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Socrates

Paixão platônica pelo poder

por Socrates — publicado 20/11/2011 08h20, última modificação 06/06/2015 18h15
E se a bela imagem do Redentor fosse administrada por quem está no comando do nosso futebol?

Há pouco tempo, resolvi visitar novamente o Cristo Redentor. Depois que se tornou uma das modernas maravilhas da humanidade, havia mais um motivo para que eu, caso tivesse oportunidade, não deixasse de dar um pulo até lá. E mais uma vez não me arrependi, apesar das dificuldades de acesso e da falta de infraestrutura, pois lá de cima dá para ver boa parte do Rio de Janeiro. E que beleza! Não suportei só olhar aquela maravilha e saquei da minha filmadora, para que aquela visão se eternizasse. Entretanto, em poucos minutos, fui abordado (termo muito feio, mas perfeitamente adequado à forma com que fui questionado) por alguém da diocese, logo seguido pelo bispo, padre ou o cargo que possua quem por ali se encontrava.

Naquele instante, começava uma espécie de bênção coletiva (havia, como de praxe, muita gente por lá). Arguiram-me sobre o que chamavam de direitos de imagem do Cristo. Isto é, se eu havia pago os direitos do Cristo. Direito de imagem de uma imagem? Que absurdo, pensei. Nunca imaginei que existisse algo semelhante, mas não discuti muito. Afinal, neste- país- de absurdos, todo absurdo é passível de acontecer.

Enquanto descia às gargalhadas a escada para me afastar de tudo aquilo, passei a imaginar: e se a bela imagem do Redentor fosse administrada por quem está no comando do nosso futebol? Poderia ser pior. Como? Bem, a primeira coisa que eles fariam, imagino, seria hipotecar a imagem. Uma forma rápida e segura de captar recursos para realizar vários eventos nos mais variados endereços, como boates, inferninhos ou restaurantes de grife, ou para comprar imóveis que abrigariam as suas crendices. O entorno (o morro e adjacências) seria anexado à sede e, provavelmente, loteado por muitos milhões cada lote, não necessariamente nesta ordem. Tentariam construir um estádio, desde que o BNDES bancasse, é claro.

 

O olhar estaria no Vaticano do futebol que é a sede da Fifa; um sonho e uma paixão platônica de poder. Inventariam uma competição com a participação de localidades que também possuam uma imagem semelhante, cobrando bem de todos os pretendentes. E assim por diante. Se aproximariam também dos poderes constituídos para eventuais benesses extras. Mas sem utilizar a fé como matéria-prima, porque aí seria demais. Basta o amor pelo esporte para hipnotizar desavisados. Eles não são de brincadeira, não. Costuram, caseiam para depois vender o que quer que seja em qualquer feira popular. Que me desculpem as feiras livres em tê-las citado juntamente a esses personagens que, como diria Frejat: “Por você, eu ficaria rico em um dia”. Nada mais parecido com eles.

Aliás, como estavam com a face assustada e até cordatos nos questionamentos sofridos em Brasília alguns dias atrás. Quando querem fazem tipo, como se fossem vítimas dos acontecimentos e não causadores da maioria deles. A queda do ministro anterior, por exemplo, muito se deve à proximidade com esse poder paralelo que há muito necessita de uma polícia não pacificadora e sim julgadora de seus atos, muitos dos quais de absoluto conhecimento público. Tão próximos eram que mais pareciam parceiros eventuais. Em quase todas as manifestações públicas eles se sentavam lado a lado, cochichavam o tempo todo e até sorriam concomitantemente.

Isso não prova nada, mas mostra bem como se processam as relações entre os vários poderes do País, que são muito mais que três apenas. Poder eclesiástico, poder esportivo, poder de comunicação e muitos outros mais. Muitas vezes são mais poderosos que os oficiais, nos quais temos um pouco de participação em suas constituições. De qualquer forma, aquele ministro já era. Agora, temos um novo que acabou recebendo uma herança meio que maldita. Talvez por isso ainda não tenha mexido em muita coisa.

No entanto, uma faxina, para utilizar um termo corrente, nos quadros do ministério, se impõe. É o mínimo que esperamos que aconteça. E ele deve estar se descabelando para entender que tipo de rei será. Se o comum, o mais frequente ou um estreante no Planalto. Algo parecido com o relator (por acaso, o próprio ministro) da CPI instalada uma década atrás para discutir a gestão do nosso futebol, que deixou como legado um livro denunciando muitas de suas mazelas e que ele também assina. Acho um pouco difícil esta segunda opção, porém não nos custa acreditar que é possível. Assim como acreditamos e reconhecemos que, felizmente, o Rio de Janeiro continua lindo. Pelo menos isso é real e, ao menos em parte, nosso..

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