Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Primavera feminista: o lugar da mulher é na política

Sociedade

Feminismo

Primavera feminista: o lugar da mulher é na política

por Pedro Estevam Serrano publicado 06/11/2015 05h16
Esta coluna é da estudante da USP Julia Serrano Forbes, como parte do movimento #AgoraÉQueSãoElas
Antonio Cruz/ Agência Brasil
Aluna chega para a prova do Enem, que teve questão sobre Beauvoir e redação sobre direitos da mulher

Aluna chega para a prova do Enem, que teve questão sobre Beauvoir e redação sobre direitos da mulher

Por conta da campanha #AgoraÉQueSãoElas, cedo meu espaço em minha coluna para minha sobrinha Julia Serrano Forbes publicar o artigo abaixo. Julia é estudante de historia da USP, militante feminista, filiada ao PSOL e ativista do setorial de mulheres do movimento RUA-Juventude Anticapitalista. Representa bem, a meu ver, a juventude feminista que vem para nos retirar da zona de conforto machista, que todos nós, homens, em alguma medida habitamos.

Primavera feminista: o lugar da mulher é na política

Por Julia Serrano Forbes

Durante muito tempo, nós, mulheres, aprendemos que política não é coisa para a gente. Aprendemos isso de diversas formas, desde a falta de representatividade entre os políticos (homens, brancos, heterossexuais) que vemos na televisão, até nas mesas de almoço de família, quando os homens debatem a situação lamentável do país e as mulheres lavam a louça. Até mesmo nas escolas e universidades nossa referência intelectual é sempre masculina.

Ultimamente isso vem mudando, aos poucos, e uma quantidade cada vez maior de meninas e mulheres começam a se enxergar enquanto sujeitos políticos. O feminismo cumpre uma papel fundamental nessa história: a maioria das mulheres que eu conheço e que são militantes, envolvidas na política, começaram esse envolvimento a partir do movimento de mulheres.

E não é à toa! Quando crescemos aprendendo que política é uma coisa de e para homens, o feminismo consegue nos mostrar, aos poucos, que a nossa resistência à opressão que sofremos todos os dias é política também.

Esse é um dos motivos pela grande felicidade que foi para mulheres de todo o país ao verem como o feminismo, a luta antirracista e o combate às opressões teve protagonismo no Enem desse ano. As milhões de pessoas que prestaram a prova em 2015 entraram em contato direto com essas pautas e tiveram que formular um texto sobre a violência contra a mulher. Isso é um grande avanço.

Mas, ao mesmo tempo, ainda precisamos avançar (e muito!) para conquistarmos o direito do debate de gênero e raça, barrado na maioria dos Planos de Educação. A nossa luta só acaba quando todas as escolas públicas forem de qualidade e todos e todas jovens do país tiverem acesso à esses debates de forma igualitária.

O fato do feminismo estar aparecendo tanto no último período, a ponto de se tornar uma preocupação para vestibulandos de todo o país, é fruto de muita luta do movimento de mulheres nos últimos anos.

Foram muitos atos de 8 de março (o Dia Internacional da Luta das Mulheres) e muitas Marchas das Vadias para conseguirmos chamar a atenção para a violência e o abuso que nos atinge todos os dias.

Mas não é só em provas e na mídia que vemos os reflexos da nossa batalha diária contra o machismo. É também na mobilização! Na semana passada, milhares de mulheres ocuparam as ruas contra o PL 5069, que ameaça o nosso direito ao aborto legal e precariza o atendimento à vítimas de estupro, e exigindo o Fora Cunha, atual presidente da Câmara protagonista nos ataques às mulheres, negros e negras e LGBTs.

Estamos em meio à uma verdadeira primavera feminista, com dimensões comparáveis ao que foi Junho de 2013. Muitas mulheres estão indo pela primeira vez às ruas, porque se identificam enquanto sujeitos políticos desse processo que ameaça alterar a correlação de forças que está dada atualmente no Congresso Nacional.

É, mais uma vez e em maior escala, o feminismo trazendo mulheres para a política, nos ensinando que a rua é o nosso lugar e que, unidas, conseguimos alterar os rumos da história desse país. E temos com tarefa central derrubar Eduardo Cunha, que representa tudo que há de mais reacionário na política desse país.

A nossa luta é diária e é sofrida. Já ouvi muitas vezes que feminista vê machismo em tudo e, até certo ponto, isso não deixa de ser verdade. Mas é porque nós entendemos que essa opressão determina as nossas vidas de maneiras que nem nós mesmas esperávamos.

O lado bom disso é saber que a nossa luta também tem um potencial muito grande de determinar o nosso futuro, na construção de uma nova sociedade que consiga superar toda a opressão e exploração que nos atinge todos os dias.

registrado em: , ,