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Quais os desafios da vacinação em países pobres?

por Gabriel Bonis publicado 21/07/2013 07h49, última modificação 21/07/2013 12h05
Enfermeiro dos Médicos Sem Fronteiras narra as dificuldades para manter vacinas preservadas a baixas temperaturas e qualificar assistentes para aplicar as doses
Hereward Holland / Médicos Sem Fronteiras
Vacinas

Refugiados no Sudão do Sul, no estado do Nilo Azul

Imunizar populações contra doenças em áreas pobres do mundo, regiões em conflito ou de difícil acesso é um desafio complexo. Além dos aspectos logísticos, os governos e organizações humanitárias precisam encontrar cada vez mais fundos para comprar as vacinas. Um levantamento da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) mostra que o preço do pacote básico de vacinação para crianças aumentou 2700% na última década (Leia mais AQUI).

Superar a barreira financeira na compra das doses de vacina, contudo, não é garantia de que a população receberá os medicamentos. Os países com menor infraestrutura ainda precisam transportar os insumos para a região onde serão usados, o que exige cuidados especiais. “Em algumas regiões ou países, não temos sequer uma estrutura mínima. Precisamos nos preocupar em garantir que o produto chegue ao local da vacinação com a garantia de qualidade, mantendo-o a temperaturas entre 2º C e 8º C de refrigeração. É difícil fazer isso em locais onde no verão faz 50ºC”, relata o enfermeiro brasileiro Renato Souza, que já participou de oito missões com o MSF no Congo, Burundi, Sudão e Etiópia.

Para manter as vacinas na temperatura adequada, diz Souza, é necessário ao menos uma fonte de energia elétrica para alimentar os refrigeradores que produzem os pacotes de gelo dos coolers, onde as vacinas são transportadas. Em locais sem acesso à energia elétrica, muitas vezes é preciso recorrer a painéis solares importados de outros países. “Poderia haver mais empenho dos laboratórios em criar vacinas de melhor aplicabilidade, com menor custo e que não exigisse uma tecnologia tão dispendiosa, muitas vezes impraticável em países não apenas da África, mas em locais que atravessam conflitos e crises.”

Segundo o enfermeiro, há ainda dificuldades para treinar uma equipe local para auxiliar na aplicação das vacinas e na divulgação das campanhas nas comunidades. O objetivo é sempre atingir mais de 90% de cobertura da população alvo. “As estruturas locais são frágeis, não suportam qualquer ação emergencial em qualquer âmbito e se tratando de vacinas a questão torna-se mais complicada devido a sua peculiaridade.”

Em situações graves, como campos de refugiados e conflitos, a vacinação ainda é o único meio de bloquear grandes epidemias de doenças imunopreveníveis, ressalta Souza. “As vacinas ainda são os únicos recursos na prevenção ou diminuição da mortalidade por algumas doenças que afetam o nosso planeta de forma indiscriminada.”

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