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Quando a estrela se apaga

por Socrates — publicado 08/02/2008 16h06, última modificação 16/09/2010 16h18
Nunca é fácil deixar de ser bajulado, mas é fundamental ter em mente durante todo esse processo que o personagem cortejado é uma peça de ficção com prazo de validade predeterminado

Nunca é fácil deixar de ser bajulado, mas é fundamental ter em mente durante todo esse processo que o personagem cortejado é uma peça de ficção com prazo de validade predeterminado
Conciliar a atividade profissional com a vida privada é particularmente difícil em alguns casos. O caminhoneiro que passa a maior parte de sua existência na boléia do caminhão, geralmente só com sua saudade e seus sonhos, é um deles. A lentidão do veículo é incompatível com a rapidez dos pensamentos, geralmente voltados para o que naquele instante está distante. A família, os compromissos, a educação dos filhos e as prestações da máquina que lhe dá serviço são responsabilidades para terceiros, porque ele próprio nunca está presente.

Outros são os médicos de algumas especialidades, que vivem quase como escravos dos pacientes, sem tempo para qualquer atividade lúdica ou de entretenimento. Ou os policiais que convivem diariamente com o risco de morte, enquanto portam suas responsabilidades profissionais, alguns ainda vivendo nas áreas tomadas pela marginalidade, o que aumenta o perigo e a incoerência da situação.

Ou, ainda, esportistas que enfrentam uma série de dificuldades relativas à pouca valorização ou ao excesso de exigências do meio profissional. É o caso de jogadores de futebol, afastados das famílias às vésperas de cada competição. Ou de jogadores de vôlei, que arruínam o bem-estar do hábitat natural ao passar metade do ano viajando para defender a seleção nacional, deixando tudo para trás.

Todos esses profissionais têm como mais perigoso inimigo o desemprego, capaz de desestabilizar totalmente as estruturas familiares, emocionais, sociais e financeiras. Perder o posto de trabalho é traumático, mas pior ainda é perder o próprio trabalho, a capacidade de produzir em determinada área de atuação. Embora algumas escolhas profissionais decretem que o período produtivo dure pouco tempo, esta é sempre uma situação delicada. É o caso dos atletas que, mais cedo ou mais tarde, devem se afastar da profissão por incompetência física. É um momento dramático na vida de todos, pois a maioria nunca pensou nisso e não se qualificou para exercer qualquer outra atividade profissional.

Seria fundamental conscientizar todos os atletas do quão grave é enfrentar o fim da carreira. Só assim as providências podem ser tomadas a tempo. Esse é um grito de alerta que há muito temos levantado e que tem produzido poucos efeitos.

É triste constatar que há agravantes a piorar ainda mais este quadro, como o paternalismo que impera em algumas estruturas esportivas e, também, o convívio com a popularidade. Essa, como uma droga, conduz muitos desavisados a viagens mirabolantes e irreais sem deixar nada de bom.

Quando jogadoras expoentes das seleções nacionais, seja do esporte que for, avisam que estão se programando para ter filhos em poucos anos, algumas pessoas se surpreendem, pois valorizam e enxergam unicamente o lado público das atletas, como se elas não tivessem sonhos e projetos de vida pessoal. Embora não sejamos muito estimulados a isso, é importante não perder de vista que o que nos faz viver bem é a conquista do bem-estar da alma, algo que se encontra na felicidade, nem sempre ligada ao trabalho.

Quando o trabalho está exposto ao grande público, o cuidado deve ser redobrado. O cotidiano de alguém muito popular no esporte é extremamente irreal. Passa-se a ser tratado como uma estrela, cujo brilho é usado para realçar as virtudes de um determinado produto, estabelecimento ou o que seja. Mas, um dia, esse brilho esvai-se com o ocaso da carreira esportiva e a tal estrela já não servirá para mais nada.

Enquanto a exposição pública é extremada, o atleta-personagem tem um peso formidável em relações que não são mais do que meramente comerciais, ainda que travestidas de humanas. Quando, entretanto, o personagem já não responde aos interesses desse mercado, passa a ser desprezado por quem o acariciava até pouco tempo atrás. Se o ser humano que encarnou essa estrela, enquanto desfilou em campos, quadras ou pistas, não estiver atento, poderá sucumbir juntamente com o personagem. E o estrago será extraordinariamente grande.

Nunca é fácil deixar de ser bajulado, mas é fundamental ter em mente durante todo esse processo que o personagem cortejado é uma peça de ficção com prazo de validade predeterminado. É por isso que as estrelas do esporte não podem deixar que os outros determinem as suas opções de vida. E, para que exista um futuro após os holofotes, o personagem deve ser tratado apenas como tal.