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O terror da polícia no Complexo do Alemão: 'Cala a boca, favelada'

por Agência Brasil publicado 10/04/2015 18h28
Dona de uma padaria denunciou policiais da UPP que comiam em seu estabelecimento e não pagavam: agora é vítima de ameças. Leia outros relatos de violações da PM na comunidade
Agência Brasil
complexo do alemão

No Complexo do Alemão, moradores estão cansados da UPP

Ameaças, humilhações, arrombamentos de imóveis particulares, extorsões e roubos dentro de residências, foram algumas das denúncias feitas nesta sexta-feira 10 por moradores do Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, contra policiais militares, em reunião com políticos e defensores públicos, na Vila Olímpica do Alemão.

Dona de uma padaria, uma moradora que não quis que o nome fosse divulgado, contou que denunciou alguns policiais à Ouvidoria da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da região, que comiam em seu estabelecimento, mas não pagavam. Desde então, segundo a comerciante, tem sofrido humilhações e ameças por um grupo de agentes. “Depois que fiz a denúncia, agrediram meu filho, algemaram ele. Me falaram, 'cala a boca, favelada', humilharam meus funcionários e me pararam várias vezes, dizendo que minha moto era roubada”, comentou a senhora aos prantos. Na semana passada, ela foi informada por policiais que a partir das 20h teria que fechar o negócio, e avisasse aos clientes que não saíssem de casa depois das 22h.

Um dos integrantes do coletivo Ocupa Alemão, Udson de Freitas, fez questão de negociar uma folga no trabalho para participar da reunião. Ele relatou diversos abusos que testemunhou na comunidade onde vive. “Senhoras são xingadas, carros são amassados pelos veículos blindados. Já teve moradora que chegou em casa e encontrou a porta arrombada com policiais sentados no seu sofá, assistindo televisão, e ao mandá-los sair foi agredida e ameaçada”, disse. “Entre a ponta do fuzil do policial e a do bandido existem vidas que estão sendo ignoradas pelo governo”, enfatizou.

O jovem criticou a cumplicidade da grande imprensa nas versões que a polícia dá sobre algumas mortes nas comunidades pobres. “Vi estudantes que, depois de serem mortos, viraram bandidos para a mídia, que nunca se interessou em descobrir a verdade e vir à comunidade, falar com os pais das vítimas. Sou prestador de serviço do Banco Central, minha ficha é mais do que limpa, mas tenho medo de que se amanhã me matarem por engano, acabe com um revólver do meu lado, ou droga, e seja chamado de bandido”, desabafou.

Para o comerciante Bruno Arêas, todos estão perdendo com a política de enfrentamento das UPPs da região. “Polícia está morrendo, morador está morrendo, traficante está morrendo, comércio está perdendo, pessoas estão perdendo emprego, ninguém está ganhando com isso, nem o Poder Público, nem o traficante, nem morador, nem comércio. Está na hora de recuar e rever isso”.

Além da violência e dos abusos cotidianos, partes das comunidades convivem também com falta de energia elétrica e de telefone. Relatos citaram ruas que estão há um ano sem telefone e luz, porque tiros destruíram cabeamento e transformadores.

As principais demandas presentes nas falas dos moradores, no entanto, não diziam respeito à segurança, mas a investimentos em educação e lazer para os mais de 22 mil adolescentes e jovens que moram nas 15 comunidades do Complexo do Alemão. Eles criticaram, em vários momentos, os projetos sociais inacabados na comunidade e a falta de continuidade de iniciativas das autoridades.

Moradores criticaram também os gastos em reformas de cabines blindadas e infraestruturas das UPPs que chegam a cerca de R$ 30 milhões, como foi anunciado pelo governador Luiz Fernando Pezão. “Nossas casas não são blindadas. Não existe bala perdida dentro da favela. Todo tiro acaba em uma casa, e pode ter uma vítima”, disse um dos moradores.

Presidentes de associações também pediram apoio dos políticos presentes e da Defensoria Pública para reivindicar da polícia a retirada das cabines blindadas e barricadas dos poucos locais de lazer das comunidades, que são quadras e praças públicas, e o fim do patrulhamento de rotina no horário de chegada do trabalho e saída da escola.

A reunião faz parte do projeto “Caravana de Direitos”, recém-lançado pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro, que vai mapear as necessidades da população do complexo de favelas. Os assuntos, segundo o defensor Fábio Amado, não ficarão restritos à questão da violência. “Há diversas demandas envolvendo falta ou má prestação de serviços de saúde, de educação, cultura e lazer, coleta de lixo ineficiente, contas de luz que não são enviadas. Traremos diversos defensores identificando essas demandas, orientando a população sobre seus direitos, monitorando o respeito a esses direitos e criando canais para a solução de litígios individuais também”, explicou. A Defensoria estuda criar um núcleo dentro do Alemão, devido ao grandenúmero de mortes e violações cometidas no Complexo neste ano.

A assessoria da Coordenadoria das UPPs negou por nota que haja toque de recolher. Sobre as demais perguntas com denúncias de abusos, a assessoria reafirmou que todos os canais de contato com a população estão abertos, e informou que hoje a Ouvidoria Paz com Voz está na região do "Campo da Torre", na comunidade Nova Brasília, à disposição dos moradores. “Também disponibilizamos o telefone (21) 2334-7599 da mesma ouvidoria. O anonimato é garantido” informou a nota.

As comissões de Direitos Humanos da Câmara dos Vereadores e da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro anunciaram no início da semana que farão audiências públicas para apurar os casos de violações contra moradores e as condições de trabalho dos policiais das UPPs.

O Complexo do Alemão foi ocupado pelo Exército em novembro de 2010. Na época, foram filmados criminosos armados fugindo do conjunto de favelas. O Exército permaneceu até 2012, quando a ocupação passou a ser feita pelas UPPs.

Na última semana, o menino Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, morreu baleado em um tiroteio envolvendo a polícia, e Elizabeth Moura morreu baleada dentro de casa. A filha também foi alvejada, mas sobreviveu. Tudo foi assistido pelo viúvo e filhos de Elizabeth – um deles de 6 anos. O viúvo, Carlos Roberto Moura, participou da reunião. Atualmente desempregado, ele agradeceu a ajuda de amigos e vizinhos para cuidar dos três filhos e pediu às autoridades que não atuem na comunidade somente nos momentos de tragédia. “Outras pessoas morreram, e agora minha esposa, quem será a próxima? Espero que essa acolhida não fique só nisso, que tenha uma continuação para que não haja outras vítimas”.