Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Rio 2009

Sociedade

Sociedade

Rio 2009

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 23/10/2009 15h17, última modificação 21/09/2010 15h18
Amigo bissexto, o fero jornalista Elio Gaspari acabou de publicar ótima pensata sobre os três dias que abalaram o Rio, e que foi chamado, com certo exagero, pelo secretário de Segurança, de “o nosso 11 Setembro”.

Amigo bissexto, o fero jornalista Elio Gaspari acabou de publicar ótima pensata sobre os três dias que abalaram o Rio, e que foi chamado, com certo exagero, pelo secretário de Segurança, de “o nosso 11 Setembro”.

Elio diz que, a partir dos anos 80, “parecia natural que a choldra da zona norte não tivesse acesso fácil a Copacabana e Ipanema”. Gaspari, em sua linha de pensamento, exagera também.

Embora haja um preconceito da zona sul – sempre houve, com “favelas-bandidas” ou sem elas, perguntem aos moradores da Tijuca, Grajaú e Meier, bairros de classe média –, os ônibus, mesmo antes de o Rebouças ser aberto a eles, jamais deixaram de levar os suburbanos, os “farofeiros”, à praia de Copacabana, ainda repleta de pontos finais. Hoje, o metrô completa o transporte, que chega a Ipanema em dezembro.

Os assaltantes e traficantes dos bairros da zona sul carioca, Botafogo, Humaitá, Jardim Botânico, Gávea, Lagoa e Bairro Peixoto, não vêm da zona norte. Eles dominam Babilônia, Tabajaras, Pavão-Pavãozinho, Vidigal, Rocinha. São vizinhos da classe média e alta, que por isso gradeou seus prédios, prisioneiros da realidade urbana.

Acho, porém, nisso tudo que vem acontecendo no Rio desde 1983, o mais aterrorizante para os moradores, honestos e trabalhadores, das favelas de qualquer bairro carioca, é a presença dos traficantes.
Nos contou uma empregada doméstica (apenas 25 anos, vinda do Norte com o marido, três filhos) que os bandidos são todos muito jovens – aqueles que Pelé pediu para serem salvos, e morrem, ou estão nos Bangus e Catanduvas.

Ela diz que não aguenta mais a vida na comunidade, bem como dezenas de pacíficos moradores seus vizinhos, a maioria querendo sair de lá. Esses favelados do bem são obrigados a presenciar assassinatos, e ver os manos desfilarem de revólver na cintura. Quem é forasteiro e não mora lá, também é morto. E por aí segue o terror.

Outra coisa: os traficantes substituem o poder público, que só dá as caras para guerrear com os bandidos. Esses falsos Robin Hoods não achacam, proíbem roubos no perímetro da favela (se o assaltante rouba, vai para a vala). Não cobram pela luz, gás e telefone. Pelo contrário, eles às vezes até protegem.

Entretanto, há a contrapartida: usam a garotada como aviões para entregar drogas aos usuários e soltar foguetes avisando a chegada dos tiras, escondem armas e drogas em casas escolhidas, e até em igrejas evangélicas, usam as lajes alheias como mirantes. (Na entrada de algumas favelas, existem permanentes bandeirinhas de festa junina. É o código que informa ser ali uma boca de fumo, o quiosque da maconha e cocaína.)

Ainda a jovem empregada: outro medo dos moradores honestos é a entrada das milícias nas favelas, expulsando o tráfico e virando xerifes violentos, estes, sim, ameaçando todo mundo, cobrando taxas pela luz, vendendo bujões de gás e telefone, fazendo os gatonetes de tevê e impondo sua utilização.

Como escreveu Elio: “Se esse clima de guerra sair da agenda do Rio, não há qualquer garantia de que as coisas melhorem, mas, pelo menos, será retirada a cortina de fantasia que mascara políticas públicas fracassadas”.