blindado para a vida boêmia. “Nunca conheci alguém que viveu tão intensamente a filosofia do -carpe diem, guiando-se pelos prazeres e paixões do momento.”
O problema é que o Dr. Sócrates partiu cedo demais, aos 57 anos. Não pôde ver o Corinthians, time que aprendeu a amar, ser pentacampeão brasileiro. O capitão da Seleção de 1982 faleceu na madrugada do domingo 4, vítima de um choque séptico – quando bactérias de uma infecção caem na corrente sanguínea e se alastram pelo corpo. As suspeitas recaem sobre uma possível intoxicação alimentar, ainda não confirmada pela equipe médica, mas que poderia ser facilmente tratada não fosse o estado de saúde debilitado de Magrão, como também era conhecido. Esta era a sua terceira internação em quatro meses. Nas duas anteriores, foi hospitalizado, em estado grave, para conter uma hemorragia digestiva, causada por uma complicação da cirrose.

A reação à morte do ídolo foi imediata. Uma das homenagens mais comoventes ocorreu no Pacaembu, na final do Brasileirão: jogadores e torcedores do Corinthians guardaram um minuto de silêncio com o punho direito erguido, em alusão à forma como Sócrates comemorava os seus gols. Difícil imaginar que em 1978, naquele mesmo estádio, recém-chegado do Botafogo de Ribeirão Preto, o craque chegou a ser hostilizado por torcedores, impacientes para ver o time marcar gols. Já um doutor de 23 anos, Sócrates doutrinou a torcida corintiana. Pedia calma e apoio até o último minuto da partida. E retribuía com lances e gols memoráveis, muitos deles resultando em vitórias nos instantes finais do jogo. Passou a ser venerado pelos corintianos e abraçou o Timão como seu clube de coração.

Ex-jogadores também manifestaram o seu pesar. “Ele nos ensinou a importância de viver na democracia”, afirmou Wladimir, o lateral esquerdo que estava ao lado de Sócrates na conquista do bicampeonato paulista de 1982/1983. “Jogando bola é difícil descrever tamanha classe e categoria”, pontuou Zico, outro craque da Seleção de 1982. “Era leal, obstinado, íntegro e sincero.”

Mesmo rivais italianos, responsáveis pela desclassificação da seleção de Zico, Falcão e Sócrates, reconheciam a extraordinária qualidade desses jogadores. “É um pedaço da nossa história que vai embora”, lamentou Paolo Rossi, ex-atacante da Itália, autor de três gols contra o Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo de 1982.“Ele ficará na história. É uma grande decepção que Sócrates esteja morto tão jovem”, emendou o goleiro Dino Zoff.

As homenagens não ficaram restritas ao meio esportivo. O ex-presidente Lula lamentou a morte do ex-jogador que o ajudou a fundar o PT, no início da década de 1980. “Sócrates é um exemplo de cidadania, inteligência e consciência política.” A presidenta Dilma Rousseff também soltou uma nota de pesar: “Foi um brasileiro atuante politicamente, preocupado com o seu povo e o seu país”.

 

Tamanha deferência  não ocorreu por acaso. Sócrates teve um papel importante na redemocratização do Brasil. Foi um dos principais articuladores, ao lado de Wladimir e Casagrande, da Democracia Corintiana, na primeira metade dos anos 1980. O País ainda estava refém da ditadura quando o então presidente do Corinthians, Waldemar Pires, promoveu uma abertura política no clube. Descentralizou o poder e permitiu que os jogadores tivessem voz ativa em decisões administrativas.

Sócrates aproveitou a oportunidade e logo assumiu papel de liderança no grupo. Mais que isso, envolveu os jogadores na luta pela democracia e pelas Diretas Já. Os atletas corintianos passaram a apoiar movimentos grevistas, dialogar com sindicatos, filiar-se a partidos políticos e entravam em campo com faixas e cartazes da Democracia Corintiana, numa clara afronta aos militares. Em 1984, quando havia recebido o convite para atuar na Fiorentina, Sócrates prometeu diante de 1 milhão de pessoas, durante um comício das Diretas Já, permanecer no Brasil, caso o Congresso aprovasse a realização de eleições diretas naquele ano. “Até vestir-se de dom Pedro I do Dia do Fico ele se vestiu, para uma capa da Placar. Passou mais de quatro horas se maquiando”, comenta Kfouri, diretor de redação da revista à época. “Decepcionado com o resultado da votação, foi morar em Florença, mas não se adaptou.”

A experiência libertária do Corinthians não agradou a todos. Dentro do próprio elenco, o goleiro Leão criticava o que considerava ser uma “anarquia, e não democracia”. A mídia esportiva da época também foi implacável. Os jogadores eram criticados por dispensar a concentração, por não dar tanta ênfase à preparação física e até mesmo por, nas horas de lazer, tomar uma cervejinha. Sócrates era o principal alvo. “Foram muito injustos conosco. Como é que uma anarquia poderia conquistar dois títulos paulistas e quase levar um terceiro, numa época em que o Campeonato Paulista era um dos mais difíceis do País?”, pergunta o meia-armador Zenon, que compôs um harmônico meio-campo com Sócrates e Biro-Biro nas campanhas da Democracia Corintiana. “Houve uma reação conservadora muito forte. Fato é que -nunca deixamos- de corresponder em campo. E ajudamos a mudar os rumos do -nosso -país. Não por acaso, -pesquisadores nos pro-curam até -hoje para resgatar esse período.”

Kfouri confirma que a mídia, salvo raras exceções, era implicante. “Até dizer que os jogadores chegavam para o treino mal-ajambrados, como maloqueiros, eles disseram. Mas aquela equipe tirava de letra esse tipo de crítica. O Sócrates e o Casagrande, por exemplo, passaram a ir para o clube de terno e gravata. Era a coisa mais engraçada vê-los em traje social, desengonçados, com o nó da gravata torto”, recorda.

Diante do inegável talento de Sócrates, os críticos costumam enfatizar que ele seria ainda melhor se tivesse uma vida regrada e treinasse mais. Mas Raí, irmão de Sócrates e ídolo do São Paulo nos anos 1990, relativiza a assertiva. “Na Copa de 1982, Sócrates treinou intensamente por seis meses, até parou de fumar, e teve um desempenho formidável. Só que, no fundo, a genialidade dele também vinha do seu jeito de ser irreverente”, avalia. Além disso, ele destaca que Sócrates foi muito mais que um atleta ao lutar por transformações políticas. “Uma pessoa como ele é difícil surgir em qualquer área. No futebol, mais ainda, porque o meio é muito conservador, machista e opressor.”

 

Sócrates, por sinal,  era um homem acostumado a vencer obstáculos. Primeiro, foi a luta para conciliar a faculdade de Medicina com os treinos e jogos. Depois, a batalha contra a própria estrutura física. “Ele era alto demais e tinha o pé pequeno. Mesmo assim, com inteligência e habilidade, superou as dificuldades. Seu famoso toque de calcanhar, por exemplo, nada mais era que uma estratégia para driblar a sua dificuldade de girar o corpo”, comenta o jornalista Celso Unzelte, comentarista da ESPN e pesquisador da história do Corinthians.

“Sócrates era um pouco lento, mas tinha um toque de bola refinado e uma excelente visão de jogo. Era um jogador cerebral. Não raro, os colegas de equipe não conseguiam acompanhar seu raciocínio e perdiam passes incríveis”, afirma Unzelte, autor do Almanaque do Timão. “Na Copa de 1982, poucos entenderam por que Telê Santana o colocou como capitão do time, que tinha astros como Zico e Falcão. Mas tecnicamente ele foi tão bom quanto eles. Em algumas partidas, até melhor.”

Após a aposentadoria, antecipada por uma hérnia de disco, Sócrates jamais deixou de se posicionar politicamente e lutar por transformações, no futebol e em seu País. Em suas colunas na CartaCapital, criticava implacavelmente os desmandos da cartolagem e a forma pouco republicana como a Copa de 2014 é organizada no Brasil, por exemplo. “Mesmo doente, ele se dispôs a liderar um movimento para democratizar a CBF, a exigir eleições limpas e renovação política”, lembra Zenon.

 

Após a primeira  internação, em agosto, Sócrates admitiu ter problemas com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Recusou, porém, a pecha de dependente químico. “Só tenho uma dependência, a intelectual. Preciso ter sempre um livro na mão.”

“Sócrates foi o jogador mais original que o Corinthians já teve. E um dos mais originais da história da Seleção Brasileira”, comenta Kfouri. “Digo isso pensando em Garrincha, que também tinha um talento que desafiava a lógica. Triste coincidência, Garrinha foi o primeiro jogador da Seleção de 1958 a morrer, aos 49 anos, vítima do alcoolismo. E Sócrates foi o primeiro a falecer da equipe de 1982, pelo mesmo motivo. Ambos geniais.”

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