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Preconceito disfarçado de ciência

por José Antonio Lima publicado 12/08/2013 14h29, última modificação 06/06/2015 19h23
Em um mundo civilizado, espera-se que a ciência seja usada para fazer avançar a sociedade, não para criar um ranking de "raças". Por José Antonio Lima
Divulgação
Memorial do Holocausto

O memorial do Holocausto, em Berlim, capital da Alemanha, serve como lembrança das atrocidades cometidas na Segunda Guerra Mundial

Tem causado polêmica nas redes sociais o artigo publicado por Helio Schwartsman na Folha de S.Paulo no sábado 10 e intitulado Demografia no Nobel. Não é para menos. Usando uma forma de preconceito que recebe guarida no Brasil sob a capa do que se configurou chamar de “politicamente incorreto”, Schwartsman deixa nas entrelinhas que os judeus são superiores em termos de inteligência e os muçulmanos, inferiores.

Schwarstman inicia sua argumentação citando um tweet do biólogo evolucionista e ateu ativista Richard Dawkins. “Todos os muçulmanos do mundo têm menos prêmios Nobel que o Trinity College, Cambridge. Eles fizeram grandes coisas na Idade Média, no entanto”. Para quem conhece Dawkins, não é uma surpresa. O britânico, que geralmente gasta seu tempo tentando provar a burrice dos religiosos, tem se destacado pelos ataques islamofóbicos nos últimos anos – em março, Dawkins afirmou que o “islã é a maior força do mal” hoje no mundo.

Schwarstman não cita o fato de Dawkins ser um conhecido preconceituoso, mas lamenta que o cientista não avançou na “polêmica”. Este papel cabe, então, ao próprio Schwartsman, que faz uma comparação entre a quantidade de prêmios Nobel recebidos por muçulmanos (1,2% do total) e judeus (22%).

Sem entrar no mérito de que o Nobel é um prêmio político e dificilmente poderia ser a última palavra numa comparação sobre o conceito de inteligência, a tentativa de comparação feita por Schwartsman é tosca em diversas esferas. Ser muçulmano é ser um seguidor da religião cujo profeta é Maomé e o livro sagrado, o Corão. Não há qualquer componente étnico em ser muçulmano. Com relação aos judeus, a situação é diferente. A Encyclopaedia Judaica, fonte de Schwartsman, classifica como judeu quem é filho de judeus ou tem ao menos três avós judeus. Em tese, o fato de qualquer um poder ser muçulmano e de nem todos poderem ser judeus deveria significar mais prêmios Nobel para muçulmanos. Tal suposição ignora, no entanto, o contexto em que os judeus, como religião e povo, e os muçulmanos, como religião, existem.

Na Idade Média (citada por Dawkins), o islã viveu um período conhecido como Era de Ouro (do século 8 ao 13). A ascensão do Califado Abássida trouxe prosperidade e liberdade para a busca de conhecimento, tornando o mundo árabe-muçulmano o centro intelectual do mundo, onde se desenvolveram ciências como a matemática, a medicina, a física e a filosofia. Nos dias atuais (em que os prêmios Nobel são distribuídos) a situação é outra. O mundo muçulmano é uma das regiões mais atrasadas da Terra, graças à história de colonização e às persistentes divisões políticas, religiosas, sectárias e étnicas de seus povos. O obscurantismo, religioso inclusive, domina a região, e a busca por conhecimento é cerceada pelos regimes autoritários da região.

Os judeus, por outro lado, floresceram após o Holocausto na chamada “civilização judaico-cristã ocidental” que se encontra em seu auge intelectual. Contribui para esse auge o fato de a América do Norte, a Europa e Israel (não os Territórios Palestinos Ocupados) serem democracias vibrantes, nas quais a busca por conhecimento é incentivada e privilegiada.

Em seu texto, Schwartsman não cita tais aspectos para tentar explicar a proeminência dos judeus entre os recipientes do prêmio Nobel. O colunista cita, no entanto, a pesquisa Natural History of Ashkenazi Intelligence (em inglês), em que os cientistas Henry Harpending e Gregory Cochran tentam explicar geneticamente a inteligência dos judeus, em particular dos judeus asquenazes, cuja origem está na Europa Central. Segundo Schwartsman, outras pesquisas do tipo não são realizadas no meio acadêmico porque há um tabu provocado pela “esquerda” que, segundo o colunista, não estaria satisfeita com direitos iguais, mas desejaria promover a ideia de uma igualdade biológica.

De fato, há polêmica a respeito do tema, mas ela não interdita o debate como faz crer Schwartsman e nem existe por conta dos motivos expostos pelo colunista da Folha.

Na medicina, por exemplo, há inúmeras pesquisas tentando explicar porque a incidência de câncer de próstata é maior entre os negros ou porque os japoneses são mais propensos a desenvolver câncer de estômago. Os pesquisadores envolvidos nelas têm plena liberdade para realizar seus trabalhos, até porque podem ajudar a salvar vidas.

Tentativas de explicar pela genética os traços da personalidade humana, especialmente os “qualitativos”, como a inteligência citada por Schwartsman, de fato não desfrutam da mesma liberdade. Por dois motivos, simples de entender. Em primeiro lugar, porque estudos deste tipo serviram para justificar algumas das maiores atrocidades já cometidas pela humanidade, como a escravidão e o Holocausto. Nesses momentos, não faltaram cientistas prontos para corroborar as teses de que os negros e os judeus eram inferiores e poderiam, então, ser escravizados e exterminados, respectivamente.

Em segundo lugar, porque não é preciso ser geneticista para entender que os fatores genéticos não são determinantes, mas um componente do sucesso ou fracasso de uma pessoa.

Se houvesse a possibilidade de clonar Pelé, por exemplo, quem garantiria que o Pelé 2.0, com a mesma carga genética de Edson Arantes do Nascimento, seria tricampeão mundial de futebol? É um tanto óbvio que a família de Pelé, bem como seus amigos de infância, seus colegas jogadores e treinadores no Santos e na seleção brasileira influenciaram o atleta que ele se tornou, bem como as experiências que viveu. Com doenças, funciona da mesma forma. É conhecido o fato de os japoneses terem uma predisposição genética a desenvolver câncer gástrico. O fato de os imigrantes japoneses nos Estados Unidos terem menos tumores gástricos que os japoneses do Japão e mais que a população norte-americana, indica que fatores externos, como a dieta, influenciam o surgimento da doença.

De qualquer forma, espera-se de um mundo civilizado que a ciência seja usada para resolver problemas, e não para criar rankings de quais “raças” são melhores ou mais inteligentes. No caso particular dos judeus, uma questão biológica particularmente útil seriam as pesquisas genéticas (ambas em inglês) feitas por Michael Hammer na Universidade do Arizona, dos EUA, (no ano 2000) e por Almut Nebel na Universidade Hebraica, de Israel (em 2001), mostrando que os judeus e árabes, em especial os palestinos, são, em termos genéticos, essencialmente a mesma população. Quem sabe, ao ter isso em mente, ficaria mais fácil para os líderes israelenses colocarem fim à atroz ocupação imposta aos palestinos.

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