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Sociedade

Cariocas Quase Sempre

Triste Floresta

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 13/05/2011 13h19, última modificação 13/05/2011 13h48
Um passeio pelo que consta ser a maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca, pode começar bem e terminar em desapontamento. Não pela mata. É a estrutura capenga do parque que nos faz lembrar do Rio como um “novo rico”: une desbunde e decadência

Um passeio pelo que consta ser a maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca, pode começar bem e terminar em desapontamento. Não pela mata em si. Aquela exuberância plantada – sim, plantada - no século 19 em torno de uma cidade que cresce loucamente continua, digamos, intacta para padrões poucos exigentes ao qual corremos o risco de nos acostumar.

 Melhor dizendo: a cidade que cresce loucamente continua fervilhando em torno de uma maravilha verde praticamente “reconstruída” nos tempos imperiais.  Fazendas de café instaladas na área terminaram por devastar a vegetação original. Quatro anos antes de a palavra “ecologia” ter o seu primeiro registro, e preocupado com o abastecimento de água da cidade do Rio proveniente dos mananciais da Tijuca, Dom Pedro II mandou replantar a imensa área com milhares de mudas nativas .

O último Imperador do Brasil gostava de verde. Era um ecofriend, o que só confere nobreza à sua memória. O replantio da Floresta da Tijuca durou cerca de 13 anos. Mas houve outros, também sob o cetro de Pedro II, que chegaram a 25 anos. Talvez oxigenado pela fotossíntese, o elevado espírito real deveria ser imitado por muitos republicanos contemporâneos. Se não, vejamos como suas excelências têm tratado a votação do Novo Código Florestal.  

Tanto para os da terra como para turistas já graduados em Pão de Açúcar, Corcovado, Lapa e Santa Teresa, a Floresta da Tijuca é um programa fenomenal, deduz-se. Perfeita a ideia. E um orgulho tão apressado quanto legítimo, faz os cicerones levar os visitantes para um passeio na hylea carioca. Mas o ufanismo se embaça assim que se adentra a mata.

 Um guarda colocado no portão principal do parque no chamado Alto da Tijuca, passa a ilusão de que estamos entrando num local seguro. Afinal, o Rio tem dado a impressão de ser um lugar melhor do que um ano atrás. Mas a primeiríssima parada, poucos metros à frente, é um banho tão gelado quanto os respingos da Cascatinha Taunay. 

 Na área da queda d’água, há um ampla de estacionamento, um restaurante para lá de sofrível e uma loja de souvernires que lembra uma antiga venda falida sem produtos para oferecer, a não ser biscoitos e sorvetes de padaria de quinta. Nem mesmo as quinquilharias típicas e de gosto duvidoso das nossas lojas turísticas estão lá. Artesanatos de baixíssima qualidade e roupas idem não lembram em nada o Rio, nem que se está adquirindo um produto típico da cidade.

Toaletes instalados em uma construção do tempo do Império, oferecem a quem se aventura a usá-los um ambiente escuro, luzes queimadas, vasos semi-entupidos e uma  pequena amostra de papel sanitário. Numa única, pobre a magra pia, jaz, como sabonete, meio frasco de detergente. Uma senhora, cuja sombra a fez ser confundida com alguma possível ameaça, encarou o susto que provocou na esportiva e se disse, acostumada à penúria. É uma assídua freqüentadora do lugar. Seu relato simplório é o melhor exemplo de formação de mentes conformadas.

Durante todo o percurso à luz do início da tarde, a luz amarela do bom senso  mandava evitar locais desertos e fazer o trajeto óbvio. Mesmo num sábado de sol, a capela Mayrink estava fechada, não havia policiamento ou posto de informação muito menos sinal para celulares. Os restaurantes “Esquilos”, antes um dos mais exclusivos da cidade, e “A Floresta”, pareciam pouco freqüentados pelo número de carros estacionados em volta.

Na saída do Parque, outro guarda solitário com sua prancheta e um Açude da Solidão com seu lago completamente assoreado. Nunca o nome tão romântico do logradouro pareceu tão propício à vida real. Sobrou uma sensação de alívio ao ir embora da Floresta onde antes se ia namorar e caçar vagalumes ao cair da tarde.

Nessas horas, o Rio, com o seu boom econômico e a predestinação de tornar-se uma cidade global com os eventos que vai sediar, lembra a figura de um “novo rico”: une desbunde e decadência, tal qual essa categoria “pequeno burguesa”, como gostam de dizer os do século passado.