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Sociedade

Provedores regionais

Internet x isolamento

por Matheus Pichonelli publicado 26/06/2011 12h51, última modificação 26/06/2011 17h13
Empresas independentes, que se reúnem em SP, levam conexão a áreas esquecidas pelas teles
Barranco Alto

Distrito de Barranco Alto, em Alfenas, que fica às margens da represa de Furnas. Chegada da internet na localidade mudou a rotina dos moradores. Foto: Clodoaldo Pizi

Em pleno momento de expansão de sua economia, o Brasil ainda guarda numerosas regiões isoladas quando se fala em um serviço hoje considerado básico para o acesso a informação: a internet.

Na esteira das discussões sobre a democratização do serviço, embutidas no Plano Nacional de Banda Larga, uma mobilização organizada por internautas promoveu um “tuitaço”, na terça-feira 21, para pedir a expansão de serviços baratos e de qualidade. O movimento foi denominado “Banda Larga É um Direito Seu” e tinha como alvo as empresas de telecomunicações que podem ser beneficiadas com o projeto hoje em formatação no Ministério das Comunicações.

O movimento é uma reação à concentração e à qualidade dos serviços no País. Dados do Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil) mostram que, no Brasil, a velocidade média dos acessos em banda larga é de 1,7 megabyte por segundo – enquanto a Coréia do Sul já tem tecnologia para gerar conteúdo a 600 megabytes por segundo. A penetração da banda larga no País é de 21,5%. Isso porque, a cada dez domicílios onde a internet já é uma realidade, dois estão conectados à rede graças aos chamados provedores independentes ou regionais – que levam a internet a localidades desprezadas pelas grandes empresas.

Nesses lugares, a chegada da internet tem provocado pequenas revoluções no cotidiano dos novos usuários. Exemplo disso é Barranco Alto, distrito do município de Alfenas, no estado de Minas Gerais, que tem duas casas de veraneio para cada residência – onde vivem cerca de 500 pessoas.

Às margens da represa de Furnas, o distrito passou a ter acesso à internet há cerca de dois anos, quando um provedor regional decidiu investir na localidade. Só então os moradores puderam deixar o isolamento, geograficamente representado pelo difícil acesso para se chegar (ou sair) do distrito: a travessia é feita de balsa, que passa de hora em hora, ou por estradas de terra.

Longe do mapa das grandes empresas de internet, Barranco Alto passou a figurar nos planos de dois empresários que se especializaram em atender pequenas localidades. Com uma antena repetidora instalada em uma fazenda, Tiago Furbeta e Vagner Júnior conseguiram ampliar o número de assinantes de serviço – antes limitados a 700 clientes espalhados em Campos Gerais (27.600 habitantes), Campo do Meio (11.476 habitantes segundo o Censo de 2010) e Córrego do Ouro, todas em Minas.

O acesso ao serviço fez com que Eliane Fernando de Lima, professora do ensino fundamental e médio, economizasse horas de viagens com sua moto para fazer as provas ou entregar trabalhos de um curso de matemática a distância pela Universidade Federal de Ouro Preto. Antes de ter acesso à banda larga, ela viajava de moto até três vezes por semana para Alterosa, a 40 quilômetros de Barranco Alto, em uma hora e meia na estrada de terra. Com a internet, consegue fazer quase tudo de casa – e as viagens se limitaram aos dias de avaliações. “As videoconferências eu assisto em casa há quase um ano”, diz a professora, que passou a fazer também outros cursos a distância, como computação. Desde que passou a ter banda larga em casa, ela criou perfis nas redes sociais Orkut e Facebook e encontrou vários amigos de sua cidade de origem, Caieiras (SP), de quem não tinha notícias há tempos.

Quem também mudou os hábitos foi o engenheiro agrônomo José Gabriel Magalhães Lima, produtor rural em Barranco Alto, que assinou o serviço há cerca de seis meses e, desde então, instalou a internet em quatro computadores da fazenda de milho. Os equipamentos são agora usados pelos empregados da fazenda. “Consigo fazer agora a cotação dos produtos, vejo o preço do que preciso comprar”, diz.

Wardner Maia, presidente da Abrint, Associação de Provedores de Internet e Telecomunicações, acredita que empresários que investem em pequenas localidades não devem perder espaço com as mudanças promovidas recentemente na Telebras – e que tem como pano de fundo o Plano Nacional de Banda Larga, que promete democratizar o acesso a internet na esteira dos 31 mil quilômetros de fibras ópticas espalhadas pelo País.

O futuro desses empresários será o tema, em São Paulo, do 3° Encontro Nacional de Provedores para debater políticas e estratégias para esse mercado, que acontece nos dias 29 e 30, no Century Flat Paulista (Paraíso).

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