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Suu Kyi, uma dama encantadora

por Wálter Maierovitch publicado 24/11/2010 10h25, última modificação 24/11/2010 10h25
Nobel da Paz de 1991, a ativista tem como missão enfrentrar os generais golpistas

Nobel da Paz de 1991, a ativista tem como missão enfrentrar os generais golpistas
Aung san suu kyi, 65 anos, é natural de um país que já foi colônia britânica, onde não existe, para fim de registro civil, a obrigatoriedade de adoção dos nomes de família. Como nasceu em uma terça-feira, ela virou Kyi. O Suu era o prenome da avó, Aung San, e do pai, assassinado em 1947, considerado herói nacional na luta pela independência da então Birmânia, conquistada apenas em janeiro de 1948.
No fim dos anos 60, Suu Kyi laureou-se por Oxford em filosofia, ciências políticas e economia. Quando trabalhava, em 1972, para as Nações Unidas, em Nova York, ela conheceu o especialista em cultura tibetana Michael Aris, nascido na Inglaterra, com quem se casou. Com a mãe doente, Suu Kyi retornou a Rangum, na Birmânia, em 1988. Caso saia do país sem autorização, ela não poderá mais voltar.
Sua prisão ocorreu em 1989. Nos últimos 21 anos, passou 15 encarcerada. Em processo criminal aberto a mando da junta militar golpista, instalada em 1988 e hoje comandada pelo general Than Shwe, a pacifista Suu Kyi acabou condenada por representar, pelas suas opiniões, perigo à segurança nacional.
No sábado 13,  a ativista finalmente foi colocada em liberdade. Desde 2002, era mantida em prisão domiciliar, sob pesada vigilância. Nunca pôde receber a visita dos filhos, Alexander e Kim, residentes em Londres, ou comparecer ao funeral do marido. Só podia ouvir a rádio e a tevê controladas pela junta militar.
A junta ainda mantém encarcerados 2,1 mil presos políticos, segundo Tomas Ojea Quintana, relator da ONU para Mianmar. Em junho de 1989, os militares trocaram o nome do país para Mianmar, embora a etnia birmanesa represente 60% da população. A junta militar, por sua vez, é composta de oficiais da etnia karen (9,5% da população).
Desde 1962, o país vive  sob regime ditatorial, em face de golpe promovido pelo general Ne-Win, protetor de Khun As, falecido em 2007 e conhecido internacionalmente como o “rei do ópio e das drogas sintéticas”. Sob a ditadura de Ne-Win, a Birmânia era a maior plantadora e fornecedora ilegal de ópio-heroína do planeta. Os militares derrubaram Ne-Win e colocaram no lugar o mencionado general Than Shwe, que se apresenta como presidente e chefe de governo.
A tal junta resolveu promover, em 1990, eleição para a formação de uma Assembleia Constituinte. Para surpresa dos militares, a Liga Nacional para a Democracia, conhecida pela sigla NLD e liderada por Aung San Suu Kyi, venceu ao obter 392 cadeiras parlamentares, das 485 em disputa.
Derrotados nas urnas, os militares deram um novo golpe. Por decreto, todos os partidos políticos foram declarados extintos, a Assembleia Constituinte foi suspensa e um Conselho de Estado surgiu com o intuito de “restaurar a lei e a ordem”. Referido órgão trocou de nome em 1997, passou a ser o Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento.
Quando a junta anulou as eleições de 1990, a encarcerada Suu Kyi já era conhecida internacionalmente como líder de um movimento político não violento e a favor da democracia. Por sua militância, ela recebeu o Prêmio Sakharov, outorgado pelo Parlamento Europeu, e o concedido pela Fundação Rafto, ambos conferidos a ativistas nos campos dos direitos humanos, justiça social e liberdade de pensamento. Em 1991, Suu Kyi conquistou o Nobel da Paz.
Por pressão internacional  e sanções econômicas pesadas impostas pela ONU e União Europeia, a junta militar de Mianmar, que conta com o apoio da China, havia marcado para 7 de novembro de 2010 o início da redemocratização, com eleições livres. Para evitar riscos, a prisão domiciliar de Suu Kyi, por uma absurda acusação de descumprimento das normas disciplinares, acabou prorrogada, de modo que a pena fosse concluída somente após o sufrágio. Um norte-americano, com problemas mentais adquiridos na Guerra do Vietnã, invadiu pelo lago Inya a casa de Suu Kyi, que é budista, e entregou-lhe uma Bíblia protestante. Dada como culpada, a pena domiciliar foi prorrogada por mais 11 meses.
A eleição de 7 de novembro foi marcada pela fraude. E a junta elaborou uma lei eleitoral que proibia viúvas de estrangeiros, como Suu Kyi, de concorrer a uma cadeira no Parlamento. Solta, a líder pacifista, perante uma multidão de seguidores, pediu a união de todos para o ideal democrático vir a ser alcançado. No dia seguinte, ela afirmou que reorganizará o partido e está disposta a celebrar com os militares um pacto de reconciliação nacional.
O futuro é incerto para Suu Kyi. No simulacro de eleição, ela havia recomendado abstenção. Membros do seu ex-partido, contudo, lançaram candidato e participaram da farsa dos generais. Esses continuam a se alinhar com a China, que não engole a entrega do Nobel da Paz de 2010 ao chinês Liu Xiaobo, condenado à pena de 11 anos de prisão. A tendência é o governo de Pequim continuar a apoiar a junta golpista de Mianmar, país dos diamantes, do ópio, da heroína, das drogas sintéticas e de corruptos narcoditadores.

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