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Análise

"Rolezinho", capitalismo e gente bonita

por Pedro Estevam Serrano publicado 17/01/2014 19h43, última modificação 17/01/2014 20h01
Não era um protesto contra os males do mundo, era uma forma de procurar espantá-los por algumas horas de forma segura, alegre e num ambiente valorizado pelos desejos de consumo

Pelo que me relataram meus pais, no tempo deles era o footing nas praças do interior ou na Rua Augusta aqui em São Paulo, onde jovens desciam a rua com seus carrões e outros passeavam pelas calçadas.

Quando eu estava na pré-adolescência e estudava num ginásio no bairro do Planalto Paulista foi inaugurado o Shopping Ibirapuera, local onde passamos a nos destinar para “passear no shopping”, entre aulas cabuladas.

Era um mero passeio e paquera. Expressava o fosso das desigualdades sociais de nosso pais, na época maiores que hoje? Sim,  por óbvio. Tais desigualdades são e foram sempre expressas em nossos hábitos cotidianos coletivos e privados. Na época de meus pais, no interior, havia a praça dos endinheirados e fazendeiros e a outra da plebe e dos peões.

O lazer é apenas um dos ambientes existenciais onde as distinções são expressas e cultivadas. Na história humana sempre foi assim. Na antiguidade greco-romana, no feudalismo e na aristocracia renascentista.

O que mudou a partir da sociedade moderna capitalista é que essa se pretende democrática e mais igualitária, ao menos no ponto de vista formal. É a primeira forma civilizatória na história da humanidade onde essa distinção social é aceita, ao menos no discurso, como um ônus incontornável atribuído a diferenças de singularidades entre os homens, mas que deve ser mitigada no plano material e abolida no território formal da relação entre o público e privado.

Tais valores democráticos se traduziram em normas jurídicas, no caso brasileiro de foro constitucional. Todos têm direito a ir e vir, limitados igualmente pelas civilizadas restrições que o direito de um ocasiona no do outro. É o que determinam os princípios constitucionais da liberdade de ir e vir e da igualdade.

Em ambientes públicos restrições a circulação geral só se admitem se fundadas em critérios igualitários e, portanto, logicamente fundados.

No capitalismo moderno distinções logicamente infundadas de classe, étnicas, religiosas, de gênero etc são abolidas no direito posto e na ética das relações entre particulares e o Estado e mesmo entre particulares quando esteja envolvida nessa ultima relação o uso de ambiente de caráter público, mesmo que privado. Posso exigir que em minha lanchonete as pessoas em geral venham vestidas de um modo socialmente aceitável (regra geral) mas não posso impedir que pobres, mulheres ou afrodescendentes a frequentem ( regra discriminatória  que teria seu critério de discriminação não amparado em razão de ordem lógica).

Tenho sobre minha loja fictícia direito de propriedade e não “propriedade”. Direito de propriedade e propriedade são conceitos distintos. Propriedade é um conceito que evoca uma possibilidade plena, direito de propriedade é um conceito que já traz em seu sentido a ideia de limitação e restrição por direitos de terceiros, como estabelece desta ou daquela forma toda ordem jurídica capitalista concretamente conhecida.

O que os jovens da periferia pretendiam com seus “rolezinhos” era um footing num dos poucos espaços públicos que têm segurança para tanto e que desde minha pré-adolescência são os espaços substitutivos das praças e da Rua Augusta, já que celebração, sedução e paquera juvenil, felizmente, ainda não se conseguiu acabar.

Combinar socialmente um dia para que tal footing se realize é um pouco da essência do negócio. Nos tempos de meus pais era o domingo; no meu, os sábados ou os horários de hora de aula cabulada; nos dias de hoje, o que se combina pela internet.

Em vez do baile naquele dia, o “rolezinho” num espaço habitualmente frequentado por pessoas de elite. Nada de mais normal do sentido estrito da expressão (dentro da norma), afinal estamos em uma sociedade capitalista de classes, não em uma aristocracia estamental. Se resolve ficar sem carne na mesa um mês para pagar a entrada o pobre pode entrar no cinema frequentado pelo rico, é a regra do jogo. Do mesmo modo o rico paga para desfilar na escola de samba. É a regra do jogo.

Classe social, hábitos de vestimenta fashion ou forma corporal não são critérios logicamente fundados, ou seja legítimos, para impedir alguém de frequentar um ambiente comercial público. Não se pode explorar economicamente tal tipo de espaço comercial ou de serviços condicionando o acesso apenas para “gente bonita”.

Pelo simples fato de haver o “rolezinho” nada disso se punha em questão. Comportamentos e ambientes tradutores das distinções sociais existem por todo canto da existência e o evento em questão não pretendeu ir além de seu caráter lúdico. Não era um protesto contra os males do mundo, era uma forma de procurar espantá-los por algumas horas de forma segura, alegre e num ambiente valorizado pelos desejos de consumo que todos temos em alguma medida.

A reação desmedida de donos de shoppings, polícia e Judiciário é que trouxe à tona o debate público sobre as distinções sociais inconstitucionais e inaceitáveis existentes no cotidiano de práticas comerciais desprovidas de qualquer pudor humano ou democrático, feudais mais que capitalistas. Descabido totalmente na sociedade moderna presumir violência ou criminalidade na pobreza, seja na revista policial ou no acesso ao shopping.

Gente bonita e descolada do comum e do público tem de saber acatar as leis e regras do jogo capitalista. Inconstitucional e eticamente inaceitável um centro comercial não permitir um encontro coletivo pacífico de pessoas por conta de sua condição social, étnica, de gênero, orientação sexual, padrão de consumo etc.

Se tal encontro implicar muitos indivíduos e potencialidades de inconveniências existem mecanismos civilizados de garantia de segurança das pessoas e do patrimônio, como em qualquer evento público que volta e meia ocorrem nesses lugares. Se o número de pessoas for maior do que o espaço comporta existem também mecanismos civilizados de seleção de ingresso, como a fila por exemplo, velha, igualitária e sabia opção.

Discursar em favor de tais distinções na prática empresarial é antes de tudo anti-iluminista e contraditório a valores civilizatórios que representam o desenvolvimento do capitalismo e de suas formas políticas e econômicas. Uma nostalgia feudal e aristocrática.

A intransigência autoritária dos proprietários de shoppings trouxe a público a necessidade de debater as práticas empresariais em espaços e atividades de caráter público.

Também é, por exemplo, inaceitável, ilegal e inconstitucional uma “hotess “de boate regular o ingresso na casa noturna pela roupa ou tipo físico do utente do serviço e não por seu lugar na fila. A indignação pública deve se manifestar nesses casos. Fila é critério a ser por todos observado, autoridades, descolados, celebridades, ricos, pobres e pelos estabelecimentos comerciais.

A vida contemporânea, no Brasil e fora daqui, é cada vez mais tolerante com discriminações sociais e estéticas infundadas logicamente. Interessante notar que essa e outras liberdades públicas, valores e conceitos originais do pensamento liberal vêm, cada vez mais na contemporaneidade, sendo defendidas por forças tidas como de esquerda no quadro político. Nossos liberais estão cada vez menos liberais, cedendo à força conservadora das teses de uma direita reativa aos valores das revoluções francesa e americana.

Por outro lado também é um equívoco das forças de esquerda querer enxergar no “rolezinho” qualquer conduta anticapitalista. O “rolezinho” é, ou era para ser, antes de tudo um momento lúdico de afirmação do consumo e dos valores estéticos do mercado capitalista. Um desejo de inclusão nele e não de sua extinção.

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