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Crônica

Pra não dizer que não falei de flores

por Alberto Villas publicado 07/08/2014 16h17
Por que será que aquele vasinho de flores foi parar numa lixeira em Higienópolis?
Alberto Villas
flores-higienopolis

Ando sempre com o iPhone na mão quando saio andarilho por São Paulo. Gosto de fotografar a cidade, os detalhes que a gente só descobre andando por suas calçadas tortas, entre muros mofados, pichados, quase ruínas. Vou clicando.

Já flagrei uma pitangueira em flor na Praça Cornélio, uma goiabeira carregada na Rua Roma, já flagrei aquele cara que anda colando pequenos cartazes nas paredes da cidade, com letras de Roberto: “Estrelas mudam de lugar, chegam mais perto só pra ver”.

Já cliquei uma caixa de correio aberta, largada, abandonada. Já cliquei no lixo, bambolês de todas as cores, um dicionário Aurélio, um baby-sauro estropiado e um micro-ondas enferrujado.

Mas foi andando pela Rua Mato Grosso, em Higienópolis, que avistei um vasinho de margaridas, intacto, depositado em cima da lata de lixo da Prefeitura. Já tinha dado dois passos pra frente, quando resolvi voltar e clicar. Antes, observei bem as flores que estavam vivas, o vasinho inteiro, a terra ainda meio úmida.

Postei no Instagram, com uma pergunta singela:

Quem teria jogado no lixo, as margaridas?

Alguns minutos depois, chegou a primeira resposta, vinda de Rogerinho Marques, lá da Cidade Maravilhosa:

“A moça que recusou o pedido de desculpas do ex-namorado”.

Eu continuei caminhando, fui descendo a Angélica e o iPhone apitando, anunciando novos comentários. O Samuel disse apenas “muito bom”. A Vera Rita, comentou: “É a famosa mal-me-quer ou bem-me-quer”. A Sheila respondeu “game over” e o Ely escreveu: “Quanta mágoa”.

A Annamaria argumentou que “elas não foram suficientes”, enquanto a Renata lamentou: “Ele me abandonou”. A Evane explicou, com detalhes: “O moço estava chegando no prédio da ex com as flores... na hora que ela saia com o novo amor”.

A Graziela deixou todo o romantismo de lado e foi técnica: “Alergia a pólen”. A Kátia foi meio dramática e respondeu assim: “A mulher que comprou pra enfeitar a casa e o marido nunca mais voltou”.

Enquanto estava no ponto do ônibus, entraram mais quatro postagens: “Não se joga margaridas no lixo... devia ter jogado o traste do namorado” (Valquíria), “Quem jogou não sei, mas tenho certeza que esta muito puto da vida” (Henri), “Uma mulher maltratada pelo suposto amor da vida dela” (Cláudia), “Margarida, que não suportava conviver apenas com iguais” (Liliane).

No ônibus, entraram os últimos posts. A Paula Rangel, foi objetiva: “Ah, é só alguém que viajou, não ia deixar essas flores lindas morrerem de sede, e deixou ai pra outro alguém pegar”. A Glorinha Vanique foi poesia e inspiração para um conto: “Uma mulher recatada, apaixonada pelo lixeiro”.

A Silvana Requena postou: “Ou: quem será que teve a ótima ideia de enfeitar a lixeira?” e o Roberto Pepino encerrou a história assim: “Sejamos otimistas, talvez tenha sido um ato de amor à lixeira”.

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