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Sociedade

Outro olhar sobre as mulheres

por Kelly Cristina Spinelli — publicado 17/07/2013 13h52
Maíra Kubík debate o preconceito de gênero nas coberturas da grande imprensa e traz seu ponto de vista para o novo blog de CartaCapital
Maíra Kubík

Maíra Kubík, nova blogueira de CartaCapital

Na madrugada do dia 8 de março de 2006, duas mil mulheres da Via Campesina, organização internacional de camponeses representada no Brasil, entre outros, pelo Movimento dos Sem Terra, se deslocaram até o município Barra do Ribeiro (RS) e tomaram conta de uma área da empresa Aracruz Celulose, um centro de pesquisa e manejo de eucalipto. Em cerca de uma hora, as mulheres destruíram um milhão de mudas de eucalipto, e muitas em seguida participaram de marchas e protestos do dia da mulher. Queriam chamar atenção para o “deserto verde” da monocultura que acaba com a biodiversidade, questionar o modelo agrícola disseminado no país. Então uma jovem integrante do setor de comunicação do MST, Maíra Kubík Mano acompanhou tudo de perto.

Depois viu, nas horas e dias seguintes, uma explosão de reportagens a respeito, que não só desqualificavam os protestos como também suas integrantes. “De repente, saíram editoriais no Brasil e no mundo chamando as mulheres de loucas e histéricas”, diz. “Chegaram a compará-las a terroristas”. Militante de movimentos sociais desde que ainda estudava na PUC-SP, Maíra ficou perplexa.

A inquietação com a cobertura da imprensa em relação às mulheres deu origem a uma longa carreira acadêmica, que começou pela pesquisa de mestrado “Deserto verde, imprensa marrom”, publicada em 2010 — uma análise do duplo preconceito, de gênero e de classe, da mídia em relação a manifestações femininas como a da Via Campesina.

Em seguida, Maíra fez pós-graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba, deu aula no Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e se tornou doutoranda de Estudos de Gênero em Ciências Sociais da Unicamp. Aos 30 anos, ela se prepara para cursar o último ano de seu doutorado em Paris, na França.

A academia, todo o tempo, foi acompanhada pela experiência prática. Maíra foi editora da versão brasileira do jornal Le Monde Diplomatique, editora-assistente da revista História Viva e fez reportagens para Carta Maior, Caros Amigos, CartaCapital e a revista TPM, além de manter blogs há pelo menos seis anos. No UOL, era responsável pelo Viva Mulher, que depois virou seu site pessoal, o Território de Maíra – e que agora migra pra CartaCapital. Em suas publicações, sempre buscou escapar do patriarcalismo da grande imprensa.

“Hoje acredito que a internet comporta textos de linguagem acessível que igualmente tenham uma densidade de conteúdo. É o que vou fazer: falar de questões de gênero, movimentos feministas, LGBT, mas também com uma intenção acadêmica. Porque eu tenho lido muito, estou lendo autores que não chegam ao Brasil, e quero trazer esse debate para o blog”.

Visão de dentro

Nos últimos anos, a leitura dos protestos femininos já não é tão ruim como a que Maíra viu quando as mulheres da Via Campesina foram execradas por destruírem as mudas de eucalipto. “Tem se pensado mais nas razões dos protestos. A cobertura em relação à Marcha das Vadias e ao Fêmen, por exemplo, não tem sido tão pejorativa, já se pergunta o que está levando essas mulheres a mostrarem os seios”, diz.

“Em outras décadas, você via matérias em que nenhuma mulher era entrevistada num protesto feminino, perguntavam só para os homens ao redor o que eles achavam daquilo. Hoje a pauta mudou, apesar de as reportagens ainda estarem anos-luz do que seria o ideal”, diz Maíra, participante assídua de de marchas feministas e em outros protestos.

Maíra critica também a forma como se dá a cobertura jornalística no dia-a-dia. Para ela, o jornalismo brasileiro continua preso no tempo da Amélia que era mulher de verdade. “É super sexista, as mulheres são majoritariamente excluídas, quem fala como especialistas são homens. As mulheres são tratadas como objeto, especialmente nas fotos, por exemplo, das coberturas esportivas”.

Algo extremamente nocivo, especialmente se levarmos em consideração as recentes notícias que atingem as mulheres, do Estatuto do Nascituro à cultura do estupro. “O número de estupros é absurdo no Brasil, absolutamente chocante, e um fato cotidiano que é responsabilizar as mulheres por serem violadas. A mulher não provoca a sua própria violação, mas ainda a sociedade se volta para isso. E aí vem a resposta da Marcha das Vadias e do Fêmen”, diz Maíra. E de blogs como o dela também.