Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Prefeitura lança programa de apoio às transexuais

Sociedade

Dia Nacional da Visibilidade Trans

Prefeitura lança programa de apoio às transexuais

Iniciativa da cidade de São Paulo oferece bolsa para as mulheres trans estudarem, ajudando a afastá-las da prostituição e da violência das ruas
por Mariana Melo — publicado 29/01/2015 06h07, última modificação 29/01/2015 21h30
Mariana Melo
transcidadania.jpg

Transexuais inscritas no programa fazem prova para as turmas do supletivo

A Prefeitura de São Paulo escolheu o Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorado nesta quinta-feira 29, para lançar o programa Transcidadania. Fruto de uma articulação entre secretarias (Direitos Humanos, Educação, Saúde, Assistência Social, Trabalho e Políticas para as Mulheres), o projeto foi um pedido pessoal do prefeito Fernando Haddad (PT) e quer incluir essas mulheres no mercado de trabalho, ajudando-as a se livrar da prostituição e da violência das ruas.

A Prefeitura estima que 4 mil mulheres travestis vivem na capital paulista. Muitas delas em situação de rua ou vivendo de prostituição, expostas ao tráfico de drogas e de pessoas, explica o secretário dos Direitos Humanos do Município, Rogério Sottilli. “É comum serem expulsas de casa na adolescência por não serem aceitas pela família. São expulsas com 13, 14 anos e a partir daí tentam a sobrevivência”, explica Sotilli. “A prostituição acaba sendo a única alternativa. E a maioria quer sair da rua, só se prostitui porque não encontra outra alternativa, por conta da estigmatização."

Para auxiliá-las o Transcidadania vai garantir, por dois anos, um salário mínimo mensal --788 reais. Há ainda a exigência de se frequentar aulas de educação para adultos nas escolas municipais, visando o Pronatec e o ENEM. São ministradas também aulas de Direitos Humanos e há o encaminhamento para a rede municipal de saúde, onde há inclusive a possibilidade de tratamentos hormonais.

Uma das trans participantes, Meg, de 43 anos, procurou o programa por ter medo de não se sustentar no futuro. Apesar de achar muito boa a iniciativa, critica a quantia. “No Centro, onde eu moro, um aluguel com condomínio dá quase mil reais.” Ela teme que, por conta disto, muitas transexuais atendidas sigam trabalhando como prostitutas.

Jessica Matias de Mendes, 32 anos, também critica o valor. “O acué [dinheiro] cai só no fim do mês. Como é que a travesti vai fazer? E se você não for nas aulas, também não ganha. E como muitas não vão sair da rua, as aulas deveriam ser de manhã, e não à noite". Jéssica hoje trabalha como cuidadora de uma criança, sem qualquer registro formal, por cem reais mensais. Chegou a se prostituir quando chegou a São Paulo, com 20 anos. Pretende entrar no Pronatec, fazer curso técnico em Culinária ou Confeitaria e ter seu próprio negócio.

O desejo da sergipana Gisele Rosa, 33 anos, é sair das ruas, terminar o Ensino Médio, fazer o Enem e cursar Nutrição. Como outras entrevistadas, morou em países europeus e, na volta, teve dificuldades para se empregar. Hoje, mesmo com todas as dificuldades, tem fé que ainda realizará seu maior sonho: ser mãe, adotando uma criança.

Janaína dos Santos, outra participante do programa, diz que desde os 8 anos sabia o que queria ser: filósofa. Acabou, no entanto, indo morar na Alemanha por muitos anos, onde teve problemas com drogas e chegou a ser presa por não ter visto de permanência no país. “Quem me ajudou foi a vice-cônsul.”, conta. Há dois anos no Brasil e com 43 anos, Janaína pretende terminar seu livro, que terá o título “10 portas de saída, 100 dicas para sair das drogas com estilo”.

O Transcidadania beneficiará inicialmente 100 travestis, mas a ideia é expandir, uma vez que 50% das transexuais que moram em São Paulo não têm moradia fixa e 81% não conseguem emprego formal. E, para dificultar, quando têm mais de 30 ou 40 anos, encontram dificuldade em seguir tirando seu sustento da prostituição. “O Brasil é o país com maior número de assassinato de travestis e transexuais no mundo. Em segundo lugar vem o México, que tem quatro vezes menos que o Brasil. Isso mostra o quanto essa população é vulnerável”, afirma Sotilli. “Nosso objetivo central é a inserção social dessa população, construindo uma alternativa de autonomia financeira. Se o gay já pode ter alguma dificuldade para enfrentar o mercado de trabalho por conta do preconceito, imagina uma travesti.”.

Houveram boatos...

Mesmo uma das mais famosas transexuais da TV, Luisa Marilac, protagonista do viral “E vocês achavam que eu estava na pior…”, gravado em uma piscina na Espanha, teve dificuldade de encontrar emprego quando retornou ao Brasil. A virada de mesa na vida de Marilac começou no hotel Chilli Pepper, no Largo do Arouche, no centro de São Paulo.

O empreendimento do empresário Douglas Drumond abriu portas para contratação de transexuais, entre elas Marilac, que tem um ano de casa e é supervisora de serviços gerais, cargo para o qual foi promovida quatro meses após começar como camareira. “Foi muito difícil arrumar emprego, eu sabia que teria que me esforçar. Se eu conseguisse, abriria portas para outras”.

Marilac precisou se prostituir ainda na adolescência e não esquece dos perigos vivenciados “na estrada”, como ela diz. “Cheguei a tomar sete facadas quando tinha 16 anos... Hoje coloco a cabeça no travesseiro e tenho paz de espírito. A travesti quando sai pra rua, não sabe se vai voltar". Sua esperança é ver outras transexuais com as mesmas chances que teve: “a minha intenção é mostrar para as pessoas e para os empresários que nós temos a mesma disposição para trabalhar do que qualquer um, ou até mais. Tive a oportunidade de mostrar isso e fui promovida. Hoje a minha vida é o meu trabalho.”

Drumond prepara a abertura de uma filial do Chilli Pepper em Belo Horizonte, e pretende contratar transexuais por lá também. “Muitos empresários perguntam: como faço para deixar minha empresa gay friendly? Sempre respondo: dê emprego a uma travesti”.

Marilac encara numa boa a guinada que a levou de personagem disputada por programas de TV a camareira. “Tenho o maior orgulho de andar de uniforme. Me sinto protegida, as pessoas me olham e pensam assim: ´aquela trabalha´. Infelizmente é desse jeito, mas todas nós deveríamos ser tratadas bem sempre, com ou sem uniforme.”