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Sociedade

Especial - 50 anos do golpe

Um apavorante susto

por José Celso Martinez Corrêa — publicado 24/03/2014 08h58
Militares histéricos nos caçavam. Lutamos capoeristicamente: mudávamos até a linguagem das peças. Até que nos pegaram

Foi um susto!

Do dia 31 de março ao dia 1º de abril, começamos a ser Caçados.

Caçadores Fardados alardeavam pelas Mídias – rádios, tevês, jornais:

– CAÇA AOS COMUNISTAS! CAÇA AOS SUBVERSIVOS!

Senti, 
sentimos, 
um apavorante susto!

Este mesmo susto senti eu quando vi,

em pleno Carnaval de 2014,

um soldado da PM de máscara e corpo inteiro,

não pro carnaval de Dionísios, mas pra COPA!

A PM fantasiada de ROBOCOP!!!!!!

O Poder do Estado pretendendo proibir o uso de máscaras nas manifestações,

ao mesmo tempo em que apresentam a ROBOCOPA a nós, desmascarados, desarmados ?!

É uma DECLARAÇÃO DE GUERRA?

Cassados os direitos humanos de manifestação,

estamos diante de ROBÔS que poderão até nos matar.

Como nós, corpos sujeitos da vida e da história, seres livres vivos, vamos contracenar com esta estranha entidade – pessoa tanque de guerra de ficção científica?

Nos anos 50, início dos 60, o Teat(r)o Oficina e eu tivemos a felicidade de viver e crescer nos afirmando como animais indomáveis de Teat(r)o, contracenando com uma multidão botando fé nas reformas de base, plugadas nos artistas criadores da Bossa Nova, do Cinema Novo, da Radio Nacional, os Concretistas – Nova Figuração, Sambistas, Estudantes Estudiosos.

SUICIDIO LIBERTADOR

Eu estava no Colégio Estadual de Araraquara, em uma aula nem me lembro de quê, quando de repente as pessoas corriam entre salas de aula clamando os Evoés de Trágédia, que depois vim a saber que eram como as do Teatro Grego:

GETÚLIO SE SUICIDOU!

Professores, alunos, bedéis, todos atingidos, saímos pra rua sem nos olharmos, misturando-nos ao que ouvíamos nas rádios transmitindo multidões aos berros, ocupando a Avenida Rio Branco da Capital do Brasil, o Rio de Janeiro, no mesmo frêmito de energia feroz que nos "pegou". Vivíamos em plena Era do Rádio, evoezávamos com o Brasil inteiro:

– O PAI DOS POBRES SE MATOU E TE DEIXOU UMA CARTA TESTAMENTO”

Me lembro que ouvi dentro do meu “em mim”:

– TE VIRA MEU FILHO QUE TEU PAI SE SUICIDOU.

A Engrenagem de Sartre que montamos já demonstrava: Presidente da República, Pai, Deus, não podem nada diante da máquina do Imperialismo.

– TE VIRA dentro da Vida Impressa em Dollar!

Sai d’Ela: TEU PAI SE MATOU!

Eu entendi e acho que muita gente de minha geração sacou, não adiantava esperar nada do poder de cima, era necessária uma revolução.

E passei a contar comigo como uma espécie humana vinda dos deuses minerais, vegetais e animais; com a minha geração e com aquele povo tragicômico orgyástico do enterro de Getúlio. Choravam a morte do Paternalismo, que no Brasil nunca deu em nada.

O suicídio de Getúlio e sua Carta travaram o Golpe Patriarcal Financeirista engatilhado pelo Pentágono e pelos Militares Golpistas territorializando o Brasil como Potência de um lado da Guerra Fria.

O Poder nascido nesta época para os povos dos países hoje chamados emergentes, e naquele tempo 3º Mundo, vinha da não tomada de posição diante de um dos dois Blocos, mas sim do jogo ao lado da Paz no Mundo.

Eu tinha 17 anos e pude gozar até o dia do meu aniversário de 27, 30 de março de 1964, a liberdade criadora que permitiu a existência do Teat(r)o Oficina no sucesso absoluto de Os Pequenos Burgueses de Maximo Gorki.

Essa peça virou do avesso os jovens pequenos burgueses e até os burgueses ditos progressistas. Todos suicidas de classe média com tesão do renascimento do corpo revolucionário, diferentemente de hoje em que todos querem ser – a pequena Burguesia escrava da Alta, que esta grande atriz Valeska Popozuda encena no seu clipe do Beijinho no Ombro:

– DESEJO A TODAS INIMIGA VIDA LONGA PRA QUE ELAS VEJA CADA DIA MAIS NOSSA VITÓRIA.

Fomos comemorar os meus 27 anos num show de Nara Leão e seu joelho, suportando tesudo a curva de seu violão, numa boite da Praça Roosevelt com muitos artistas, sentei numa mesa com o Augusto Boal.

Foram 10 anos em que a cultura brasileira, os movimentos de massa pelas Reformas de Base, Movimento Estudantil através da UNE, Reforma Agrária, o Maravilhoso Movimento contra o “Acordo MEC USAID” – que venceu a partir de 64 e transformou a Universidade num Forno pra produzir $oldados pro Mercado Militarizado.

Darcy Ribeiro, o Político Antropólogo Antropófago que tomou ayuasca com os índios, estava criando uma Universidade Antropófaga, em que até eu iria dar Cursos de Teat(r)o.

Nesse decênio, a não ser com a besta do Jânio, as Portas de Brazília eram abertas sem cercas burocráticas ou/e seguranças. É incrível imaginar isso hoje: Brasília não era ainda BrazILHA.

Jango Goulart, Juscelino, Celso Furtado, Francisco Juliano, a beleza da 1ª Dama Maria Tereza Goulart, de Marta Rocha.

O GOLPE DA GUERRA FRIA NO BRASIL

Mas na manhã seguinte, dia 31, Dona Maria, uma cozinheira épica do apê onde morava no Bixiga, entrou com um exemplar da ÚLTIMA HORA xingando:

SEU ZÉ! O POVO TA FODIDO! OS MILITAR QUEREM ACABAR COM O SALÁRIO MÍNIMO!!!

Assim mesmo fui ao ensaio marcado de Pena que ela seja uma Puta, de John Ford, não o dos filmes de cowboy, mas um dramaturgo recém-pós Shakespeare: escatológico, pornô, maravilhosamente colorido, onde dirigiria Célia Helena, Raul Cortez, Jô Soares, Claudio Marzo, Miriam Mehler, Renato Borghi, Tereza Austragésilo, Eugenio Kusnet, Moema Brun, Lineu Dias, Ronaldo Daniel – depois Ron Daniels, Geraldo Del Rey, numa montagem que talvez antecipasse O Rei da Vela, trabalhada no prazer do Teatro a mais radical Teatralidade – com muita cor. Tínhamos dinheiro da ótima bilheteria de Os Pequenos Burgueses, todos enchafurdados no prazer da criação desabusada em fase de 1ªs leituras em torno de uma mesa enorme.

Escancara as portas do Oficina Lilian Lemmertz, mensageira da tragédia:

CONGESTIONAMENTO DE TANQUES DE GUERRA NAS RUAS.

INVADIRAM O TBC, QUEREM FECHAR TODOS OS TEATROS.

Saímos todos pra Consolação no Teatro de Arena perto da Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. A Pitonisa estava certa: engarrafamento no trânsito, não de carros, mas dos Tanques e Canhões apontados pra todos os lados.

Encontramos muita gente da “classe teatral” e combinamos uma reunião depois dos espetáculos na Casa de Maria Alice Vergueiro.

Tínhamos uma sessão de Pequenos Burgueses.

O Oficina, que lotava todas as noites, estava totalmente vazio, umas 15 pessoas.

Os atores foram até o fim da peça incorporando o que se passava naquela noite – quem estava nesta sessão teve o privilégio de viver este momento com intensidade maior – com as mãos tremulas, não sei como foi, mas o Hino da Internacional Comunista que fechava a peça foi substituído por uma música russa, talvez até ortodoxa, pois tínhamos ganho através do Kusnet muitos discos do Consulado da URSS.

Na reunião da Classe, com a tevê ligada, vi aparecer n’Ela meu professor de Direito Internacional Gama e Silva, um cadáver, ressuscitando como o democrata do Golpe que iria ocupar o Ministério da Justiça.

Os Mortos saíam dos Túmulos.

A Decisão de todos era escapar, não se deixar capturar pela ordem de caça aos subversivos e aos comunistas.

Senti literalmente o chão fugir aos meus pés.

O Ato Estratégico Trágico de Manifestação do Poder Humano, de TeAto Político, atuado pelo ator presidente Getúlio Vargas, com o texto de sua Carta Testamento e seu SuiCídio, levantou o TRANSE DOS COROS DAS MULTIDÕES DE TODO BRASIL que abortaram o Golpe Militar pró Guerra Fria, preparado para Agosto de 1954.

Em 64 já estávamos espertos – eu tinha 27 anos.

Foram os dias de “CAÇA AOS COMUNISTAS! AOS SUBVERSIVOS!”.

Militares histéricos nos caçavam tomando o lado do Pentágono na Guerra Fria.

Fomos driblando a Ditadura e a Censura, lutando capoeristicamente, mudando sempre nossas estratégias e linguagem para as peças, até que, depois de várias tentativas, nos pegaram em 1974 –10 anos de Golpe!

O Teat(r)o Oficina foi invadido, muitos fomos presos. Fui torturado juntamente com o ator fotógrafo Celso Lucas e exilado para Portugal, descolonizando-se com suas ex-colônias.

Na Anistia retornei ao Brasil e ao Teat(r)o Oficina. Um período subterrâneo vivido durante a “depressurization” = abertura gradual lenta e restrita, para  começar a emergir totalmente com a inauguração do Terreiro Eletrônico do Teat(r)o Oficina, Obra de Arte de Lina Bardi e Edson Elito com o “HAM-LET” –Impeachment de Collor no dia 3 de outubro de 1993.

Hoje, juntamente com a PM – Polícia Militar – a disfarçada de ditadura explícita, apoiada no Vodu Metafísica da Fatalidade da Especulação Financeira, instaurou-se no aparelho do Estado, plugado no Agro Negócio de Alimentação com sabor de inseticida, a tentativa de extermínio dos Índios, da Natureza, do Cultivo da Vida, quer dizer, da Cultura. É a Tentativa de Domínio de Uma Verdade ÚNICA, de preferência a que mais pode gerar preconceitos, cegar mais a visão, violentar a contracenação com o Outro, a que traz o desprezo pelo Teatro que é uma Arte do Poder Xamânico Humano ligado ao Cultivo da Vida, a que sintomatiza o que acontece no Ato de Teato Mundi e Muda.

A Cultura é desprezada porque Muda, e é muda de outra maneira de estar e ser no mundo.

As Máscaras da Homofobia, Racismo, Machismo, Consumismo, Dinheirismo não resistem diante do PHODER HUMANO do ser que encara a vida desassombradamente.

RETORNANDO AO GOLPE

Foi uma surpresa inesperada pra todos. Celia Helena tinha uma casa em Ubatuba onde sumiríamos. Entramos no apartamento de Geraldo Del Rey, Renato Borghi raspou a barba de Piotr que fazia em Pequenos Burgueses e fomos pra Praia enquanto Ítala Nandi pintava os cabelos de Louro e passava a gerir o Oficina com a montagem de Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera, de Gláucio Gil. Convidou Benedito Corsi para dirigir Tarcísio Meira como galã, Miriam Meheler, Ítala e Eugênio Kusnet no Elenco. A peça foi dando a grana que precisávamos – menos os do Oficina e muito mais os do Arena – para ir ao Exterior para não sermos caçados.

O Golpe caçava primeiro os que estavam no Poder, os jovens do CPC que militavam nas favelas, na UNE - União Nacional dos Estudantes – Incendiada, os do Movimento de Cultura Popular, que explodiu em Pernambuco ao mesmo tempo das Ligas Camponesas, onde a repressão foi de arrastar pelas ruas o Corpo Nu Vivo de Gregório Bezerra, líder comunista puxado por uma corda.

Quando Cleyde Iaconis foi presa no TBC pairava uma interdição aos Teatros em que os sucessos eram os das peças ditas subversivas.

Na peça que vamos montar, Cacilda 64 – o Golpe, Maria della Costa e Cacilda Becker têm uma sacação estratégica de Grandes Atrizes da Política, que é a Arte do Teatro em si.

O DOPS intimou a classe Teatral paulista a Depor.

A Operação chamava-se Sindicância Para Apurar a Infiltração Comunista no Meio Teatral.

Ambas pedem que fossemos todos muito bem vestidos em fantasias de bons moços e moças, como num Cortejo. Cacilda veste um Dior, Maria os Modelos das Casas Vogue, de Denner ou de outros tops da época. Combinam tudo por telefone: alugam dois Rolls Royce, chamam toda a Mídia e descem com seus sapatinhos forrados de suas carruagens sob todas as luzes da Tupy, dos flashes de todos os jornais e revistas.

Penetráramos no PARDIEIRO DO DOPS onde nos esperava o Delegado Dr. BuonCristiniano e a televisão transmite tudo ao vivo.

Cacilda e Maria della Costa respondem ao interrogatório com uma clareza e cara de pau que deixou constrangido o Delegado diante das tevês.

Cacilda libertou não somente Cleyde Iáconis, que estava presa, como outros Atores e Atrizes e terminou por conseguir do Buon Cristiniano, que todos os teatros fossem abertos:

ESTAMOS AQUI ESPONTANEAMENTE DESAUTORIZANDO O CARÁTER COERCITIVO DA INTIMAÇÃO … NÃO CORTEM AS AZAS DO TEATRO BRASILEIRO QUE ESTÁ EM SEU PLENO ESPLENDOR.

Não deviam se meter, mas se meteram através de grupos paramilitares que queimaram a TV-Bandeirantes, o Teat(r)o Oficina, ameaçavam jogar bombas nas Assembleias dos Teatro em que se Lutava contra a Ditadura e sobretudo a Censura.

Em 68 estes milicianos paramilitares Atacaram a Roda Viva no Teatro Galpão na Operação Quadrado Morto, em que assistiram, por quase um mês inteiro, ou mais, a peça pra aplicar sua invasão baderneira terrorista na saída do público destruindo como vândalos os equipamentos do teatro e batendo nos atores e atrizes.

Depois foi o próprio 3º Exercito Nacional de Porto Alegre que atacou pela segunda vez o Roda Viva no Hotel onde estava o elenco, exatamente como aconteceu agora num Hotel da Rua Augusta com a PM e os manifestantes.

Neste massacre não permitiram os advogados de se aproximar dos atores feridos. Foram todos colocados dentro de um Ônibus de volta pra SamPã, sem tratamento para os feridos. Chegaram com as feridas ainda sangrando nas portas do Teatro de Ruth Escobar.

A Peça então foi proibida em todo Território Nacional pelo próprio Exército.

Até o AI-5, de uma certa maneira o Teat(r)o Oficina foi poupado. Encenamos Galileu Galilei, de Brecht, no dia 13 de dezembro, onde ouvíamos pelo rádio o Pronunciamento do Ato Institucional nº 5, pelo qual os militares engrossaram de Vez.

Tínhamos uma Censura para a qual enviávamos os textos e depois fazíamos ensaios gerais para os Censores. Mas sempre liberavam nossas peças porque não entendiam nada. Nós tínhamos desde O Rei da Vela & Roda Viva saído dos critérios da Censura que estava ainda na fase de proibir textos que criticassem diretamente o Governo ou os ligados ao Realismo Socialista.

No ensaio de Roda Viva nenhum censor olhou para o palco. Todos hipnotizados pelos olhos realmente lindos de Chico Buarque de Holanda, que tinha a presença tímida de um deus jovenzinho pra lá do atraente – um santo!

E agora?

O Carnaval de 2014 rolou sem Violência Explícita Militar?

Parece que sim.

Estamos a menos de 100 dias da COPA e próximos à eleição – Ano difícil. Começar tudo de Novo – o Teat(r)o Oficina e seu entorno pra variar a perigo mas não para encenar na Vigília dos dias 31 de março e 1º de Abril

Cacilda 64 – O Golpe.

Nem começamos a ensaiar

MERDA

*José Celso Martinez Corrêa é o diretor do Teatro Oficina. Este texto faz parte da série de artigos do especial Ecos da Ditadura, que lembra os 50 anos do golpe cívico-militar