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Sociedade

Tragédia em Mariana

Quanto candidatos e partidos receberam da Vale

por Alceu Luís Castilho — publicado , última modificação 13/11/2015 15h20
Doações eleitorais da empresa que controla Samarco “explodem”. Metade vai para PMDB, partido que controla mineração no governo
Em 2014, a Vale doou também para candidaturas específicas, do Congresso à Presidência

Em 2014, a Vale doou também para candidaturas específicas, do Congresso à Presidência

O PMDB recebeu 23,55 milhões de reais dos 48,85 milhões de reais destinados por empresas da Vale a comitês financeiros e diretórios na campanha de 2014. O partido controla o setor de mineração no Brasil, indicando o ministro das Minas e Energia e a maioria dos chefes dos Departamentos Nacionais de Produção Mineral (DNPM).

Essas cifras se referem às doações eleitorais de seis empresas ligadas à Vale: Vale Energia, Vale Manganês, Vale Mina do Azul, Minerações Brasileiras Reunidas, Mineração Corumbaense Reunida e Salobo Metais.

Em 2010, a soma das doações da Vale alcançava 29,96 milhões de reais, para todas as siglas. Isso mostra um aumento exponencial do investimento do grupo Vale em campanhas políticas. Mas é mais que isso: naquele ano, a empresa só doava para os comitês e diretórios.

Em 2014, doou também para candidaturas específicas, do Congresso à Presidência. Isso soma mais 39,32 milhões de reais drenados da Vale para políticos do governo e da oposição, perfazendo um total de 88 milhões de reais – três vezes mais que em 2010.

Entre os doadores para partidos (comitês, diretórios), o PMDB agora dispara em primeiro lugar com seus 23,5 milhões de reais. Em seguida vêm o PT, com 8,25 milhões de reais, o PSDB, com 6,96 milhões de reais, e o PSB, com 3,5 milhões de reais.

PP e PCdoB aparecem empatados com 1,5 milhão de reais cada. DEM e PCdoB receberam 990 mil reais e 900 mil reais. A lista é completada com SD (920 mil reais), PPS (800 mil reais), PSD (250 mil reais), PROS (150 mil reais), PRB e PDT (100 mil reais cada) e PEN (70 mil reais).

Os dados são da Justiça Eleitoral, compilados pelo Outras Palavras. O quadro abaixo se refere às doações para os partidos, e não para as candidaturas.

O CLUBE DOS SEIS
PMDB R$ 23.550.000
PT R$ 8.250.000
PSDB R$ 6.960.000
PSB R$ 3.500.000
PP R$ 1.500.000
PCdoB R$ 1.500.000
Fonte: TSE/Outras Palavras

Os números da Vale em 2014 são maiores que os divulgados pelo documento Quem é Quem nas Discussões do Novo Código da Mineração, pois três dessas empresas não estavam na lista feita pelo Ibase. A soma consolida a Vale como uma das maiores doadoras de campanha em 2014.

A empresa é, ao lado da anglo-australiana BHP Billinton, sócia da Samarco, a responsável pelo rompimento de barragens em Mariana (MG), em um dos maiores crimes socioambientais da história brasileira. Oito pessoas já foram encontradas mortas e dezenas estão desaparecidas.

Esses 49 milhões de reais em doações para comitês e diretórios ainda não dão conta de todas as doações feitas na campanha de 2014. Isso porque é possível doar para os partidos – pelos comitês e diretórios – ou para candidaturas específicas. Sejam estas para o Congresso, sejam para o Executivo.

Na prática, algumas doações para diretórios estaduais foram remanejadas pelo PMDB e beneficiaram candidaturas específicas, em particular a de parlamentares que atuam no Congresso em defesa dos interesses das corporações.

A candidatura da presidente Dilma Rousseff (PT) recebeu 12 milhões de reais da Vale Energia (2,5 milhões de reais), Salobo Metais (3,5 milhões de reais), Mineração Corumbaense Reunida, a MCR (4 milhões de reais) e Minerações Brasileiras Reunidas, a MBR (2 milhões de reais). Bem mais do que a verba injetada pelas empresas nos demais candidatos do partido.

O governo federal acena com multas à Samarco pelo vazamento de resíduos em Mariana (MG), que já chegam ao Oceano Atlântico, matando animais, plantas e poluindo rios numa escala pouco vista no mundo.Esses números representam uma grande inflexão em relação às doações feitas por empresas ligadas à Vale na eleição de 2010.

Naquele ano, segundo o Ibase, as doações para o PMDB (5,76 milhões de reais) apareciam apenas em terceiro lugar, atrás do PT, com 10,38 milhões de reais, e do PSDB, com 6,95 milhões de reais. Ao contrário de 2014, quando as duas siglas também disputaram o segundo turno, a Vale só doava para os comitês nacionais de campanha, ou diretórios nacionais, e não para candidatos individuais.

A campanha do candidato Aécio Neves (PSDB), derrotado no segundo turno, recebeu no ano passado 2,7 milhões de reais da Vale Energia, criada ainda nos tempos da Vale do Rio Doce. Não constam no DCE doações de outras empresas da Vale.

A candidata Marina Silva (PSB, hoje na Rede) recebeu 488 mil reais da Mineração Corumbaense Reunida, a MCR, adquirida pela Vale há alguns anos de uma de suas principais concorrentes mundiais, a Rio Tinto.

O governador mineiro, Fernando Pimentel (PT), também teve campanha financiada por mineradoras. Entre elas, Vale Energia, Vale Manganês, MBR e MCR. Vale Manganês e Vale Minas do Azul (todas essas são da Vale) contribuíram com 1 milhão de reias para a campanha de seu concorrente, o tucano Pimenta da Veiga.

Eleito senador, o ex-governador Antonio Anastasia (PSDB) igualmente foi financiado pela CBMM (500 mil reais) e empresas da Vale, como Vale Energia (300 mil reais) e MBR (500 mil reais).

A MCR aparece como uma das principais doadoras para a campanha eleitoral do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), com 700 mil reais. A doação foi para o diretório do PMDB, que repassou a verba para o candidato. Ele também recebeu, igualmente por meio do diretório, 1 milhão de reais da CRBS, empresa especializada em prospecção mineral que investiu 32,35 milhões de reais na campanha de 2014, dos quais 4 milhões de reais para o Diretório Nacional do PMDB e 600 mil reais para a direção fluminense do partido.

Cunha foi o líder em emendas para o novo Código: nada menos que 90. Muito à frente do segundo colocado, Bernardo Vasconcellos (PMDB-MG), que apresentou 24 emendas. Um terço das emendas foram apresentadas por deputados do PMDB.

*Publicado originalmente no blog de Alceu Castilho no Outras Palavras.