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Sociedade

Crônica

Os suspeitos

por Menalton Braff publicado 09/05/2014 12h26
Não importa saber se Fabiane era culpada ou não: crime nenhum pode ser punido fora dos meios legais. O povo enfurecido não pode ser juiz de nada

Não me agrada muito falar de atualidades porque é muito difícil deixar de ver a brutalidade latente do ser humano. Mas, às vezes, a indignação me engasga, e não há como ignorar os acontecimentos. Então, mergulhemos na porcaria.

Em um país civilizado, os suspeitos são postos em observação e, dependendo do caso, são passíveis de investigação. Mas isso em um país civilizado. Não é o nosso caso. Digo isso com meu coração patriótico roto de vergonha, mas esta semana assisti a um espetáculo que já julgava impossível de acontecer em nossa terra. E a selvageria não aconteceu na selva. Foi aqui mesmo, em São Paulo, no Guarujá de tantos turistas, ou seja, de um povo habituado a gentes dos mais variados lugares.

Não conheço os detalhes da história. Eles não aliviam o peso da barbárie, porque no essencial, o que se anunciou foi que sem a contribuição das redes sociais o caso não teria acontecido. Mas há de ser sempre assim, o Brasil? Alguém já disse que nosso país teve academia antes de literatura; os antigos carreteiros viram-se repentinamente dirigindo caminhões, ou seja, com a formação psicológica da carreta de bois passamos a encarar o asfalto e a velocidade. Porque somos um povo que copia, estamos sempre copiando os costumes de povos que já vinham amadurecendo há décadas suas novas posturas. Mas nós temos pressa, queremos estar atualizados.

E agora o caso das redes sociais. É terrível ter de confessar que ainda estamos na idade das “poucas e mal-traçadas linhas” e pretendemos fazer uso dos meios eletrônicos de alta circulação. E bom uso, entenda-se bem.

As manifestações de rua, do mês de junho de 2013, foram um exemplo da nossa infantilidade. A primeira experiência que a criança tem com o fogo pode ser trágica, mas ela não sabe disso. O que vimos nas ruas está bem longe de ser manifestação de espírito democrático. Primeiro, porque ninguém sabia exatamente o que queria. Depois, porque grupos foram-se formando com as mais diversas caras, inclusive com interesses conflitantes. Tive a curiosidade de acessar algumas páginas de Facebook, indicadas por amigos, páginas que incentivavam as manifestações de rua, e nelas encontrei com muita frequência a cruz suástica. Nada democrática, por sinal. Bem, e o que restou de toda aquela movimentação?

Em geral, nada fazemos, e quando resolvemos fazer algo, fazemos nas formas mais desastrosas. Fabiane Maria de Jesus foi confundida com suposta sequestradora de crianças do Rio de Janeiro, cujo retrato falado parou nas redes sociais. Retrato falado, entenda-se bem. Alguém, no Guarujá, compartilhou em seu face as imagens que identificou como sendo de uma moradora da cidade paulista. Pronto, o povo, entusiasmado com seu poder quando em grupo, não perguntou se a Fabiane era quem diziam, uma vez que estava nas páginas do Facebook. E se está escrito, é a verdade. Ingenuidade também leva à barbárie.

Não importa saber se a Fabiane era culpada ou não (e sabemos que era inocente). Crime nenhum pode ser punido fora dos meios legais. O povo enfurecido, cego em sua ânsia por sangue, não pode ser juiz de nada.

Se o crime individual é uma barbaridade, o coletivo multiplica-se como horror humano, pois é consensual. É ato grupal que ultrapassa qualquer senso de civilidade. Desde os circos romanos, com gladiadores e carnificina, continua a mesma nossa sede de sangue?

Como era doce o sonho dos iluministas em que a humanidade estaria sempre melhorando!

Vergonha.