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Sociedade

Protestos em São Paulo

"Perigo comunista" leva famílias às ruas

por José Antonio Lima publicado 11/07/2013 12h39
Em São Paulo, cerca de 50 pessoas defenderam a volta dos militares ao poder: "cansei de esperar, militares já"
Carolina Latini
Protesto na avenida Paulista

Na avenida Paulista, em São Paulo, manifestantes pedem a volta dos militares ao poder

O comunismo está chegando e é um perigo para o Brasil. Pelo menos segundo os cerca de 50 manifestantes que ocuparam parte da avenida Paulista, em São Paulo, na noite de quarta-feira 10, para pedir uma intervenção militar capaz de conter o “perigo vermelho”.

Organizada pelo Facebook, a “Marcha da família com Deus, em defesa da vida, da liberdade, da pátria e da democracia, contra o comunismo” buscou inspiração em 1964. Em março daquele ano, uma série de manifestações públicas com o nome Marcha da Família com Deus pela Liberdade ocorreu antes da derrubada do então presidente da República, João Goulart. Diferentemente do que ocorreu há 49 anos, o movimento de quarta-feira não atraiu grandes massas. A histeria, entretanto, era a mesma.

O protesto era puxado por um carro de som adornado com faixas cujo alvo preferencial era o  Foro de São Paulo, idealização esquerdista do PT e de Fidel Castro, constituída em 1990 como resposta ao neoliberalismo que grassava na América Latina. Na trilha sonora do protesto, o hino nacional e o hino à bandeira. Do alto do carro, um homem liderava a manifestação em tom indignado.

Ao chegar em frente ao prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o locutor se exaltou. Lembrou que a Fiesp contribui para financiar campanhas eleitorais e deu seu recado: "Vocês também vão dançar com o comunismo aqui". Na rua, os manifestantes tentavam acompanhar o tom do líder e gritavam palavras de ordem na tentativa de fazer os colegas aderirem: “Fora Eike Batista”, “Fora Paulo Skaf”.

O coro que ganhou força, entretanto, foi o mote da manifestação, entoado pelas pessoas que seguravam uma grande bandeira do Brasil. “Cansei de esperar, militares já”, gritavam, aplaudidos por um homem no carro de som com o cartaz “socorro Forças Armadas”.

A democracia não parecia ser uma preocupação da manifestação de quarta-feira. Um pequeno grupo foi hostilizado pelo puxador do carro de som ao gritar “de-mo-cra-cia” em resposta à faixa "Fora Dilma! PT nunca mais! Queremos os militares novamente no poder". Depois, uma manifestante convenceu um colega a não dar entrevista para a reportagem de CartaCapital. “Você sabe muito bem por quê”, disse ao ser questionada.

Outros resolveram falar. Um homem de Brasília, com seus 50 anos, que caminhava atrás de duas garotas e um rapaz com coletes pretos, estampados com caveiras com a inscrição CCC (Comando de Caça aos Comunistas), preferiu não se identificar. “O comunismo é um perigo em qualquer lugar, foi no mundo todo e vai ser aqui também”, disse. “Basta ver o que o governo do Distrito Federal está fazendo com as famílias, está destruindo as famílias, e o primeiro passo do comunismo é destruir a família”. Como assim? “Você põe a criança na creche, a creche educa até os três anos, depois vai para a escola de tempo integral e aí a educação fica por conta do Estado, o Estado não tem que educar ninguém”.

Segundo este entrevistado, o governo federal tem “projetos semelhantes” ao do Distrito Federal, e o golpe militar só deve vir caso a ordem “esteja totalmente corrompida”. “Acho que infelizmente estamos bem perto disso, pois o Congresso já não tem moral, a presidente está negociando com adolescente e perde a discussão”.

No fim da marcha, Lucas de Carvalho, de 33 anos, caminhava calmamente enquanto conversava com outra pessoa. Carvalho é diretor da Frente Integralista Brasileira, movimento fundado no Brasil na década de 1930 por Plínio Salgado, um admirador do líder fascista Benito Mussolini. Apesar dos chamados para os militares voltarem ao poder, Carvalho nega que as pessoas na marcha tivessem essa intenção. “Os militares assegurariam uma transição, como ocorreu agora no Egito”, afirma. “Era isso que deveria ter acontecido em 1964, só que a transição demorou muito tempo”.

Como integralista, diz Carvalho, ele tem “contato com os militares”, e avalia que hoje não há risco de uma intervenção no País. “O Brasil não tem risco de ditadura, o maior risco, e que ainda é muito distante, é de que haja um movimento mais autoritário na linha marxista”, diz. Para Carvalho, o marxismo influencia todos os partidos brasileiros na atualidade e “nem o Democratas é de direita”. “Todos representam um único partido com facções diferentes e por isso a democracia atual é uma falsidade”, diz. “Estamos longe [do golpe comunista], mas há sinais e desconfianças de que seguimos nessa direção e são essas desconfianças que move a gente aqui”.