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Sociedade

Réplica

Quem tem medo do canabidiol?

por Antonio Waldo Zuardi, José Alexandre de Souza Crippa, Jaime Eduardo Cecílio Hallak e Francisco Silveira Guimarães* — publicado 18/03/2015 20h20, última modificação 26/06/2015 09h10
Considerar extratos de maconha in natura e canabidiol como a mesma coisa confunde e desinforma a opinião pública, especialmente os familiares dos pacientes, dizem pesquisadores
Yghor Boy
Canabidiol

Para que a maconha in natura alcançasse a possibilidade de uso médico, seria fundamental saber a proporção relativa de seus diferentes canabinóides em cada amostra a ser utilizada

No último dia 10, o site de Carta Capital publicou artigo assinado por André Kiepper, sugerindo que nosso grupo de pesquisa defendia o uso do canabidiol (CBD) puro como medicamento e negando “o potencial terapêutico da erva in natura”, motivados pelo fato de “possuirmos uma patente de análogos fluorados do canabidiol”. Diante disso, sentimo-nos compelidos a exercer o direito democrático constitucional do contraditório, refutando essa ilação infundada, que em última análise questiona nossa idoneidade como pesquisadores.

Antes de tudo é preciso esclarecer que nossa defesa do uso de canabinóides puros como medicamento começa desde o momento que optamos por estudá-los isoladamente, ou seja, no final da década de 1970, portanto, há mais de 35 anos, e várias décadas antes dos análogos sintéticos do canabidiol terem sido desenvolvidos e patenteados.

É bem conhecido que os estratos de maconha apresentam ampla variabilidade em sua composição, estabilidade e potência. Assim, seguindo os mesmos princípios da evolução da farmacoterapia, a motivação para o estudo dos canabinóides puros, como medicamento, deve-se ao fato de que uma medicação precisa ter seus princípios ativos conhecidos, seu intervalo de dose terapêutica estabelecida e aí reduzindo o risco de significativos efeitos colaterais indesejáveis. Além disso, o acúmulo de evidências científicas de possíveis efeitos terapêuticos de canabinóides, incluindo o canabidiol e o próprio THC, nesses quase 40 anos de pesquisa, foi obtido através de estudo com os compostos isolados e não com a planta in natura.

Não é verdade que colocamos “CBD contra THC”, como diz o articulista. O que sempre afirmamos é que os dois canabinóides têm alguns efeitos próprios que são diversos e por vezes opostos. Reconhecemos que ambos podem ter efeitos terapêuticos, porém com indicações e efeitos adversos próprios de cada um.

Para que a maconha in natura alcançasse a possibilidade de uso médico, seria fundamental saber a proporção relativa de seus diferentes canabinóides em cada amostra a ser utilizada. Isso não é tarefa fácil, uma vez que, além de existirem diferentes espécies, sua composição depende da parte da planta, do solo e das condições climáticas onde foi cultivada, entre diversos outros fatores.

Quem desconhece a história tende a repetir os seus erros. Há mais de um século os principais laboratórios farmacêuticos lançaram extratos e tinturas da maconha como medicamento. Após um clímax no início do século 20, esse uso entrou em declínio por muitos fatores, mas dentre eles, a inconsistência de resultados, possivelmente pela heterogeneidade de composição dos diferentes extratos.

Hoje vivemos uma condição bem diversa. Desde o início da década de 1960, o grupo do professor Rafael Mechoulam, de Israel, que divide conosco a invenção do referido composto canabinóide fluorado, isolou os principais canabinóides, entre eles o CBD e o THC. Assim, já possuímos um conhecimento razoável do que faz cada canabinóide e, em boa medida, quais os seus mecanismos de ação. Esse conhecimento não pode ser desprezado.

Acreditamos que já não faz mais sentido submetermos uma pessoa doente a um extrato de maconha cuja composição não sabemos com exatidão e nem em que dose deveria ser utilizado. Isto é particularmente mais grave na medida em que crianças com epilepsia constituem o principal grupo de pacientes em uso do canabidiol em nosso País, e que o uso crônico de extratos contendo THC pode trazer problemas, entre muitos outros, do desenvolvimento cerebral desta população. Assim, considerar extratos de maconha in natura e canabidiol como a mesma coisa confunde e desinforma a opinião pública, especialmente os familiares que veem o canabidiol como uma esperança para reduzir o sofrimento e melhorar a qualidade de vida de suas crianças.

É oportuno também deixar bem claro que a referida patente “Fluorinated cbd compounds, compositions and uses thereof (WO 2014108899 A1)” tem como INVENTORES além de nós os Professores Raphael Mechoulam e Aviva Breuer, da Universidade Hebraica de Israel (UHI), bem como o Professor Flávio Kapczinski da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Assim, de acordo com a Lei de Patentes, os DETENTORES da patente não somos nós, mas as três Universidades (UHI, UFRGS e a USP). Passado o protocolar período de embargo de sigilo, divulgamos esta importante descoberta de inovação da farmacologia para a imprensa brasileira antes de sua publicação definitiva em 17 de julho de 2014.

Finalmente é necessário destacar que em nenhum momento defendemos o uso dos análogos fluorados do canabidiol, objeto de invenção da referida patente, até porque são compostos ainda em estudo. O que defendemos é o uso do canabidiol, que NÃO É PATENTEÁVEL.

*Antonio Waldo Zuardi, José Alexandre de Souza Crippa, Jaime Eduardo Cecílio Hallak e Francisco Silveira Guimarães são professores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

 

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