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Sociedade

Ecos da Ditadura

Se não fosse assim

por Menalton Braff publicado 22/03/2014 08h44
Para aqueles que tanto falam em corrupção, é bom lembrar que ela medra sobretudo quando as bocas estão todas caladas, e os criminosos sentem-se impunes

O passado é nebuloso e o futuro, imprevisível. Mas naqueles anos de 60, nós, os jovens, queríamos traçar os caminhos da humanidade com nossas próprias mãos. Romantismo? Pode ser, mas triste da sociedade cujo espírito romântico já morreu. São as utopias que nos movem e que nos fazem suportar o ramerrão de uma vida sem qualquer saída, sem ar que satisfaça a todos.

Estávamos nos corredores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, quando chegou a notícia de que um general, em Minas, havia soltado um grito estranho, gutural, com algo de ferocidade. A noite, depois das aulas, foi agitada, de sono ruim.

Na manhã seguinte, um grupo de estudantes havia tomado a Rádio da Universidade, e lia proclamações contra o golpe. Um dos salões da Universidade, no térreo, em poucos minutos transbordou de patriotismo juvenil. Não se podia passar pelos corredores. E eis que chega alguém correndo e proclama nossa derrota: Estão vindo de tanques. Foi a instalação do terror, o anúncio do fim da democracia.

Nem pedras havia por ali para uma manifestação idiota, mas que nos aliviasse a consciência. A debandada foi rápida e geral.

O presidente se reuniu uma noite inteira com o cunhado e nos devolveu a esperança de que haveria luta e que os usurpadores seriam alijados do poder. O presidente, homem de paz, desautorizou  qualquer reação.

Estabelecidos no palácio, os novos governantes iniciaram as perseguições, os decretos, os AIs, como verdadeiros patrões de uma fazenda chamada Brasil.

Esboçavam-se na calada da noite, as articulações que pusessem nosso país novamente em trilhos democráticos.

Os anos passaram-se lenta e pesadamente. Eram frustradas todas as tentativas de reação. Houve os que preferiram a luta armada. Muitos deles pereceram no caminho, outros, os sobreviventes, se dispersaram, quase sempre. Formaram-se, então, por decreto, dois partidos: um governista e outro de oposição, que, no início, julgávamos ser apenas oposição consentida. E não passava muito disso. Mas era uma brecha, uma tribuna, canal por onde se podia mostrar ao mundo que vivíamos em um regime de exceção.

As universidades, então, foram caladas, centenas e milhares de alunos e professores conheceram os porões onde se tentava obter por meio de torturas o nome de pessoas e organizações que procuravam restituir o Brasil à vida democrática. Casos como a bomba do terrorismo oficial num show do Rio de Janeiro, o assassinato de Wladimir Herzog tornaram-se cada vez mais frequentes. Vozes das mais diversas correntes de nossa população civil começaram a fazer-se ouvir pelas fissuras arrancadas à vigilância da censura governamental.

Artistas resistiam, artistas foram degredados, a censura, entretanto, não era inteligente o bastante para evitar canções como “Apesar de você” e “Cale-se”. A primeira foi proibida, tão logo os censores descobriram os sentidos encobertos. Mas naquele instante já o Brasil inteiro a cantava em bares e salões. Foi o período em que floresceram as músicas de protesto. Que, é lógico, deixou suas vítimas, os mártires do movimento.

Por fim, para edulcorar a imagem do regime junto à opinião pública internacional, fizeram-se as eleições. Em momentos assim é que se mostram homens de estatura acima do comum. Ulisses Guimarães torna-se o portador dos anseios da maioria da população brasileira. O anticandidato, como se autodenominou Ulisses, tinha consciência de que seria derrotado, mas teve a oportunidade de proferir, na tribuna do congresso, um discurso antológico, divulgado pela maior parte da mídia.

Mais de um milhão de pessoas, no Vale do Anhangabaú, exigiam o retorno ao sistema representativo de governo. Não era mais possível segurar a barra da ditadura. Tancredo Neves não assumiu, mas foi eleito. De forma indireta, porém tínhamos finalmente um civil no governo.

A ciência, no período de exceção, perdeu os cérebros mais importantes do país, o pensamento em geral teve de bater asas e voar para o exterior. Éramos uma nação de sim senhor, porque se dizia, naqueles tempos, que quem pode manda, quem tem juízo obedece. O Brasil parou por mais de vinte anos. A juventude foi calada, tornou-se impossível o surgimento de novas lideranças.

Sofremos até hoje os prejuízos políticos e morais da ditadura. Nossa democracia engatinha, com mil deficiências e temos muito ainda a andar para que ela seja não boa, mas apenas razoável. E para aqueles que tanto falam em corrupção, é bom lembrar que ela, a corrupção, medra sobretudo quando as bocas estão todas caladas, e os criminosos sentem-se impunes. O terreno fica livre para os aproveitadores de sempre.

Minha amiga, a poeta Ruth do Carmo, disse no poema

Esperança

Há de secar nunca

esta ferida verde

com cara de gente.

*Menalton Braff é escritor premiado com o Prêmio Jabuti em 2000 com o livro "À Sombra do Cipreste". Este texto faz parte de uma série de artigos que o site de CartaCapital publica sobre os 50 anos do golpe-civil militar de 1964