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Coluna do Leitor

Um brasileiro na China

por Coluna do Leitor — publicado 19/04/2011 16h32, última modificação 19/04/2011 16h32
O leitor Teócrito Abritta, que já esteve na China, divide com os leitores suas impressões sobre o que viu e conheceu com intuito de mostrar o que está além do noticiário econômico

Por Teócrito Abritta, Físico e Escritor*

Com esta visita de Dilma à China, a nossa imprensa, como sempre, apenas repete exatamente as mesmas notícias, as mesmas fotografias oficiais.  Onde estão os fatos interessantes por trás do enfadonho noticiário econômico?  Onde estão as críticas ao regime chinês que fuja às mesmices da imprensa americana?  Como uma crítica a estas limitações, comento duas visitas que fiz a este país.

A primeira vez que visitei a China foi em 1992.  Puro deleite nas apinhadas ruas dos bairros populares de Xangai, a imponência de Pequim e a grandiosidade das muralhas da China.  A segunda vez foi em 2007.  Grande decepção com a ocupação militar do Tibet.  Os visitantes deste país, normalmente ficam encantados com a beleza de sua natureza e a grandiosidade de seus palácios e templos, principalmente com o gigantesco Potala, centro político e espiritual, que fica no alto de uma colina no centro da capital Lhasa.  De lá reinava o Dalai Lama, em uma verdadeira “Cidade Proibida” para o povo.  Mas, como observou Mario Vargas Llosa falando sobre viagens e seus lugares preferidos no mundo, não se pode entender uma sociedade e um país se não se interessar minimamente por sua problemática política.  Assim, procurei ver o que normalmente não é visto, com os olhos insuspeitos de uma pessoa que para lembrar a idade da esposa, tem que associar sua data de nascimento ao ano da Revolução Chinesa.

O Tibet, antes da invasão chinesa na década de 50, era um reino teocrático onde o Dalai Lama reinava absoluto, com um povo vivendo em um sistema medieval, pagando tributos e enviando alimentos para os monastérios, verdadeiras cidades, como o de Ganden, com 2 mil monges, e Drepung, o maior de todos, com 10 mil monges.

Os chineses chamam a sua invasão do Tibet de libertação, mas na realidade substituíram o poder medieval do Dalai Lama por um sistema de apartheid, onde os tibetanos são sistematicamente eliminados, expulsos de seu próprio país e têm a sua cultura destruída, para serem substituídos por uma massa chinesa passiva e bem comportada.  Hoje, esta política já reduziu drasticamente a população tibetana – que já é menos da metade da chinesa – neste país chamado eufemisticamente de “Território Autônomo do Tibet”.  Neste massacre físico e cultural, os tibetanos são considerados seres inferiores, diante da suposta superioridade racial chinesa. Nas escolas só se ensina o mandarim, todas as oportunidades de emprego, cargos públicos e até um simples alvará para a abertura de um comércio contemplam prioritariamente os cidadãos chineses.  Este governo de ocupação legisla até no mundo sobrenatural, com a “Regulamentação Nacional Chinesa sobre Assuntos Religiosos” que determina qual é o Lama que vai encarnar o supremo Dalai Lama após a sua morte.  O interessante é que o governo de Pequim escolhe também os bispos católicos e o Vaticano simplesmente se cala, em um pragmatismo político que rasga princípios éticos que deveriam ser inegociáveis.

Destruição cultural e monges drogados

Na chegada ao aeroporto de Lhasa, todo o esplendor da paisagem se dissipa com a estrutura militarista na recepção.  No caminho para a capital levamos aproximadamente uma hora, percorrendo uma estrada ladeada de instalações militares, que vai em seu percurso destruindo a paisagem, cortando montanhas e aterrando lagos, dando uma amostra da “modernização chinesa”, onde impera o mau gosto, o desrespeito ambiental e o desprezo a qualquer valor cultural, em um culto absoluto ao lucro fácil.

Um pouco antes da chegada, paramos para ver uma enorme estátua de Buda talhada na encosta de um rochedo no séc. XI.  A visão deste monumento foi chocante, pois assim como duas estátuas gigantes de Buda no Afeganistão – Os Budas de Bamiyan – foram destruídas, por aqui os chineses cobriram todos os resquícios da pintura original com uma “restauração do tipo alegoria de escola de samba” em um grande atentado cultural, bem ao gosto de uma mentalidade modernista simplória, onde tudo deve estar tinindo de novo para agradar a um turismo de massa.

Mas, outras grandes surpresas ainda nos aguardavam, como o susto na entrada em Lhasa, transformada em uma mistura de cidade americana brega com o bairro oriental de São Francisco, com suas fachadas douradas, muito plástico e mau gosto por todos os lados.

Dentro deste festival de surpresas, ficamos também conhecendo os monges-funcionários-públicos que administram o Norbulingka, o antigo palácio de verão dos Dalai Lamas, que ficava perto de nosso hotel.  Estes funcionários vestiam-se de monges budistas e para passar o tempo eram muito criativos.  Eles misturavam haxixe com incenso, conseguindo não só espantar os visitantes com uma fedentina insuportável, como chegar aos seus “nirvanas”, cantarolando com seus olhos vermelhos e ares imbecilizados.  Um dos supostos monges estava tão drogado que resolveu usar um aspirador de pó para encerrar o expediente mais cedo com a barulhada que fazia.  Se os nossos chamados “aspones” descobrirem esta prática, a turma do chamado polígono da maconha nordestino vai ser obrigada a pedir um PAC para aumentar a produção desta erva.

A “Igreja” chinesa

A nossa “peregrinação” continuou visitando o Jokhang, um dos templos mais sagrados do budismo tibetano, restaurado às pressas, naquele estilo de “alegoria de escola de samba” e transformado em uma espécie de Disneylândia chinesa.  Na entrada do templo havia um estacionamento para os luxuosos automóveis das autoridades chinesas e as massas de turistas tinham que se esgueirar entre os carros, como um bando de zumbis seguindo os guias com bandeirinhas coloridas que vão gritando informações e fazendo o circuito de visita, parando em alguns pontos para fotografias, como se fosse a esteira rolante de uma fábrica.  As paredes do templo são cobertas de dinheiro, e por todos os lados observamos recipientes para as doações, que são recolhidas constantemente e levadas para uma pequena sala onde o dinheiro é contado e ensacado, tal qual certas igrejas que por aqui vivem explorando a fé popular.  A “Nova Direita” brasileira, na sua cruzada pelo voto fácil, seria reprovada diante da eficiência chinesa em mistificação e lucro.

No final do dia as bilheterias deste circo são fechadas e assistimos a uma cena de cortar o coração, que é a chegada de centenas de peregrinos tibetanos com suas roupas típicas, mostrando a enorme diversidade cultural que Pequim quer apagar da História.  Nos arredores deste templo temos o quarteirão da rua Barkhor, ainda não destruída, onde podemos viver um pouco do verdadeiro Tibet, tomar uma bebida local –  um horroroso chá misturado com manteiga de yak – e refletir que a luta do povo tibetano deve ser inserida em um processo mais amplo de autodeterminação dos povos: como os curdos, palestinos, armênios e todos aqueles massacrados neste mundo, desde os beduínos em Israel aos afegãos estraçalhados pelos bombardeios da OTAN.  A visão de um grupo de Khampas, com seus cabelos envoltos em lã vermelha reforça esta ideia.  Por que não reivindicar a criação do país Kham e de outros que formariam uma federação tibetana?  Afinal de contas, conforme o Zen Budismo, O caminho do meio está onde não há nem meio nem dois lados.  Aqui, tristemente formados pela opressão de Pequim e pelo antigo regime medieval dos Dalai Lama.

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