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Outubro sangrento

por Emiliano José — publicado 27/11/2008 17h28, última modificação 01/09/2010 17h31
Produzir o visceral exige que se esqueça o instante em que recebeu o relógio dele. O relógio e todas as coisas. Bolsa, escova de dentes, camisas, dinheiro. Mas o relógio antes de tudo. O que marcava o relógio, para sempre fixado nas três horas, que tempo para sempre ele parara, cessara de reproduzir, não mais referira, porque não mais havia o tempo?

Produzir o visceral exige que se esqueça o instante em que recebeu o relógio dele. O relógio e todas as coisas. Bolsa, escova de dentes, camisas, dinheiro. Mas o relógio antes de tudo. O que marcava o relógio, para sempre fixado nas três horas, que tempo para sempre ele parara, cessara de reproduzir, não mais referira, porque não mais havia o tempo?

Fico pensando nesse relógio e nesse tempo. Que tempo para sempre ele parara?

No dia 22 de outubro de 1973 eu estava preso na Penitenciária Lemos Brito, no bairro da Mata Escura, em Salvador. Tempo, o relógio marca o tempo.

Será que chovia naquele final de manhã? Não creio.

O verão já devia estar a caminho com sua face brilhante.

Salvador é terra de verão, que sempre chega cedo.

Não desconfiava da iminência da morte.

Estranho. Sempre que me lembro da Lemos Brito penso em chuva e vento. Pareciam mais fortes lá. O vento e a chuva. Pareciam constantes na Mata Escura. Sibilavam por entre as frestas das celas.

Gildo Macedo Lacerda, dirigente da organização revolucionária Ação Popular foi preso nesse dia às onze horas e quarenta minutos no momento em que saía de casa, à Rua Luiz Tarquínio, 50, no bairro da Boa Viagem, em Salvador.

Mariluce Moura, jornalista, também militante da AP, sua mulher, foi presa uma hora depois em frente ao Elevador Lacerda, na Cidade Baixa, em um ponto de ônibus na Praça Cairu, ali nas cercanias do Mercado Modelo e da então Superintendência da Polícia Federal.

Três homens a agarram, violentamente, e levam-na para a sede da Polícia Federal, ali pertinho. Ela estava grávida de poucas semanas. De Tessa. Que nunca verá o pai. É, Tessa não conhecerá o pai. Gildo será assassinado pela ditadura.

Vamos falar de Gildo, dessa odisséia. Pela importância de Gildo. E para que não nos cansemos de dizer que os assassinos torturadores têm de ser punidos.

Dura, uma rocha, queria ser uma rocha, ah, se não lhe doesse a nuca, gelada, queria ser fria, morta, anestesiada, insensível, ah, se não lhe ardesse. Se não lhe batesse com furor o coração, com tanto furor que temia que não lhe vissem apenas a frieza e o ódio que eram para ser vistos, tomou o relógio, olhou-o amorosamente, guardou-o na bolsa, recolheu o amor e levantou o rosto para fixar o homem que lhe devolvia os pertences.

Entre os vários presos naquele dia, Oldack Miranda.

À noite, ainda 22 de outubro de 1973, Mariluce e Gildo foram separados, cada qual ficou em um ambiente diferente. Mariluce ainda se recorda ter podido lançar um olhar longo, amoroso e angustiado para Gildo. O último olhar. Amor e desalento num cenário de terror.

Um olhar de quem nada podia.

Nunca mais o veria. Nunca mais.

No dia 23, Mariluce foi transferida para o Quartel do Forte de São Pedro, no Centro de Salvador. Gildo e Oldack foram levados para o Quartel do Barbalho, no bairro do Barbalho, local tristemente famoso como centro de torturas. Nesse mesmo dia, Mariluce foi conduzida a um local ignorado, vendada e torturada.
Gildo foi violentamente torturado no Barbalho e dois dias depois transferido para o DOI-CODI de Recife. O coronel Luiz Arthur de Carvalho expediu um ofício entregando Gildo aos cuidados do Exército Brasileiro. No Recife, a violência aumentou. Gildo foi massacrado, até a morte, assassinado pelos verdugos.

Gildo era dirigente nacional de Ação Popular. E por isso, os torturadores tentaram, de todas as formas, as mais cruéis que se possa imaginar, arrancar dele preciosas informações para prender mais militantes da organização revolucionária. Gildo não revelou nada. Morreu sem nada dizer, seis dias depois de sua prisão, dia 28 de outubro de 1973.

Também não sei se chovia naquele 28 de outubro. Eu estava na Penitenciária Lemos Brito. Sabia das prisões dos companheiros e das companheiras. Havia conhecido tanto Mariluce quanto Gildo. Oldack, ainda não.

Imaginara, talvez ingenuamente, que alguns dias depois Gildo chegaria à Lemos Brito, e que nós cantaríamos nosso hino: “Nos quartéis cruéis da ditadura, não se rompe nosso elo solidário, sempre existe aceso em nosso peito a criação do partido proletário...”. Não, não cantamos. Gildo se foi, para sempre.

Oldack Miranda, ultimo a ver Gildo vivo em Salvador, será, também, transferido para Recife e lá torturado barbaramente. Eles não se conformavam com o fato dele ter escapado do Vale do Pindaré-Mirim, no Maranhão, onde estivera junto com o líder camponês Manoel da Conceição, ter cumprido 6 meses de prisão na Penitenciária de Linhares, em Minas Gerais, e depois ter voltado à vida legal, sem ter revelado nada à repressão. Vingaram-se, sabendo que não havia muita coisa mais a retirar dele, passado tanto tempo. Crueldade pura, violência em estado bruto.

Acordava de madrugada – havia sempre o medo de perdê-lo para alguma maldita prisão – e punha-se a olhar embevecida o corpo nu do seu homem. Às vezes ele acordava, respondendo a esse olhar e puxava-a para si em abraços amorosos.

- O que há, pretinha? Venha aqui,durma.

Mariluce, no dia 25 de outubro daquele ano de 1973 – que me desculpem os leitores se insisto nas datas, com ano e tudo – recebeu a notícia de que Gildo fora levado para uma “loooonga viagem”. Dito assim, com deboche, para a morte.

No dia 1º de novembro daquele mesmo ano, Mariluce recebe a visita de um oficial que se dizia capelão. Nós, presos políticos, tínhamos horror a capelães. Eram figuras odiosas. Pelo que tinham de farisaicas, aquelas vozes mansas, melífluas, de quem anuncia a morte com suavidade. Uma vez, na Lemos Brito, eu fui encarregado pelo coletivo dos presos de dizer ao capelão que nós não queríamos mais a visita dele. E o fiz. E não o recebemos mais. Chamava-se Generoso, o capelão. Capitão Generoso.

Mariluce parecia adivinhar o que o oficial-capelão vinha lhe dizer. “Seu marido está morto desde o dia 28 de outubro”.

Parecia o fim de tudo.

O tempo parou.

O mundo desabou.

Gildo teria sido morto em tiroteio em Recife. Essa versão foi dada pelo Jornal Nacional na noite de 31 de outubro, numa matéria longa, naturalmente editada por inspiração dos órgãos repressivos. A Rede Globo servia como um destacamento avançado da ditadura.Os demais veículos de comunicação seguiam na mesma esteira.

Nunca Mariluce ou os pais tiveram respeitado o sagrado direito de enterrar o corpo de Gildo. Até hoje. É um dos desaparecidos da ditadura. Foi “desaparecido” pela ditadura.

Quem era esse rapaz, morto aos 24 anos de idade, pela ditadura terrorista?

Nasceu em Ituiutaba, Minas Gerais, em julho de 1949. Aos 14 anos, mudou-se para Uberaba, acompanhando sua família. Estuda no Colégio Triângulo, onde preside o Grêmio Estudantil Machado de Assis e participa do Núcleo Artístico de Teatro Amador. Torna-se militante de Ação Popular – mais tarde Ação Popular Marxista-Leninista.

Com apenas 17 anos, muda-se para Belo Horizonte, onde faz o 3º ano científico. Em 1968, ingressa na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Logo torna-se uma referência no movimento estudantil. E em 1968, enfrenta a primeira prisão. No já famoso Congresso da Une, em Ibiúna, São Paulo.

Queria, meu amor, poder falar de prisão, torturas e assassinatos e só posso falar como ecoaram em mim. Devo lhe falar do meu medo de que nossas cabeças reajam com naturalidade a essas coisas, por tê-las visto em excesso. Queria que você entendesse como tremo diante da possibilidade de estarmos já anestesiados diante de tanta violência, porque concluímos, meio distraídos, que o mundo em que estamos vivendo é assim mesmo. Algo se harmonizar em nós, sei que não é se anestesiar para a violência.

Além de queda, coice. É preso e depois expulso da Universidade, com base no decreto-lei 477. É deslocado para São Paulo. Deslocado? Não sei se já houve estudos em torno dos termos usados por nós à época. Deslocado era um termo utilizado para referir-se à decisão de uma organização revolucionária de mudar um quadro político de um lugar para outro. Gildo foi deslocado para o ABC paulista. Em abril de 1969, um mini-congresso foi realizado em Jacarepaguá, bairro do Rio de Janeiro, e Gildo é eleito vice-presidente da UNE para a gestão 1969/1970.

Em maio de 1972, é deslocado para Salvador. Torna-se Cássio Oliveira Alves, nome sob o qual vivia e trabalhava. Conhece Mariluce no dia 11 de junho de 1972, e se apaixonam. Casam-se no dia 28 de outubro de 1972, em cerimônia religiosa dirigida pelo padre Tiago Sonneville, na casa de Mariluce, no bairro do Lobato, Subúrbio de Salvador. Passam a residir à Rua Luiz Tarquínio, 50, numa típica vila operária, no bairro da Boa Viagem.

Em junho de 1973, Mariluce é alertada por Aldenice Nascimento dos Santos, do Jornal da Bahia, de que algumas pessoas a estavam investigando, querendo saber da vida dela. Bráulio Ribeiro da Silva, um dos diretores do Jornal da Bahia, onde ela trabalhava, resolveu recorrer ao superintendente da Polícia Federal, coronel Luiz Arthur de Carvalho, para saber se havia alguma coisa contra Mariluce. - Não – foi a resposta do coronel.

Quando tenho insônia, meu amor, e é muito comum que eu a tenha, às vezes me surpreendo diante do meu próprio horror, provocado pela conclusão primária de que foi o fato de ousar pensar diferente e a tentativa de agir segundo esse pensar, que determinou o assassinato frio de tanta gente.

O coronel Luiz Arthur que, aliás, foi quem me mandou para a tortura quando fui preso em 1970, pediu que o avisassem na hipótese de que aquilo se repetisse. Mandaria prender os responsáveis pela suposta investigação. Tudo parte do teatro.

Logo depois, outro diretor do Jornal da Bahia, Gustavo Tapioca, advertiu Mariluce de que ela de fato estava sendo investigada em decorrência de seu casamento com Gildo que, àquele momento, trabalhava na empresa Hidroservice como chefe de pesquisas de mercado. O resto, sabemos nós. Prisão e morte. Assassinato. Sabemos hoje.

Mariluce e Gildo não sabiam que desde fevereiro de 1973, um militante de Ação Popular estava trabalhando ativamente para a repressão. Era Gilberto Prata Soares, que decidira abandonar o trabalho revolucionário e a AP em 1971. A repressão o localizou novamente em Goiânia trabalhando na Eternit.

Fizeram-lhe a proposta de salvar a irmã, Maria Madalena Prata Soares, casada com José Carlos Novais Mata Machado, também dirigente da AP, desde que ele colaborasse para entregar os principais dirigentes da organização. Ele aceitou.

Fez contato com a AP, disse querer voltar à atividade política revolucionária. E tornou-se um dos mais eficientes cachorros da repressão, como ele próprio irá mais tarde, no natal de 1983, confessar à própria irmã, não sem antes tomar um porre para ganhar coragem.

A Ação Popular Socialista – aquela parte da AP que não aderira ao PC do B – teve sua direção praticamente dizimada pela atuação de Gilberto Prata. A ele se devem as mortes e desaparecimentos de Paulo Stuart Wright, Eduardo Collier Filho, Humberto Câmara Neto, Fernando Santa Cruz, Honestino Guimarães, José Carlos Novais da Mata Machado e Gildo Macedo Lacerda. Todos assassinados no outubro sangrento de 1973.
Dia 30 de outubro de 2008. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, exatamente 35 anos depois, concede anistia política a Gildo Macedo Lacerda. Em nome do Estado brasileiro o presidente da Comissão da Anistia, Paulo Abrahão, pede desculpas à família, por todo o sofrimento irreparável causado.

Como não continuar a luta pela punição dos torturadores e assassinos? Essa é a pergunta que não quer calar. Que não pode calar.

Quero meu medo e meu horror em estado bruto, quero puramente senti-los, quero conservar toda minha impotência para compreender essas mortes, quero gelar, tremer, suar e chorar ao lembrar esses mortos, porque só assim posso crer que não mataram também e inteiramente a minha sensibilidade.

(As citações que intercalam o texto são do livro A Revolta das Vísceras, de Mariluce Moura, editado pela Editora Codecri, de 1982, que tenta, pela ficção, capturar o dramático momento da morte de Gildo, o terror que a circundou e revelar o profundo amor que uniu os dois).