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Quem são os manifestantes de 16 de agosto?

por Renan Truffi publicado 18/08/2015 21h25, última modificação 18/08/2015 22h58
Mais de 70% das pessoas que saíram às ruas de São Paulo são de cor branca, e quase metade tem renda familiar superior a 7 mil reais
André Tambucci/ Fotos Públicas
Perfil dos manifestantes em São Paulo

Em São Paulo, manifestantes são a favor de serviços públicos gratuitos, apesar de organizadores propagandearem discurso do estado mínimo

Apesar de ter sido o terceiro grande protesto contra o governo petista e pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a manifestação de 16 de agosto mostrou que essa série de movimentos continua sendo constituída majoritariamente por uma única camada da sociedade brasileira.

É o que revela uma pesquisa com os participantes do ato em São Paulo, estado com o maior número de manifestantes. O perfil de quem tomou as ruas da capital paulista é: homem (57,30%), branco (73,60%), com idade entre 30 e 60 anos (59,2%), renda familiar superior a R$ 3.940 reais (70,9%) e alto nível de escolaridade (65,40%).

“A nossa ideia era um pouco ver se o protesto continuava homogêneo, pessoas com ensino superior completo, brancas. E a primeira conclusão é que o protesto não conseguiu incluir outras classes sociais. É um protesto muito excludente”, afirma Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ela conduziu o estudo com Pablo Ortellado, filósofo da Universidade de São Paulo (USP), e Lucia Nader, da Fundação Open Society, para o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação, da USP. O levantamento foi realizado junto a 405 pessoas, entre as 12  horas as 17 horas e 30 minutos do domingo 16, em toda a extensão da Avenida Paulista, tem 95% de nível confiança e margem de erro de 4,9%.

Segundo o estudo, os homens representam 57,30% do público, contra 42,70% das mulheres. A maioria das pessoas possui ensino superior completo (65,40%), enquanto que 13,30% estudaram somente até o ensino médio.

A faixa etária mais representativa é de pessoas com idade entre 50 e 60 anos (22,70%), seguida dos manifestantes que têm entre 30 e 40 anos (22,20%) e daqueles que possuem entre 20 e 30 anos (19,30%).

Na questão da classe social, a maioria (28,9%) possui renda familiar entre 7.880 e 15.760 reais. O segundo grupo mais representativo é o dos que possuem renda familiar com valor entre 3.940 e 7.880 reais: eles são 22,5% dos ouvidos na pesquisa. Além disso, 19% das pessoas dizem ter renda de mais de 15 mil reais.

Renda familiar dos manifestantes
Quase metade dos manifestantes (48,4%) tem renda superior a 7 .880 reais

A pesquisa também ajuda a desmistificar a tese de que, assim como os grupos Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua, que organizam os protestos, os manifestantes tenham um pensamento liberal sobre questões que envolvam a presença do Estado na vida dos cidadãos.

Os pesquisadores questionaram as pessoas sobre seus direitos e a grande maioria se mostrou a favor de educação (86,9% dos entrevistados) e saúde (74,3%) providas de forma gratuita. Somente a gratuidade dos serviços de transporte foi rejeitada pelos participantes (48,90%) do protesto em São Paulo.

Apesar de defenderam serviços públicos gratuitos, mais de 80% dos manifestantes também se mostram a favor da redução de impostos de uma maneira geral no País. A explicação para essa contradição pode estar em outra pergunta da pesquisa: quase 90% dos entrevistados acredita que o problema da má qualidade nos serviços públicos se deve à corrupção. Outros 93% colocam o problema como resultado de má administração, e 73% discordam de que a razão seja a “falta de recursos” para manter serviços para todos.

Outra questão foi sobre o financiamento empresarial de campanha. Entre as pessoas que estavam presentes na avenida Paulista, 73% não concordam com esse modelo de financiamento eleitoral. Outros 17,8% defendem o formato e 8,6% dizem que não têm uma opinião sobre o assunto.

A pesquisa também se debruçou sobre as opiniões dos manifestantes quanto ao sistema político. Praticamente todas as pessoas que foram protestar na avenida Paulista, aproximadamente 96,80%, estão insatisfeitas com a política no Brasil. Mas a maioria delas, ou 64,20%, pensa que a solução para a crise política é “entregar o poder para um político honesto”.

Outra parcela considerável (43,70%) pensa que os problemas serão resolvidos se o poder ficar a cargo de um juiz honesto, o que remete a figuras como as do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e o juiz Sérgio Moro, à frente da Operação Lava Jato.

Se, por um lado, os manifestantes parecem acreditar em uma solução personalista, uma esmagadora maioria (71,10%) rejeita entregar o poder para os militares.

A percepção da corrupção no Brasil também parece variar, mais ou menos, de acordo com o escândalo citado. Aproximadamente 99% dos entrevistados consideram graves as descobertas da Operação Lava Jato e do “Mensalão”. Esse percentual diminui um pouco quando o assunto é o “mensalão do PSDB” e esquema de cartel no Metrô de São Paulo. Ainda assim, mais de 80% dos entrevistados os classificam também como graves.

Parte dos entrevistas nega gravidade de casos como o mensalão do PSDB e mal conhece Operação Zelotes
Parte dos entrevistados nega gravidade de casos como o mensalão do PSDB e mal conhece Operação Zelotes

A diferença é mais significativa, no entanto, quando se trata da Operação Zelotes, que investiga 74 processos de sonegação de impostos por parte de empresas, entre 2005 e 2013, que envolvem um montante de 19 bilhões de reais. Neste caso, 58,80% dos manifestantes admitem que o caso também é grave, enquanto que 38% não sabem classificar a denúncia.

O que explica, então, o fato de os protestos se voltarem somente contra o PT? “A percepção é de que as pessoas acham que o sistema todo é corrupto. Aí o jogo dos organizadores é canalizar esse descontentamento geral com o sistema só no PT. O PMDB está sendo poupado de tudo, não é alvo, mas é considerado altamente corrupto”, afirma Esther.

Esse fenômeno apresenta uma variação maior quando os manifestantes são questionados sobre figuras políticas. Quase 90% responderam que consideram a presidenta Dilma Rousseff (PT) corrupta. O percentual é maior ainda sobre o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), considerado um político envolvido em corrupção para 93,80%.

Apesar de rivalizar com o governo petista, nem o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), passa ileso : mais de 70% dos entrevistados o considera corrupto. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), também é colocado no mesmo grupo por 77%.

Já o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), é classificado como corrupto para apenas 41,70%, contra 36,30% que rejeitam acreditar na participação dele em esquemas. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) também é corrupto para 37,80%, enquanto outros 35% negam essa pecha para o tucano.