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Que a universidade se pinte de povo!

por Ricardo Palacios — publicado 16/11/2013 08h00, última modificação 19/11/2013 11h37
O processo manejado pela Fuvest é um conjunto de exames antiquados, mas cumpre a função de manter a USP além do horizonte da maioria da população
Ricardo Palacios
 USP

A situação na USP

Na Argentina, o equivalente aos trotes acontece quando os universitários são aprovados no último exame antes de se formar e não quando entram na universidade como no Brasil. Isso carrega um simbolismo: o maior esforço, em um caso, está em se formar no ensino superior; no Brasil, o mérito parece ser ingressar.

Quando fiz minha matrícula no curso de ciências sociais na Universidade de São Paulo, o Centro Acadêmico organizou trotes festivos e escolheu, como em todos os anos, uma frase para representar nossa turma de bixos e bixetes de 2012: “Que a universidade se pinte de povo!” Quase um ano depois, os vestibulandos que serão nossos bixos também não materializarão o desejo manifesto nessa frase. Na Universidade de São Paulo, a população só constitui maioria entre os funcionários menos qualificados e entre os contribuintes que pagam a conta para manter essa formidável estrutura.

Afirmar que o mecanismo de seleção para ingressar na mais renomada universidade do país é “meritocrático” e está desenhado para “selecionar os melhores” só pode demonstrar uma ingenuidade digna de compaixão, um desinteresse absoluto pela população. O processo manejado pela Fundação para o Vestibular (Fuvest) é um conjunto de exames antiquados desde o ponto de vista pedagógico, mas que cumpre cabalmente a sua função de manter a USP além do horizonte da maioria da população. Infelizmente, a maioria dos estudantes da USP, uma vez aprovados, não quer tirar o mérito de seu esforço e evita contestar esse mecanismo de exclusão.

A Fuvest consiste em duas fases, uma eliminatória baseada em um exame de múltipla escolha – e que considera as grandes áreas do ensino médio. A segunda fase acontece durante três dias com exames de perguntas dissertativas: um de português, outro que varia segundo a área da carreira pretendida e mais um de conhecimentos de todas as áreas. Além de estragar as férias de fim de ano daqueles que passam na segunda fase, três exames seguidos terminam avaliando mais resistência do que capacidades.

Mas a verdadeira forma de eliminar os menos favorecidos é muito simples: perguntar o que não foi ensinado. A Fuvest é um exame focado em avaliar o uso de conteúdos memorizados, o que já é ruim. Para piorar, esses conteúdos não são necessariamente aqueles ensinados no ensino médio padrão. Essas perguntas de conhecimentos que não fazem parte dos currículos acadêmicos usuais, mesmo que sejam poucas, são justamente as que dão a vantagem àqueles que tiveram acesso a condições de ensino mais privilegiadas em um teste altamente concorrido. A chance de ganhar esses pontos extras é tão grande que é traduzida no próspero negócio de cursos pré-vestibulares. Nas palavras de um dos coordenadores desses cursos, a Fuvest simplesmente é impossível para quem fez ensino médio público. A grande afluência nos cursos pré-vestibulares é a prova viva de que a avaliação nos processos de seleção da educação superior não corresponde ao que deveria saber - e ter como vivência - um estudante ao fim do ensino médio. Esses cursos são considerados desnecessários em quase todos os países além das fronteiras de nosso Brasil.

Os exames de seleção de alunos tem um alcance muito além de determinar quem ingressa ou é excluído; todos os que cursam ensino médio dentro da esfera de influência desse exame vestibular são afetados. Os currículos de centenas de colégios e escolas são desenhados para atender as exigências desses exames porque a quantidade de alunos aprovados nos vestibulares mais concorridos é uma grife para colégios e cursinhos. Assim a Fuvest expande a ideia de que memorizar conteúdo é a finalidade do ensino médio e o desenvolvimento de capacidades interpretativas e analíticas só pode ser valorizada na presença desse conteúdo memorizado. Dessa forma, o vestibular coloca a USP além do horizonte dos estudantes que fazem ensino médio padrão – e que, em sua grande maioria, nem tentam prestar o exame por saber que nessas condições não poderão demostrar suas capacidades.

Mas o que é importante para selecionar um estudante no ensino público superior em um sistema com vagas limitadas? A universidade mais importante do País acredita que a resposta está baseada no uso de conteúdos memorizados. Decisão que desconhece a realidade social do país e despreza a experiência de vida dos aspirantes. Muitas das melhores universidades do mundo nos Estados Unidos também contemplam nos seus processos de seleção aspectos como a diversidade social e cultural e a participação em atividades voluntárias e ações comunitárias.

A palavra Universidade, como o nome sugere, deveria ter representação da diversidade do universo em seu corpo de estudantes, mais ainda numa instituição pública. E o universo em São Paulo tem pobres e negros amplamente sub-representados na USP. Nesse estado, a proporção de negros e pardos é de 35%, menos de 5% dos domicílios têm renda superior a vinte salários mínimos e 26% tem renda inferior a dois salários mínimos, conforme o Censo 2010.

Avaliando os dados de matriculados nos últimos quatro anos em todos os cursos da USP, menos de 6% vieram de famílias com renda inferior a dois salários mínimos e se identificaram como negros ou pardos apenas um em cada oito matriculados. No meu curso, ciências sociais, que não é necessariamente o mais concorrido, 22% dos estudantes tem renda familiar superior a 20 salários mínimos.

Antes de reconhecer as deficiências de seu processo de seleção, a USP dá uma esmola de pontos adicionais aos menos favorecidos que estão longe de compensar as vantagens oferecidas por meio dos conteúdos exclusivos para quem egressa dos melhores colégios e cursinhos. Esse sistema fracassa ano após ano em seu suposto objetivo de incluir os pobres e os negros com o olhar complacente das diretivas da universidade que eram cientes do fato pelas simulações que tinham realizado.

Quem pode levar a universidade a mudar esse processo seletivo? O movimento estudantil da USP quer se posicionar como defensor do povo, mas infelizmente sua discussão do vestibular está limitada a acessos espasmódicos de apoio às cotas, provocados pelo exemplo da lei federal sobre o tema ou pelo programa PIMESP, recusado amplamente por aprofundar ainda mais a exclusão.

As batalhas mais frequentes do movimento estudantil são as batalhas fratricidas entre as facções ligadas aos diferentes partidos de esquerda e só se unem para tentar procurar fatias nas estruturas de poder com o argumento de que só tendo uma reitoria “mais arejada” poderão ser feitas as mudanças que a universidade precisa.

A discussão sobre o processo seletivo na educação pública superior vai além das cotas. Implica também em revisar as atuais provas de vestibular e considerar elementos valiosos da biografia dos participantes do processo.

Na esfera pública federal, a formulação pedagógica do ENEM e a otimização de recursos que representa o SISU permitem que a discussão avance, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Não há como superar a inequidade de acesso sem uma profunda reestruturação da educação básica e média com valorização dos professores da rede pública como agentes de transformação social. No entanto, não podemos esperar décadas até que isso aconteça para rever o sistema de seleção para a educação superior. A universidade e o movimento estudantil fariam bem em se ocupar de forma prioritária em todo o processo educativo público.

A atual gestão da USP demonstrou que só pode sentar em uma mesa de negociação por uma decisão judicial. No termo apresentado durante a ocupação, o acesso à universidade sequer foi mencionado.

A frase que deu as boas-vindas na nossa matrícula nas Sociais não foi - nem será a dos calouros do próximo ano. Mas hoje quero pedir a todos, dentro e fora da comunidade universitária, que pressionem a futura administração para que inicie o caminho para que nossa universidade, a universidade de todos, realmente se pinte de povo.

 

Ricardo Palacios é médico, formado no exterior com o diploma devidamente revalidado no Brasil, brasileiro naturalizado. Foi consultor temporário para projetos de pesquisa da Organização Mundial da Saúde e agora estuda Ciências Sociais na Universidade de São Paulo. As opiniões expressadas neste artigo não representam a posição de instituição alguma.