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Quando a beleza dói

por Vivi Whiteman — publicado 11/04/2014 16h10, última modificação 11/04/2014 16h12
O que leva adolescentes a espancar uma colega por ser bonita?
Reprodução/Acervo Pessoal
Foto da aluna agredida

Aluna foi agredida por ser "muito bonita"

Em seu livro “A História da Beleza” (2004), o sociólogo e historiador francês Georges Vigarello traça um panorama de como a ideia do que significa “ser bonito” mudou ao longo dos séculos.

Na conclusão de seu trabalho, Vigarello afirma que, no fluxo das transições e características específicas das “belezas” de diferentes épocas, os caminhos atuais estariam ligados a um sentimento geral, o da conquista de um certo “bem-estar”. E é aí onde mora o bote da cobra.

“O mal-estar pode surgir como consequência onde o bem-estar se impõe como critério final. O nosso mundo solta um lamento, instalando um incômodo difuso, enquanto se consagra mais do que outros, e como nunca, em promessa de beleza”, escreve ele. Mas o que isso quer dizer e o que tem a ver com nossas experiências atuais com o conceito de beleza?

Nesta semana, uma jovem de 15 anos foi espancada por duas colegas dentro da escola que frequentam no interior de São Paulo. Terminou com um traumatismo craniano e um rosto cheio de hematomas. As agressoras já tinham feito ameaças anteriores: queriam cortar os cabelos da moça, ela “pagaria” em algum momento.

A menina, segundo testemunhas, incluindo seu próprio pai, estaria provocando um certo desequilíbrio na turma pelo fato de ser bonita. Colegas deram entrevistas dizendo que, além de gata, ela era também “metidinha”, do tipo que “se acha”. Apanhar por ser bonita? Por “ostentar” beleza?  Pois é.

Voltamos a Vigorello. Se a “promessa do mundo” (ou seja, se o sucesso de uma vida, de uma existência)  pode ser alcançada via beleza, se a beleza é uma das chaves para essa felicidade prometida, faz sentido que uma novata cuja beleza chame a atenção não apenas cause inveja, mas seja vista como uma verdadeira ameaça dentro de um grupo já formado. É uma questão de dominação e poder.

É claro que a história das agressoras, seu perfil pessoal e psíquico, ou seja, suas condições individuais, devem ser levados em conta nesse caso. O que não quer dizer que o episódio não possa ser visto sob luzes mais gerais.

Um dos alunos filmou a agressão. Os alvos principais são o rosto e os cabelos. Não apenas Vigorello, mas tantos outros que já se debruçaram sobre o assunto, identificam os traços faciais e os cabelos como grandes focos de atenção femininos. Belos pares de olhos e madeixas bem cuidadas já inspiraram canções, imagens e versos dos maiores gênios da  música, da pintura e da literatura.

Atualmente, continuam nos altares das megastores de cosméticos e nos comerciais de TV e revistas. Um rosto sem rugas, sem marcas, “maçãs” firmes, olhos de gato. Fios longos, hidratados, esvoaçantes, que a atriz ou a modelo balançam na tela, hipnotizando a consumidora, envolvida numa mentira sincera que ela adora levar pra casa toda vez que vai ao supermercado.

Rostos marcados, queimados, cabelos tosados como forma de humilhação são abundantes não só na ficção como na realidade. E são castigos tipicamente femininos. Não se trata da tortura em si, mas da marca da beleza roubada.

Do culto ao rosto e à higiene chegando à beleza de e para consumo do século 20 (considerando nesta última todas as mudanças trazidas pela sistematização da moda e o império da chamada imprensa feminina), os contos da beleza certamente têm personagens masculinos, mas são protagonizados por mulheres. São elas, virgens, rainhas, santas, damas, estrelas de cinema, intelectuais e periguetes o foco desse joguinho de amor e ódio.

Embora viva se esquivando de sua responsabilidade nesse sentido – seja via silêncio seja via campanhas perversas que promovem o aumento do pior tipo de competição passivo-agressiva, enquanto vendem sorrisos e papinhos furados sobre diversidade –,  a indústria da imagem de moda tem depositado muita lenha nessa fogueira. E fatura ainda mais quando o circo pega fogo.

O próprio Vigarello, já em 2004, quando o livro foi lançado, fala sobre o outro lado da lorota das “escolhas individuais”, queridinha absoluta do marketing hoje em dia.

A ciranda dupla da publicidade funciona primeiro num sentido. Primeiro gira o discurso de que a tendência é escolher “o melhor para você”, “ser quem você é”, "aceitar sua verdade" e todo tipo de sedução libertadora. Mas o Lado B é outro. É nele que gira a ideia de que existem vários caminhos, mas todos eles são regidos pelas mesmas exigências finais. No fim do disco, é bom que você use o sistema que mais te “agrade” para controlar seu peso, sua pele, seus cabelos, seus músculos etc.

Quem não apresenta os resultados esperados sente a porrada da exclusão. Isso vale até mesmo para aquelas que chegam a lugares olímpicos contemporâneos, como as capas de revista. A cantora Adele ou a atriz e roteirista Lena Dunham podem até ganhar capas da “Vogue”, mas são fotografadas em close ou do peito pra cima. São rostos aceitáveis, sustentados por feitos intelectuais (cantar, fazer uma série de sucesso, etc), mas não são corpos “apresentáveis” numa capa, espaços reservados para as silhuetas das magras.

Nos mitos gregos, as deusas arquitetavam vinganças das mais violentas contra “azinimigas”. E essas inimigas não raro eram mortais tão belas que os demais humanos ousavam compará-las aos seres divinos. Aparência é poder. Indo mais longe, mesmo uma olhadinha na evolução e no mundo animal mostram a verdade dessa afirmação.

Quando deslocamos esse tipo de conflito para um ambiente como uma escola cheia de adolescentes, o quadro fica mais assustador do que o habitat de feras (o filme teen “Meninas Malvadas” faz um ótimo trabalho comparando uma “high school” com uma selva).

Meninas e meninos no auge da pipoca hormonal. Superestimulados pela TV, pelas revistas, pelo noticiário de celebridades. Competindo loucamente por atenção, viciados em exposição, celulares em punho.

Eis que aparece uma “ave” que se destaca pela beleza e por se orgulhar dessa beleza, gostar de chamar a atenção, de usufruir do bem-estar de corresponder ao padrão de sucesso estético. Não há nada de inocente aí: existe um grande prazer envolvido, e esse prazer também inclui o gosto de estar “acima” dos demais.

Do outro lado, porém,  duas garotas que se sentem “desfavorecidas”, realmente humilhadas por esse privilégio da colega, resolvem reagir e eliminar a ameaça, submetê-la ao controle da força, já que perderam na arena da beleza.

Controle, mais uma vez, aparece como palavra-chave. Ela está inclusive nos rótulos de produtos: “controle de frizz”, “controle de oleosidade”, “age control”, “damage control”, “celulite control” etc. E você, veja que maravilha, é “livre” para escolher qual potinho de controle vai botar no armário.

Evidente que nada justifica o espancamento, evidente que não se deve arrumar desculpas furadas para defender as agressoras, nem fingir que tudo não passou de uma briguinha infantil isolada. Pelo contrário. Elas devem conhecer as consequências de seus atos, devem responder por eles. Mas isso não basta.

Também não se trata do velho jogo de gritar com indignação e apontar culpados.  A ditadura da magreza, as editoras e suas divas made in Photoshop, os padrões, todo mundo adora malhar os Judas de sempre. É um esporte perverso, aliás, quase um passatempo que faz parte da própria indústria. As próprias revistas que divulgam padrões depois os criticam. É uma fórmula e tanto.

Talvez seja o caso de examinar, como aconselha Vigorello, os mecanismos de narração dessa história da beleza contemporânea. Ou seja, quem é que conta essa história, quem é o dono do roteiro?

Mas como identificar os autores e redistribuir os papeis de uma maneira menos cínica? A resposta passa pela educação e também pela escola.

Vaidade e beleza (e suas relações com a ideia de poder) são assunto para filósofos e outros pesquisadores desde o mundo Antigo. São também temas sérios para empresários e seus empreendimentos, dos bilionários da beleza aos magnatas da mídia. No entanto, nas casas e escolas, pontos de maior atrito da vida social, são tratadas como temas menores, como besteira, simples questão de consumismo ou mera futilidade, como "conversa de mulherzinha".

E quando a pressão explode na carne de meninas de 15 anos, os adultos covardemente se perguntam “Oh, estaríamos de volta à Idade das trevas?”, “Oh, de onde vem tanta selvageria?”.  A resposta está logo ali, do outro lado do espelho. Que tal dar uma olhadinha?