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TV Globo faz 50 anos e movimentos sociais preparam protestos

por Redação — publicado 25/04/2015 02h14
Em pelo menos três capitais, manifestantes irão repudiar o monopólio midiático e o autoritarismo editorial da emissora, além de seu suposto envolvimento em casos de corrupção e sonegação fiscal
Núcleo Piratininga de Comunicação
Protesto-tv-globo

Os atos contra a emissora se concentrarão nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre

A TV Globo comemora 50 anos de existência, neste domingo 26, em meio a protestos. Diversos coletivos de comunicação e movimentos sociais se reunirão neste domingo, em ao menos três capitais, para protestar contra o "autoritarismo" da empresa e seus "50 anos de mentira".

Em um manifesto conjunto, as organizações acusam a emissora de ser a "filha bastarda do golpe militar de 1964" e de desempenhar um "papel nocivo na história do país". O documento elenca ações controversas - algumas nunca confirmadas pela emissora - que foram determinantes na história política brasileira. Entre elas, estão o apoio da empresa ao regime militar e à campanha de Fernando Collor à presidência da República, em 1989. 

Como parte das comemorações por seus 50 anos, o Jornal Nacional, principal telejornal da TV Globo e da televisão brasileira, vêm exibindo uma retrospectiva sobre o jornalismo da emissora, desde segunda-feira 20. Apresentada pelo âncora William Bonner e comentada por 16 profissionais de peso da casa, a retrospectiva esforçou-se para posicionar a TV Globo como vítima – e não apoiadora – da ditadura. Citando uma série de reportagens, a Globo se disse vítima da censura dos militares em uma estratégia narrativa apelidada de "retroficção" pelo jornalista José Simão, do UOL. Em seu perfil nas redes sociais, Simão afirma que "eles [jornalistas da TV Globo] pensam que a gente é criança".

A narrativa também foi alvo de críticas do jornalista Mauricio Stycer, especializado em mídia e entretenimento e também do UOL. Para ele, "o especial omite muitos fatos que poderiam deixar esta narrativa mais equilibrada". Como exemplo, Stycer cita o programa “Amaral Neto, o Repórter”, que entre 1968 e 1983 ocupou espaço na grade da emissora louvando os feitos do governo militar.

Do ponto de vista econômico, a Globo só tem motivos para comemorar. Em 2014, o grupo Globo fechou 2014 com um faturamento de 16 bilhões de reais, um crescimento de 9,7% sobre o ano anterior. A audiência, entretanto, vem caindo. Com 13,5 pontos de audiência entre às 7h e a meia-noite, em 2014, a TV Globo viu sua audiência cair 5% em comparação com 2013 e alcançar o pior desempenho anual, desde que virou líder de audiência, há 45 anos. O Jornal Nacional chegou a ter 85% de audiência da televisão brasileira e, agora, não passa dos 20%. 

Apesar disso, a emissora ainda lidera com folga o mercado de mídia nacional. A distância entre a Globo e sua concorrente Record é tamanha que o um lucro líquido da emissora, em 2013, superou todo o faturamento de sua concorrente. O lucro do Grupo Globo Comunicações, naquele ano, foi de 2,583 bilhões de reais contra 2,250 bilhões de reais de faturamento da Record.

Esses valores fazem dos irmãos Marinho (Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto), os controladores do grupo Globo, a família mais rica do Brasil. Um levantamento da revista Bloomberg Markets, realizado em 2013, estimou a fortuna dos irmãos em 20,6 bilhões de dólares, fortuna que supera o Orçamento da cidade de São Paulo. 

A fortuna da TV Globo explica-se pela liderança do mercado televisivo brasileiro. Hoje, a emissora concentra 60% de toda a receita publicitária do Brasil. Somente o governo brasileiro pagou, entre os anos 2000 e 2013, 5,2 bilhões de reais em publicidade das empresas estatais às Organizações Globo.

Escândalos
A TV Globo coleciona, desde sua fundação, casos de movimentações financeiras controversas e milionárias, mas que nunca foram julgadas ilegais pelo Estado. Inaugurada em 1965, a emissora de TV já era uma empresa de rádio estabelecida, porém não conseguia reproduzir seu sucesso nas telas brasileiras. Um acordo de "cooperação técnica" firmado com a gigante da mídia norte-americana Time-Life alterou essa realidade e ajudou a emissora a tornar-se líder de mercado. O acordo, porém, era vedado pela Constituição e até hoje é negado pela Globo, embora esteja documentado por Daniel Herz, no livro A história secreta da Rede Globo (1995). Uma vez líder de audiência, a emissora nunca mais perdeu a liderança do setor.

O escândalo mais recente envolvendo a Globo refere-se à sonegação fiscal. O conglomerado de comunicação é suspeito de ter sonegado o Imposto de Renda ao usar um paraíso fiscal para comprar os direitos de transmissão da Copa do Mundo Fifa de 2002. Uma investigação da Receita Federal decidir punir a emissora em 615 milhões de reais, em 2006. No entanto, semanas depois o processo desapareceu da sede da Receita no Rio de Janeiro. Em janeiro de 2013, uma funcionária da Receita foi condenada pela Justiça a quatro anos de prisão como responsável pelo sumiço. No processo, ela afirmou ter agido por livre e espontânea vontade.

Em meio a tantas controversas políticas e econômicas, o grupo Globo tem acumulado reveses nos últimos anos. Em 2012, a TV Globo perdeu, pela primeira vez, os direitos de transmitir as Olimpíadas de Londres para sua concorrente Record. Em 2015, foi a vez do canal fechado Fox Sports retirar da Globo os direitos de transmissão da Copa Libertadores da América, o maior torneio de futebol da América do Sul, e tornar-se líder de audiência na TV paga e vice-líder na TV aberta durante a transmissão exclusiva do jogo do Corinthians e San Lorenzo.

Soma-se a isso, os protestos populares contra a emissora. Neste domingo 26, organizações sociais prometem sair às ruas de São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro para "enfrentar o poder e colocar limites à maior emissora do Brasil". Sem isso, afirma o manifesto, "não será possível garantir a regulamentação dos artigos da Constituição que proíbem o monopólio para levar a cabo a democratização do País".