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É preciso repensar a saúde enquanto há tempo

por Renan Truffi publicado 13/05/2014 05h24, última modificação 13/05/2014 14h55
Conselheiro da Casa Branca na formulação do "Obamacare", Rafael Bengoa alerta para a possibilidade de um colapso em função da escalada de gastos com saúde pública no mundo
Divulgação/Deusto Business School
Rafael Bengoa

Rafael Bengoa foi ministro da Saúde do País Basco e atualmente é diretor de Políticas do Sistema de Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS)

Conselheiro de Barack Obama na elaboração do "Obamacare", audacioso projeto de reforma do sistema de saúde dos Estados Unidos, e diretor de Políticas do Sistema de Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), o venezuelano Rafael Bengoa vislumbra um cenário preocupante para países ricos e pobres em um futuro próximo. Segundo ele, os gastos com os sistemas públicos de saúde continuarão a aumentar e mesmo as nações mais desenvolvidas vão precisar repensar o sistema se quiserem manter o atendimento à população.

Ao contrário do que costumam prometer políticos em época de campanha eleitoral, diz Bengoa, a solução não passa pela construção de novos hospitais. A proposta do venezuelano é o oposto disso: manter as pessoas cada vez mais longe dos prontos-socorros e unidades de internação. Segundo ele, o atendimento de urgência e a internação são, nesta ordem, os dois procedimentos mais caros em um sistema de saúde pública. Fazer com que as pessoas não precisem ocupar um leito, então, é o segredo.

“Não vamos poder seguir financiando o modelo de saúde com o gasto crescente histórico que temos", afirmo Bengoa a CartaCapital após participar de um debate no Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, em São Paulo. "Seguirá subindo 6%, 7% ou 8%, para todos os países: Brasil, Espanha ou os países mais ricos, como Estados Unidos. Todo mundo anda repensando como reconfigurar o modelo assistencial de prestadores para que seja mais eficiente e funcione melhor. Se funciona de forma mais integrada, aparece menos gente nos hospitais e se economiza dinheiro. Então esse dinheiro passa a poder ser usado para novas necessidades, como medicamentes de câncer e hepatite”, disse.

Bengoa atuou como assessor de Obama durante a elaboração da reforma do sistema de saúde norte-americano, por meio da Lei de Proteção ao Paciente e de Assistência Médica Acessível, conhecida como "Obamacare". O projeto ficou no centro do debate entre republicanos e democratas por proibir os planos de saúde de mudar os valores dos seguros com base no histórico clínico do paciente, se recusar a assegurar um cliente muito caro, ou limitar a quantidade de reembolsos anuais. Em troca, a legislação aprovada estabelece que todos, nos Estados Unidos, têm de aderir a um plano de saúde sob pena de multa. Como não há rede hospitalar gratuita nos Estados Unidos, o objetivo é evitar que milhões de pessoas fiquem sem cobertura. Até o início deste ano, pelo menos sete milhões de pessoas já tinham se inscrito no programa.

Desde que entrou em evidência, o diretor da OMS tem alertado para a necessidade de mudança na forma como os governos e países têm gerido o financiamento da saúde no mundo. Para conseguir uma reforma sustentável, segundo Bengoa, é preciso diminuir a dependência do médico e estender a capacidade do primeiro atendimento a enfermeiros e agentes de saúde. “A população pensa assim (que o hospital é a melhor forma de atendimento) porque foi esse o modelo imposto. Então as pessoas se comportam em função do modelo que temos oferecido", afirma. "Dizemos que a melhor medicina é que a se faz nos hospitais, mas não. A melhor medicina é um modelo em que a enfermeira me controla em casa o máximo possível e, se realmente necessito, vou ao hospital." Segundo Bengoa, já há locais em que as mudanças começam a ser feitas. "No País Basco, na Escócia, em algumas partes da Inglaterra, estamos dizendo para as pessoas. ‘Olha, nós vamos ajudar você a controlar sua diabetes, depressão e hipertensão, mas em casa. Vou educar e além disso mandar informações ao centro de saúde de como o paciente está para monitoramento”, conta.

Neste contexto, Bengoa vê com bons olhos o programa Mais Médicos, criado pelo governo brasileiro para importar profissionais de saúde de países vizinhos. Bengoa diz que a ideia pode ser “importante” caso seja pensada para funcionar nos moldes deste sistema, da “medicina primária”. “Se você coloca (médicos estrangeiros para atender) mais em medicina primária e menos em hospitais, com melhor utilização de profissionais de enfermaria, provavelmente não vai necessitar trazer tantos profissionais de outros países”, argumenta.