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Pelourinho: a rota do turista e a rota do crack

por José Eduardo Rondon — publicado 01/06/2013 10h59, última modificação 01/06/2013 11h13
A degradação causada pelo uso e tráfico de drogas em um dos principais cartões de visita de Salvador
Fernando Dallacqua/Wikimedia
Pelourinho - Salvador - Bahia

O Pelourinho dos turistas, pedaço histórico de Salvador

“Você que ir pela rota do turista ou pela rota do crack?”, diz o taxista Igínio Reis em frente ao Aeroporto Internacional de Salvador quando pergunto sobre uma corrida ao Pelourinho numa noite chuvosa na capital baiana.

De lá, partimos em direção a um dos principais destinos de turistas que desembarcam diariamente naquela cidade. Tombado desde a década de 80 pela Unesco como patrimônio da humanidade, é uma área onde a desigualdade é separada por poucos metros.

De um lado igrejas que impressionam pela beleza, museus, casarões restaurados e lojas de souvenirs.  Mas no entorno dessas construções o que se vê é uma pobreza extrema que tem no consumo de crack seu principal agravante. A maior parte dos turistas que visita o Pelourinho é alertada por comerciantes, donos de hotel e até policiais para que não circule em determinadas ruas do bairro.

No início da madrugada a parte turística do Pelourinho está vazia por causa da chuva. No entanto, em ruas que não são vistas pelos visitantes mas fazem parte do bairro, há muita gente: a maior parte “sacizeiros” (como são chamados os usuários de crack ) e prostitutas que esperam por clientes em uma das praças.

Alguns dos “sacizeiros” fumam crack no meio da rua. E geralmente abordam quem passa pelo local pedindo cinco reais ou cometendo pequenos furtos.

“Se você continuar andando por aqui, vai ser assaltado”, diz Robson, 38, o “Macarrão”. O apelido surgiu por causa da magreza causada pelo consumo de cerca de dez pedras de crack diárias. “Peso uns cinquenta quilos, se tanto”, diz ele segurando o cachimbo utilizado para o consumo das pedras.

“Macarrão” conta que há cerca de 20 anos mora nas ruas do Pelourinho, onde experimentou crack pela primeira vez e desde então nunca mais deixou o vício.  Dorme no chão de um estacionamento em uma das ladeiras do bairro. Já roubou, mas diz não poder mais em razão do consumo da droga. “Já fumei demais e meu pulmão não agüentou, não consigo correr. Agora deixo isso para os mais novos.”

Atualmente vive de catar latinhas de cervejas deixadas pelos turistas.  O que ganha, ou compra comida ou as pedras de crack. A rotina de “Macarrão” em nada difere da de muitos dos moradores de rua do bairro baiano.

Alguns dos casarões antigos do Pelourinho, que não sofreram nenhum tipo de intervenção do poder público, correm risco de desabar e servem de abrigo para os “sacizeiros”. Ali, não chamam a atenção da polícia. Em um deles “Macarrão” e outros quatro homens fumam crack. Todos magros e com os dedos queimados pelo uso contínuo da droga.

Eles explicam que, dentro dos casarões, a polícia não incomoda. “O que eles não querem é que a gente fique na rua, porque os turistas assustam”, diz um dos homens.

Dentro do imóvel o cheiro é insuportável. A mistura do odor de fezes, urina e do crack queimado exalado dos cachimbos demora a sair das narinas.

Em menos de meia hora o grupo consome oito pedras de crack. “Macarrão”, que antes de fumar parecia irritado, agora ri e conversa animado com os outros “sacizeiros”.  A animação só é interrompida com a chegada de um menino. Ele aparenta menos de dez anos. Com um cachimbo na mão, o garoto diz aos outros homens que quer fumar crack também. Mas “Macarrão” resolve deixar o local. “Com menor perto é barril (gíria que designa algo perigoso, arriscado).

Depois disso, “Macarrão” some e resolvo deixar a viela em que estava para retornar no dia seguinte.

Na parte da manhã, encontro o mesmo cenário.  Os “sacizeiros” continuam vagando de um lado para o outro nas ruas que dão acesso às áreas mais procuradas pelos turistas. Reencontro Macarrão conversando com Mônica, uma das prostitutas que ganham a vida numa das praças centrais do bairro.

Ela diz que não sabe ler nem escrever, mas consegue falar três idiomas (espanhol, italiano e inglês) que aprendeu atendendo a turistas estrangeiros que visitam o local. “Hoje em dia é só a decadência que vem fazer programa, mas já teve muito gringo rico que passou por aqui e deixou tudo que tinha.”

Mônica, usuária de cocaína, conta que seus programas variam de 20 a 60 reais. O valor depende de fatores como estar ou não devendo para traficantes da área.

A degradação causada pelo crack e pelo tráfico de drogas no bairro do Pelourinho já afeta o comércio da área. É comum encontrar donos de lojas e restaurantes dizendo já ter reduzido à metade o número de funcionários. O principal motivo para isso é o número cada vez maior de turistas que deixam de visitar o local com medo de assaltos e incomodados com a realidade registrada nas vielas que circundam a área patrimônio da humanidade.

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