Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Pela beleza do Negro

Sociedade

Amazônia

Pela beleza do Negro

por Bruno Huberman — publicado 20/07/2010 18h16, última modificação 30/07/2010 15h20
O que você fez entre o anoitecer de sexta feira e as três da tarde de segunda-feira?

O que você fez entre o anoitecer de sexta feira e as três da tarde de segunda-feira?

Foi pra balada, almoçou com os seus avôs, jogou bola, foi até o seu sitio, assistiu ao Fantástico, trabalhou? Eu cruzei o rio Negro. Não ele inteiro, mas uma grande parte dele. Por volta das seis da tarde de sexta-feira 16 o Genesis III partiu, debaixo de chuva, do porto de São Raimundo em Manaus rumo a São Gabriel da Cachoeira.

O porto de São Raimundo por si só já é um caso especial. De lá partem os barcos que subirão o rio Negro, seja qual for o seu destino. Uma favela é a principal vista de quem parte. E dizer porto também é um elogio. Não existe uma estrutura, as embarcações apenas encostam e por meio de pedaços de madeira se constrói um caminho ligando quem está em terra à embarcação. Um bar flutuante funciona de apoio aos bêbados e vira-latas que habitam o local. Mas tirando isso, simpático o local.

Eu inicialmente iria viajar de Tanaka, outra companhia que faz esse percurso pelo Negro, contudo chegando lá descobri que o Tanaka IV, por ser uma embarcação de maior porte, chegaria apenas na terça-feira 21 à São Gabriel da Cachoeira (o meu objetivo nesta viagem), enquanto o Genesis faria o mesmo trajeto só que chegando na segunda-feira 20. O preço seria o mesmo, então bora de Genesis. Já havia viajado nele até Barcelos em janeiro. E alem de tudo o Tanaka estava absolutamente lotado e vim a descobrir apenas depois que o motivo é uma parceria entre as prefeituras de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira – os três únicos municípios existentes ao longo do rio – e a Tanaka.

Para um paulista que sou, tudo é muito particular na Amazônia. Desde o amontoado de redes nos dois andares do barco – cada um leva a sua própria rede, dá o nó, coloca seus pertences debaixo dela, deita e dorme – até a comida. Esta última principalmente. A alimentação é a da praxe de praticamente todas os barcos que cruzam qualquer rio na Amazônia e de qualquer PF da região: arroz, feijão com batata, macarrão (sem qualquer tipo de molho ou algo do gênero), carne e/ou frango, verdura (leia-se salada e tudo que envolve o gênero) e farinha. Aqui, os nortistas comem tudo com farinha de mandioca. Seja o açaí, que aqui é um prato salgado e eles acham um absurdo o povo do sul colocar açúcar e comer com banana - fazem cara feia só de pensar – ou a própria água, como tomam os índios aqui em São Gabriel e chama de chibé. Água com farinha, literalmente.

Nós que embarcamos nesses últimos dias para cruzar essa região tivemos um tremendo azar. O frio que teve aqui nos últimos dias, chegando a 15o C ouvi dizer chegando à cidade, foi forte como não sei via a muitos anos. Pior para quem estava no barco, que com o vento causado pelo seu deslocamento, na hora de dormir, fazia um frio bravo. Todas as poucas blusas que levei e o lençol não foram suficientes para o frio que estava prevendo. Ainda bem que minha rede não era daquelas finas de selva, senão...

Outra má sorte foi “um problema técnico” com o motor do barco. Ao anoitecer de sábado fomos obrigados a encostar a margem do rio Negro e esperar por socorro. Um pouco mais de uma hora depois o Princesa Laura, que seguia até Santa Isabel, encostou e nos rebocou até Barcelos. O problema havia sido no eixo do motor, ou algo assim. Quem estava no nosso barco e iria apenas até Santa Isabel, mudaria para o Princesa Laura e seguiria viagem. Os que estavam indo rumo a São Gabriel teriam que esperar pelo Tanaka e achar algum espaço nele para chegar até o seu destino. Contudo, nessa de esperar o Tanaka, os tripulantes do Genesis conseguiram dar um jeito, trocaram uma peça, colocaram uma massa e garantiram que o barco seguiria. O resultado foi que apenas dez pessoas continuaram no barco e assim partimos, na noite mais fria da viagem. Frio mesmo, “até pra paulista”, como gostava de brincar dona Adalgisa, índia de origem baré, moradora de São Gabriel, de sorriso fácil e que adorava tirar um sarro para cima de mim.

Dona Adalgisa nasceu na comunidade de São Pedro, rio Negro acima, e com doze anos se mudou para São Gabriel. Sua língua de origem não é o português, mas o baré e o engatu, a chamada “língua geral” que os povos indígenas da do alto rio Negro falam e que inclusive é ensinada na escolas públicas do município. E ainda arranha um espanhol.

O resto da viagem seguiu tranquilo. Na segunda-feira o sol abriu fazendo brilhar o espelho que o negro do rio causa. Cenário que lembra até ao Fritzcarraldo de Wener Herzog. Pela sua mata praticamente intocada e horas de paisagem deserta, apenas água, selva e céu, estar lá realmente é um privilégio.

O Genesis III seguiu seu rumo pelas mãos do seu Marcelino, um dos dois timoneiros do barco, que anda por aquelas águas a mais de trinta anos. De origem dessana, seu Marcelino também tem sorriso fácil, assim como todos índios que encontramos na viagem. Simpático, conhece cada pedra daquele rio. Quando perguntei quanto faltava para chegarmos, chutou: “Umas quatro horas”. Batata. Até um pouco antes, por apenas vinte minutos de diferença, chegamos ao porto de Camanaus em São Gabriel da Cachoeira. Primeira etapa da viagem cumprida. Daqui a pouco vem as outras...

registrado em: