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Sociedade

Crônica / Matheus Pichonelli

Triste ironia: as costas que suportaram o mundo não suportaram a covardia

por Matheus Pichonelli publicado 05/07/2014 11h06, última modificação 08/07/2014 10h57
Se há didatismo em toda tristeza é que no esporte, como na vida, não são os músculos e o desejo que moldam o destino. São as rasteiras
Marcello Casal Junior / ABr
Neymar

Se há didatismo em toda tristeza é que no esporte, como na vida, não são os músculos e o desejo que movem o destino. São as rasteiras

Na coletiva de imprensa da véspera da estreia na Copa do Mundo, um repórter desafiou Neymar a fazer uma pergunta ao chefe, Luiz Felipe Scolari.

-Eu jogo amanhã, professor?, perguntou o camisa 10, provocando não um riso, mas uma gargalhada no treinador e nos jornalistas que acompanhavam a entrevista.

A pergunta era quase um drible característico: tão improvável quanto absurdo. Que ele jogaria estava claro desde que vestiu pela primeira vez a camisa da seleção brasileira, em um amistoso contra a seleção dos EUA, em 2010, ainda sob o comando de Mano Menezes. Desde então, a equipe se resumia a uma frase: era ele e mais dez. Ele e mais dez contra a rapa.

O drible de Neymar na coletiva era o drible em uma armadilha. O que todos queriam saber, dentro e fora daquela sala de imprensa, era se ele, a partir do dia seguinte, suportaria todo o peso do mundo em suas costas. Durante cinco partidas ele suportou. Nem sempre com brilho, mas suportou: foram quatro gols, um pênalti derradeiro contra o Chile, e duas assistências, uma delas no duelo das quartas, quando fez a bola atravessar, oblíqua e dissimulada, a área colombiana até chegar aos pés do capitão Thiago Silva.

Àquela altura já imaginávamos como seria o duelo com os alemães, na semi: o Brasil, um time entre médio e esforçado, contra uma equipe tão fria e previsível quanto mortal (um amigo costuma dizer: “nada contra a seleção alemã, mas eu prefiro futebol”). Mas os anfitriões tinham um trunfo, ele vestia a camisa 10 e era o único dos 22 em campo capaz de desembaralhar um castelo de cartas construído na base da ciência, da técnica e da aplicação.

Triste ironia: as costas que suportaram o mundo não suportaram a covardia, uma entre tantas sofridas desde que pisou em campo como profissional. Dessa vez, a joelhada do lateral Camilo Zuñiga, aos 40 minutos do segundo tempo de um jogo quase ganho, doeu mais. Não a dor física, a menor das dores, ainda que imensa. Mas a dor de ser içado, com um gancho de guindaste, do próprio espetáculo: uma Copa, em casa, no auge da forma técnica e física.

O Brasil que se chocou ao ver a fratura da tíbia de Anderson Silva, a rótula exposta de Ronaldo Fenômeno e a batida fatal de Ayrton Senna assistia, assim, ao seu principal jogador na década deixar o estádio a caminho do hospital na maca, aos prantos, com um lenço no rosto como um sudário. Não, não precisávamos de um outro mártir, não a essa altura do campeonato. Porque, no fundo, sabemos: não há lição na perda se não a dor, e esta não deixa legados. Mas se há didatismo em toda tristeza é que no esporte, como na vida, não são os músculos e o desejo que moldam o destino, mas as rasteiras. As rasteiras e suas variações: uma joelhada nas costas, um pênalti cavado, uma mordida no rival, um carrinho criminoso. O arsenal entra na lista das habilidades humanas, e tudo o que é humano é imponderável.

No mundo ideal, o futebol seria só futebol, um intervalo lúdico de uma rotina ordinária. Na vida real o esporte é mais que isso: é a rotina ordinária em retrato instantâneo. A rotina ordinária e suas contradições. Nele reconhecemos a beleza, como o consolo de David Luiz sobre James Rodríguez ao fim do jogo. Mas reconhecemos também nossas misérias.

Dentro de campo é possível identificar em tempo real a potencialidade destruidora da nossa preguiça, da nossa mesquinharia, da nossa covardia, da nossa pequenez, da nossa arrogância, da nossa presunção. No esporte, como na vida, ensinam apenas que o importante é vencer. E que não há superação sem conquistas. Por causa dessa lógica, muitos foram limados do esporte, e da vida, sem ter a chance da redenção. Neymar é jovem, vai ser reerguer, vai disputar outras Copas e pode levantar a taça ainda este ano. Mas será sempre, e a partir de agora, a imagem, carregada na maca, de um tempo projetado por Carlos Drummond de Andrade: o tempo em que as mãos tecem apenas o rude trabalho, e o coração está seco – por mais que chorem, eu diria, porque choram de aflição e medo. Justo ele, que suportou o peso do mundo sobre os ombros.

Neymar não é só vítima do absurdo: é vítima de um risco calculado, a estratégia que ensina obediência tática pela imprudência física. Uma imprudência modelada na preleção: se for para perder o jogo, é melhor não perder a viagem. Zuñiga obedeceu às ordens, como os rivais brasileiros, e suas botinadas não menos imprudentes, ao longo de toda a Copa.

A fratura na terceira vértebra lombar tirou Neymar da Copa, e tirou do mundo a oportunidade de assistir, na próxima terça-feira, ao duelo mais nítido entre a razão e o improviso, entre a matemática e a falta de juízo. Não só: tirou o mundo das costas de Neymar e o distribuiu aos outros jogadores da equipe. Nem o mais pessimista dos torcedores imaginaria um roteiro tão cruel, mas do absurdo pode nascer a redenção. Agora não é mais Neymar e mais dez. É Neymar e mais onze. O mundo agora, diria Drummond, não pesa mais que a mão de uma criança.