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Sociedade

Crônica

Perguntar não ofende

por Matheus Pichonelli publicado 30/10/2013 15h02, última modificação 30/10/2013 17h46
Qual policiamento queremos? Como reagir à agressão? Votar é inútil? Estamos condenados ao massacre? As perguntas levantadas pelo Brasil ao longo de 2013
Duncan Hull/Flickr

Nunca antes na história deste país foram levantados tantos questionamentos sobre qualquer sentença – inclusive esta. Em um período em que tudo muda rapidamente e nada é feito para durar, o brasileiro em 2013 parece ter condensado no liquidificador uma espécie de espírito de desconfiança e vigilância sobre praticamente todas as respostas para o que funciona, o que não funciona, o que só supostamente funciona e o que nunca funcionará.

Contesta-se quem contesta, quem não contesta, quem contesta quem contesta, quem contesta quem não contesta quem contesta. Pelas ruas e pelas redes, ficou praticamente impossível caminhar sem tropeçar em qualquer forma de desconfiança. O que isso significa? Aprendemos a pensar? A operar pela lógica? Estamos ouvindo ou estamos só falando? Estamos argumentando ou estamos impondo ideias?

Quantos lados tem uma história? Onde a tese? Onde a antítese? Onde a síntese? Duas verdades ocupam o mesmo espaço? É certo falar em ação e reação? É certo falar no que é certo? A lei da física funciona para as ruas? Ou só funciona para as pedras?

A violência tem quantos lados? É este policiamento que queremos? A polícia que diz matar sem querer será devidamente punida? E a que mata por querer? Ela protege ou amedronta? Organiza ou intimida? Ela pergunta antes de atirar? Foi treinada para isso? Será sempre assim? Ela reconhece no algoz a vítima? E a humanidade da vítima? E na suposta vítima? E no suposto culpado? E no rendido? E em quem não se nega a se render? E no Beagle?

Este policiamento está satisfeito em atuar como bedel de faculdade? E em babá de torcedor? Em vigia de patrimônio sem carne e osso?

Quem é o vândalo? Quem bate ou quem apanha?

A violência à violência é sempre legítima? Existe violência legítima? A ação é sempre um ato de coragem? Ou ela pode também ser covarde? Estamos generalizando a generalização? Estamos hierarquizando a agressão? A generalização é uma agressão? Estamos ignorando a maioria? Perdemos o controle sobre a minoria?

A mídia só mostra uma versão? De que mídia estamos falando? A mídia legitima o massacre? Instrumentaliza? A culpa é só dela? O ódio explica tudo? O ódio é monopólio da direita? Que força tem a direita? O que simboliza a agressão? A catraca? A farda? O logotipo? Símbolos têm carne e osso? Sentem dor? Quem está sendo atacado? A PM ou o PM? O repórter ou a sua empresa?

Quem a polícia agride? Por que tantos detidos sem respaldo na lei? Por que miram a bala no olho de quem protesta? Por que miram a bala no olho de quem trabalha? Por que miram a bala de verdade no favelado? Porque é favelado? Ou porque não tem câmera da tevê na periferia? Por que a pronta-solidariedade da presidenta a uns e o silêncio para outros? Ela se importa? Quem realmente se importa?

Esse silêncio precede a guerra? A explosão levará à paz? Estamos em estado de guerra? Em algum momento houve paz? Qual história repetimos? A qual história recorremos? A qual história viramos as costas? Que história nos inspira? Luther King ou Malcom X? Gandhi ou Robespierre? Idi Amin ou Mandela? Goulart ou Lacerda? 1988 ou 1964? A ditadura acabou? A saudade da ditadura tem fim?

Por que lutamos pelo direito ao voto? O que o voto representa? O voto muda o sistema? O voto consolida o sistema? O sistema é agressivo? O serviço público é agressivo? O corredor de ônibus é paliativo? O metrô é sucateado? Quem financia o metrô? Quem financia o cartel do metrô? Quem investiga quem financia o cartel do metrô? Quem investiga quem não investiga quem financia o cartel do metrô? Por que as linhas são enxutas? Por que os vagões estão lotados? Por que não há linhas durante a noite? Por que a cidade é mal iluminada? Por que a catraca?

A agressão simbólica a um sistema agressivo sensibiliza o sistema? Cria outro sistema? Muda o sistema por dentro? Abre ou barbariza as portas de interlocução?

Político é tudo igual? Os partidos são todos iguais? Por que tantos partidos? Em que se diferenciam? Por que se unem? Por que não se unem? A coalizão é um mal necessário? Ou um bem desnecessário? É um trator? Ou é um estanque? Marina Silva sabe o que fala? Quem entende o que a Marina Silva fala?

Quem comanda as velhas legendas? Quem manda nos feudos? Quem deixa que se mandem nos feudos? O Estado está em xeque? De qual Estado falamos? Do que espanca ou do que salva vidas? Do que come os rendimentos ou do que estimula a geração do emprego? Do que pereniza ou do que combate a miséria? O que usa o cassetete ou o que universaliza a vacina?

Como se faz uma vacina? Quem regula os testes? O medicamento corta na carne? De onde vem a carne? Do que se alimentam os Beagles? Todos os cães merecem o céu? E as girafas? Merecem ser imolados por nós? Somos dignos de que entrem em nossa morada? Estamos dispostos a viver menos em troca da interrupção de outras vidas? Podemos interromper a nossa? Estamos só falando de bichos? Falar de bichos é pouco?

Todos temos alma? Até quem censura biografias? Por que os biografados têm medo de biografias? Por que aceitam dão a cara para a Caras e não aos seus biógrafos? Importa a sua individualidade? Importa a quem? Estão com medo ou estão cansados? Estamos com medo ou estamos censurados? Por que tanta desconfiança de quem nos define? Desconfiamos do acerto ou do erro? Quantos são os Roberto Carlos? Quantos são os Otávios Cabrais? José Dirceu teve meios de se defender? Merece direito a resposta ou uma errata? Merece ser condenado? Merece ser absolvido? Merece ser eliminado? Teve um julgamento justo de seu biografado? E de seus juízes?

Os juízes votam com a faca no pescoço? Apoiam-se na lei ou no ego? Por que não são unânimes? A câmera de tevê influencia? Transforma a Corte em palanque? O que é embargo infringente? É o mesmo que absolvição? Prendemos muito ou prendemos pouco? Prendemos mal? Devemos prender as crianças? Evitar o crime na nascente até que ninguém esteja autorizado a nascer? De quem é o seu corpo? Quem regula a sua decisão? O padre ou a igreja? A igreja e o Estado estão devidamente separados? O novo papa vai enterrar os esqueletos da velha Igreja? A nova velha Igreja manterá a influência sobre seus fieis? E sobre os infiéis? E sobre os governos? Serão o governo? Serão moderados? Serão fundamentalistas? Por que os fundamentalistas tomaram o poder?

Quantos Felicianos estão por vir? Quantos estão nas ruas? Por que tratam a homossexualidade como doença? A liberdade como maldição? Qual a doença do fundamentalista? Como ele virou deputado? Como se tornou líder da Comissão de Direitos Humanos? Alguém se importa com esta comissão? A expressão direitos humanos para humanos direitos cria humanos de segunda categoria? Existem animais de segunda categoria? O que seria dos Beagles se todos gostassem de ratos?

Alguém se lembra das crianças mortas na Síria? Quem autorizou o uso de gás sarin? O uso de armas químicas justifica a intervenção militar? Quem outorgou aos EUA o direito de intervir? Por que nos espionam? Por que perseguem quem divulga o que se espiona? Somos subservientes a Washington? Ao capital? Privatizamos ou aderimos ao sistema de partilha? O petróleo será nosso? Será só nosso? Será de todos? Vai entupir as ruas de carros comprados a crédito fácil? Seu excedente vai mudar os rumos da educação? De qual educação? Da saúde? De qual saúde?

Os médicos estrangeiros são necessários? Se não eles, quem? Os médicos brasileiros se afastaram do povo? Elitizaram-se? Agem corporativamente? Trabalho cubano é trabalho escravo? É lícito protestar contra a suposta escravidão cuspindo no rosto do suposto escravo? Boicote é protesto? Vaia é vergonha? É preconceito? A nação da geleia geral se tornou uma nação xenófoba? Boicote ao boicote é governismo? Rincão ganha voto? Salvar vidas é populismo?

Ficamos politicamente populistas? Politicamente cínicos? Politicamente corretos? Politicamente incorretos? Rindo corrigem-se os costumes? Ou ridiculariza quem não se enquadra no costume ancestral? Qual é a graça da desgraça do sorriso do banguela? Amamentar virou piada? Piada com quem amamenta dá audiência? Lobão dá audiência? Alavanca vendagem? Quem ainda ouve Lobão? Quem ainda lê a crítica? O Som ao Redor mostrou que a casa grande mudou de casa? É o melhor filme do ano? O filme da década? O filme escancarou nossa miséria? Luiz Ruffato escancarou nossa tragédia? Nossa tragédia é cultural? Nosso futebol é arte? Neymar será o craque da Copa? Precisamos de Copa? Precisamos de Neymar? Precisamos de Diego Costa? Precisamos de Emerson Sheik? Ele beijou o amigo por coragem ou por brincadeira? O que isso diz sobre nós? A torcida tolera homossexuais? Tolera homofobia? Precisamos de exemplos? Precisamos de ídolos? Precisamos de herois? Precisamos de mártires?

Faltam campos para tantas dúvidas? Caberão em nossos estádios? Ou elas serão dizimadas pelas velhas certezas?

Haverá respostas melhores às perguntas?

Haverá perguntas melhores às respostas?

Aprenderemos a pensar melhor?

A desconfiar de tudo o que se publica?

A argumentar?

A debater?

Não sei. Mas a panela de pressão que as redes e as ruas destamparam parece ter servido como um tiro no imobilismo. Somente pedras passaram imunes, ou indiferentes, a qualquer uma dessas questões. Quem passou as noites à procura de respostas amanheceu insone e atolado de perguntas. É custoso, mas é melhor assim. Antes a luz do debate permanente do que a letargia da janta-sobremesa-louça-sofá-e-novela-silêncio-escuridão. Quanto a isso não existem duvidas. Ou existem?