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Sem-tetos tentam impedir despejo em Campinas (SP)

por Piero Locatelli — publicado 13/11/2013 05h57, última modificação 13/11/2013 14h59
Na Ocupação Joana D`Arc, 300 famílias buscam evitar reintegração de posse e conseguir moradia permanente em caminho de trem abandonado. Por Piero Locatelli
Piero Locatelli/CartaCapital
Moradora

Casas na ocupação seguem caminho do trem desativado

O trajeto abandonado de um trem elétrico virou a moradia de 300 famílias em Campinas. Há cerca de um ano, parte delas ocupou  uma região  pela qual passava o VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos) que operou por cinco anos na cidade, a terceira maior de São Paulo, até 1995. Agora,  as famílias tentam impedir a demolição dos barracos e a reintegração de posse, marcada para o dia 22 de novembro, enquanto não tiverem um lugar para morar.

A ocupação Joana D`Arc acontece em um dos locais degradados pelo abandono do trilho na cidade, onde ficava a estação Anhanguera, ao lado da rodovia de mesmo nome. Segundo levantamentos dos moradores, há mais de duzentos terrenos desocupados do Governo Federal onde passavam os trilhos. Ao lado deles, por toda a cidade, há sinais de degradação e acúmulo de lixo.

Os moradores contam que encontraram o local cheio de entulho, não derrubaram nenhuma árvore e o limparam. “Aqui sempre foi um lixo, como se fosse uma cracolândia. Agora o pessoal faz até caminhada aqui ao lado”, diz Fábio Santos de Jesus, jardineiro e morador da ocupação. “Acham que a gente veio para cá atrapalhar. Mas ao contrário, a gente veio ajudar.”

As casas improvisadas formam um corredor ao longo de quase um quilômetro, onde antes passava o trem elétrico. Como sinal da existência do VLT, sobraram os postes de energia e a estação abandonada. Moradores disseram ter gasto mais de quatro mil reais na construção de alguns barracos, entre mão de obra e material. Algumas das casas têm caixas d’água e antenas. A segurança é feita de maneira compartilhada pelos moradores, que se revezam na atividade. Há também um pequeno comércio no local, onde são vendidos cachorros quentes e pães de queijo. O uso de drogas e a venda de bebida não são tolerados, segundo as lideranças.

Ao lado do local ocupado, há seis torres abandonadas, com quinze andares cada. Nunca terminados, os edifícios foram embargados pela prefeitura e seguem do mesmo jeito desde a década de 1990. Apesar de desocupados, não há indicação de que os prédios irão ao chão, como os barracos ocupados ao seu lado.

Prefeitura: ocupação “resulta na degradação urbana e ambiental”

A prefeitura pediu a desocupação da área em junho deste ano, apesar de não ser a proprietária do local. O governo municipal tem planos para que o seu novo sistema de ônibus, conhecido como BRT (Bus Rapid Transport), passe no local. Na ação que pede a saída dos moradores, o executivo diz que a ocupação é “desordenada e caótica” e “resulta na degradação urbana e ambiental” do local. Segundo a secretaria de Habitação, o primeiro aviso para a saída dos moradores foi dado em fevereiro.

Neide Silva, uma das lideranças da ocupação e do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), diz que o tratamento da prefeitura com os moradores é injusto. “Têm faculdade, shopping, condomínio e ferro velho perto do trilho. Para quem tem dinheiro, tem terra. Para quem é sem terra não tem. E a prefeitura veio mexer justamente com que não tem para onde ir,” diz Neide.

O movimento reivindica o atendimento em casas já construídas pela prefeitura ou  por meio do programa Minha Casa Minha Vida Entidades,  pelo qual os movimentos têm mais controle sobre a construção das casas. A Secretaria de Habitação, pela  assessoria de imprensa, disse que não deve dar preferência aos moradores da ocupação nas suas políticas habitacionais. Eles devem se inscrever em algum dos programas dela e aguardar atendimento.

Os moradores, porém, reclamam da demora nas filas sugeridas pela prefeitura. “Se a gente faz cadastro na Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação), esperamos 15, 20 anos e não acontece nada,” diz Claudia Moreira Gonçalves, desempregada e moradora da ocupação. “Quando eu fui fazer o cadastro, já tinha acabado a inscrição. Aí eu desisti e nem fiz.”

Os moradores foram recebidos pela Secretaria de Habitação pela primeira vez na última segunda-feira 11, quando pediram o adiamento da reintegração. Eles disseram que há uma reunião já agendada entre o secretário de habitação, Ricardo Chiminazzo, o prefeito, Jonas Donizette (PSB), e um representante da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) nesta semana. A SPU,  em nota, disse que “atualmente está em análise uma proposta que trata de atender às famílias com habitação definitiva em outra área, seja da Prefeitura ou da União. Levantamentos para identificar qual seria essa área já estão em curso.”

Caso os moradores não consigam adiar a reintegração ou ter suas demandas atendidas, eles dizem que devem resistir à desocupação. “Eu vou sair daqui só na última hora, eu ponho o filho para a vizinha e entro para guerrear. O prefeito tem que se virar e dar um jeito. Eu não vou mais pagar aluguel não, eu vou lutar até o último minuto,” diz Claudia.