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The Observer

Que parte do corpo da mulher vamos desprezar agora?

por The Observer — publicado 12/11/2013 15h24
O cabelo grisalho de Kate, a Duquesa de Cambridge, é o último pedaço examinado
Reprodução
Kate Middleton

Reportagem do tabloide Daily Mirror critica os cabelos brancos da princesa

Por Barbara Ellen

Na semana passada, notou-se em certos círculos que a duquesa de Cambridge (nascida Kate Middleton) tinha alguns cabelos brancos em seu repartido. Pista para algumas falsas preocupações sobre como a gravidez às vezes faz isso com o cabelo, juntamente com uma onda de comentários sobre como isso mostra que Kate é "uma de nós" – ocupada demais para arrancar os fios brancos.

A maioria das pessoas não ganha alguns cabelos brancos na casa dos 30? Eu comecei a tê-los aos 15 anos, quando era candidata a garota do rock (um cabeleireiro me disse que era uma coisa céltica). Hoje devo parecer a Noiva de Catweazle por baixo de tanta tintura.

A duquesa de Cambridge simplesmente não tem permissão para mudar e envelhecer – ela tem de pedir autorização para ser mortal? Ou isto (um leve reflexo prateado) é apenas mais um exemplo do incansável avanço sobre novos territórios e campos de batalha na constante microinspeção da mulher?

Ultimamente, notei que o cabelo feminino se tornou uma coisa. Não uma grande coisa, mas ainda assim uma coisa. Não importa o grisalho de Kate, é principalmente o fato de as mulheres serem "denunciadas" por perder cabelo; mulheres com danos de tração causado por extensões capilares (Naomi Campbell); mulheres que perdem fios por estarem estressadas (Kristen Stewart), ou simplesmente fotografadas de ângulos específicos de modo que seus repartidos parecem ter um quilômetro de largura (Nigella Lawson).

Quando Jennifer Aniston recentemente teve seu cabelo cortado por causa de uma reação negativa a um tratamento brasileiro (queratina), senti empatia (certa vez fiz algo parecido e passei várias semanas mortificadoras parecendo uma palmeira do deserto).

Entretanto, diferentemente de Aniston, pelo menos ninguém me provocou e humilhou tirando um close do meu couro cabeludo, como se meus folículos atacados fossem do maior interesse para a segurança internacional.

Isso não é realmente sobre cabelo (em queda, grisalho ou outra coisa). Tem a ver com a busca insaciável para encontrar não apenas novas maneiras de torturar as mulheres por sua aparência, mas também novas áreas para enfocar – sexismo institucionalizado em uma parte do corpo de cada vez!

Enquanto a objetificação da mulher existe há eras, também está evoluindo. A maioria de nós deve ter notado como cada vez mais o ataque não é dirigido ao corpo de uma mulher como um todo, mas sim a algumas partes do corpo.

É como se o corpo inteiro da mulher fosse tão perturbador e poderoso que tivesse de ser criticado um pedaço por vez. Seios moles, traseiros gordos, queixos duplos, vão entre as pernas, quadris volumosos, omoplatas quadradas, joelhos caídos, sobrancelhas espessas, vaginas sem design e – meu favorito pessoal – artelhos compridos! Hoje em dia, a capa da "Eunuco Feminina" não apresentaria um modelo do torso feminino, e sim várias partes do corpo feminino cortadas, parecendo o campo de ação de um serial killer.

Agora é o cabelo, preferencialmente afinando-se de maneira devastadora. Isso importa, além das celebridades? Eu diria que sim.

O que acontece com as pessoas sob o olhar público tem um efeito de transferência até que você chega inevitavelmente a uma garota de 14 anos chorando sozinha no quarto, perguntando-se que partes do corpo vai desprezar agora. Isso é o resultado de uma cultura que a encoraja a pensar em si mesma não como uma pessoa inteira, mas como uma série de áreas problemáticas de carne e sangue.

Os homens não sofrem nada nessa escala. Eles têm o aborrecimento da calvície, e sua demanda por cirurgia plástica estaria crescendo, mas não me diga que eles se preocupam com seus tornozelos grossos, testículos sem grife ou, de fato, artelhos compridos. Eles não são encorajados a pensar em si mesmos como uma série de zonas problemáticas, cruamente costuradas em uma unidade de carne funcional.

Que contraste com as mulheres, para as quais a única pergunta real é que parte do corpo será a próxima destacada para uma crítica hostil constante!

Se você me perguntasse cinco anos atrás, eu teria declarado com confiança que realmente ficaríamos sem novas partes para analisar e criticar. Hoje começo a me perguntar se um dia isso acontecerá.