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Ditadura

CNV: queima de arquivo não deve ser descartada

por Marsílea Gombata publicado 29/04/2014 16h26, última modificação 29/04/2014 16h34
O coordenador Pedro Dallari não descarta relação entre a morte do ex-agente do CIE Paulo Malhães e o depoimento no qual confessou ter torturado e ocultado cadáveres
Fernando Frazão/Agência Brasil
Enterro Malhães

Enterro do coronel reformado do Exército Paulo Malhães no cemitério de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense

No Rio de Janeiro

 

O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, pediu nesta terça-feira 29 que não seja eliminada a hipótese de queima de arquivo como motivação para a morte do coronel Paulo Malhães.

"O caso ainda está sob investigação. E a Comissão da Verdade tem muita expectativa sobre os resultados que serão apresentados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. Não posso prever qual vai ser o desdobramento. O que temos feito é salientar é que haja investigação efetiva e séria. E que não se afaste no processo de investigação a hipótese de que, eventualmente, ele tenha morrido por decorrência do depoimento que prestou à Comissão", disse ele, em referência às revelações de Malhães sobre torturas, assassinatos e técnicas de ocultação de cadáver durante a ditadura.

Questionado se o coronel dizia ter medo em relação ao teor das informações sobre tortura e morte pelas mãos do regime, Dallari negou e lembrou que Malhães se mostrava muito seguro ao depor. "Ele não demonstrava medo, só dizia que expor aquilo incomodava os filhos no colégio, porque os chateava. Era uma pessoa muito autossuficiente."

De acordo com o advogado, o ex-agente do CIE se negou a entrar no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas. "A comissão da Verdade tem seu prazo de funcionamento previsto para até 16 de dezembro deste ano, portanto é um órgão temporário, que sequer tem condições de garantir esse tipo de medida de proteção em caráter contínuo", afirmou. "A nossa experiência, no entanto, é que ninguém quer entrar no programa de proteção à testemunha, que implica em restrições ao indivíduo e à família deste."

Latrocínio. Nesta terça-feira 29, policiais da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense prendeu Rogério Pires, caseiro do sítio onde morreu Malhães, aos 76 anos. De acordo com a Polícia Civil, Rogério foi preso logo após prestar depoimento na especializada. Contra ele foi cumprido mandado de prisão temporária, expedido pela Justiça, pelo crime de latrocínio (roubo seguido de morte).

Em depoimento, o caseiro confessou ter participado do crime, depois que a polícia identificou várias contradições entre o primeiro depoimento prestado na última sexta-feira 25 e o depoimento desta terça-feira 29.

A morte do militar, ocorrida durante invasão ao imóvel rural, no entanto, pode ter sido por infarto, segundo documento emitido para o sepultamento.

Não foram divulgados pela polícia detalhes sobre as informações do depoimento que explicam como ocorreu a morte de Malhães. Na segunda-feira, Rogério e a viúva do militar, Cristina Batista Malhães, foram ouvidos na delegacia. Além deles, três filhos do coronel prestaram depoimento.

Em interrogatório prestado à Comissão Nacional da Verdade no dia 25 do mês passado, Malhães, que atuava sob o codinome de Pablo, confessou crimes cometidos na chamada Casa da Morte de Petrópolis. No dia em que depôs, Malhães disse que não revelaria nomes de companheiros porque aquilo poderia implicar em "uma série de outra sanções". Ao ser questionado se essas sanções seriam vingança, ele responde afirmativamente. "Não em mim, nos meus filhos".

No testemunho à CNV, Malhães deu sua versão sobre a operação do Exército para desaparecer com os restos mortais do deputado federal Rubens Paiva. Informou também que agentes do CIE mutilavam corpos de vítimas da repressão assassinadas em Petrópolis, arrancando suas arcadas dentárias e as pontas dos dedos para impedir a identificação.