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Entrevista - Mikko Myrskylä

"Pais mais velhos são mais felizes"

por Deutsche Welle publicado 12/07/2015 02h57
Cada vez mais casais esperam até os 35 anos de idade para ter filhos. Segundo especialista, quanto mais velhos os genitores, mais duradouro o efeito de uma criança sobre a felicidade
Divulgação
Mikko Myrskylä

Mikko Myrskylä: "Pais mais velhos tendem a ter salários mais altos e carreiras e relacionamentos mais estáveis"

Por Tobias Oelmaier

Em busca de uma carreira e de um relacionamento estáveis, cada vez mais pessoas esperam até os 34 ou 35 anos de idade para ter filhos. Entre aqueles que se tornam pais mais velhos, o nível de felicidade aumenta muito mais quando uma criança nasce de pais jovens, diz em entrevista à DW Mikko Myrskylä, diretor do Instituto Max Planck para Pesquisa Demográfica em Rostock, na Alemanha.

O cientista e sua equipe consultaram 7 mil pessoas e concluíram que, quanto mais preparados para ter filhos, mais realizados os pais ficam com a chegada de uma criança. O estudo ainda indica que, entre pais mais velhos, o efeito dos filhos sobre a felicidade é duradouro.

"Mesmo depois de dez anos do nascimento de uma criança, os níveis de felicidade continuam mais altos que antes dela", diz Myrskylä, que também é chefe do Laboratório de Saúde Populacional e do Laboratório de Fertilidade e Bem-Estar do Max Planck.

Além disso, afirma o especialista, o efeito do primeiro filho sobre a felicidade é maior que o do segundo filho, e, no caso do terceiro, não foi detectada nenhuma influência, afirma.

DW: Como vocês medem a felicidade?

Mikko Myrskylä: Usamos um método padrão de medição de felicidade. Basicamente, as pessoas que participam da pesquisa são indagadas anualmente sobre o quão felizes estão em relação à própria vida. Elas respondem usando uma escala de 0 (muito infeliz) a 10 (muito feliz). E estudos anteriores mostram que essa é uma medição válida para a felicidade.

DW: Vocês consultaram 7 mil pessoas, analisaram os dados e descobriram que pais acima dos 34 anos de idade são mais felizes que os mais jovens. Por quê?

MM: Descobrimos que, entre aqueles que têm filhos quando mais velhos, o nível de felicidade aumenta com o nascimento de uma criança muito mais que no caso de pais jovens. Acreditamos que isso esteja relacionado com o quão preparado o indivíduo está para ter filhos.

Há muitas pesquisas qualitativas que mostram que estar preparado é um fator determinante para quanto se desfruta da paternidade ou maternidade. Pais mais velhos tendem a ter mais formação, salários mais altos e carreiras e relacionamentos mais estáveis. Isso tudo ajuda a aliviar a carga da paternidade ou maternidade e talvez permita que se aproveite mais que quando jovem.

DW: Então, pais muito jovens são infelizes?

MM: O que se verifica é que especialmente pais jovens do sexo masculino são muito infelizes. Após o nascimento do primeiro filho, seus níveis de felicidade caem muito rapidamente. Entre as mães jovens, o efeito não é tão forte, mas ainda é negativo. Então, talvez caiba aconselhar jovens a esperar um pouco antes de terem filhos.

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DW:  Então, o nível de felicidade poderia aumentar ao ter mais filhos?

DW:  A felicidade é sustentável? Por quanto tempo ela dura depois do nascimento de um filho?

MM: Esta é uma boa pergunta. Em média, vemos que o efeito da felicidade dura relativamente pouco. Quando as pessoas têm filhos, o aumento da felicidade pode durar alguns anos. E esse é um resultado geral na pesquisa sobre felicidade. Na realidade, tanto para acontecimentos positivos quanto negativos, o efeito sobre a felicidade dura relativamente pouco.

Mas também achamos uma importante exceção. Entre pais mais velhos, que têm filhos aos 34, 35 ou mais, o efeito dos filhos sobre a felicidade é duradouro. Então, mesmo depois de dez anos do nascimento de uma criança, os níveis de felicidade continuam mais altos que antes dela.

MM: O que descobrimos é que o primeiro filho aumenta a felicidade em grande quantidade. O segundo ainda aumenta a felicidade, mas não tanto. E, para o terceiro filho, não detectamos nenhum sinal. Então, o terceiro filho parece não aumentar em nada a felicidade.

O que achamos ser importante nesta pesquisa é que a relação filhos-felicidade não é algo que nos ajudaria a obter uma receita para a felicidade em geral, mas nos ajuda a entender por que as pessoas têm filhos em geral.

Crianças dão muito trabalho, custam tempo e dinheiro e não necessariamente cuidam dos mais velhos na sociedade moderna. Então, por que as pessoas têm filhos? Basicamente, eles continuam a fazer as pessoas felizes. Através desta pesquisa, acreditamos entender melhor por que as pessoas adiam a paternidade e a maternidade para quando são mais velhos – e primeiro investem na formação – e por que também tendem a ter dois filhos e não mais nem menos.

DW:  Pais são mais felizes que pessoas ou casais sem filhos?

MM: Esta é uma pergunta que ainda não conseguimos responder e que não tentamos responder neste estudo. Apenas comparamos os níveis de felicidade ao longo do tempo entre pessoas que em algum momento têm filhos e, para essas pessoas, a felicidade aumenta nos anos após o primeiro nascimento.

Mas como comparar aqueles que nunca têm filhos com aqueles que têm, de maneira a obter resultados cientificamente defensáveis, continua sendo uma questão que ainda não foi completamente esclarecida.

Deutsche Welle

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