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Os noventa anos da revolução de 1924

por Gilberto Maringoni — publicado 05/07/2014 08h32
Os dias 5 e 9 de julho sintetizam dois caminhos da história de São Paulo: se a primeira marca a violenta reação ao poder estabelecido, a segunda representa uma sublevação oligárquica oito anos depois
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Batalhão em foto da Revolução Constitucional de 1932

O nevoeiro se dissipara. O céu estava claro, mas o frio seguia intenso no início da tarde da terça-feira, 22 de julho de 1924, em São Paulo. Uma profusão de casas e fábricas estava no chão, algumas ainda envoltas em fumaça espessa. Pessoas corriam pelas ruas carregando o que podiam para fugir de cenas que algumas viveram na Europa alguns anos antes. Após 17 dias de “bombardeios terrificantes” desfechados por baterias de canhões situadas na colina do bairro da Penha, na zona leste, uma combinação de roncos agudos vindos do céu agitava ainda mais uma população aterrorizada.

Quem olhasse para cima contaria dez aviões em formação a 500 metros do chão.

De repente, dois deles, um pouco maiores que os demais, reduzem a altitude e soltam alguns objetos. O efeito seria devastador. Seis explosivos de 60 quilos abrem crateras pelo centro e arrasam casas e fábricas em bairros operários. Por sorte ninguém morreu. Uma testemunha contaria, mais de cinquenta anos depois, que “os aviadores tiveram ordem de jogar bombas no Brás; diziam que a italianada era a favor da revolução”.

O Jornal do Commercio do dia seguinte contaria que “de diversos pontos partiu cerrada fuzilaria contra os aviões”. Inútil. Os aparelhos ganham altura, fazem uma curva sobre a estação da Luz e voltam para a zona leste. Em quinze minutos pousariam numa pista improvisada próxima à estação de trens de Guaiaúna, na Penha, então uma região quase rural.

Aquele era o décimo sétimo dia de um levante que entraria para a história como a Revolução de 1924, ou a Revolução Esquecida. Esse último qualificativo talvez venha do fato de as elites cafeeiras terem ficado assustadas com a sublevação da média oficialidade, que chegou a receber apoio de setores populares.

A rebelião que envolvia São Paulo desde 5 de julho era resultado de uma intrincada teia de tensões históricas. Suas raízes estão no agravamento de problemas sociais, no autoritarismo dos governos da chamada República Velha e em descontentamentos nos meios castrenses que já haviam desembocado no movimento tenentista, dois anos antes.

Naquele duro inverno, em meio a uma crise econômica, eclodiu uma nova sublevação. Tropas do Exército e da Força Pública tomaram quartéis, estações de trem e edifícios públicos e expulsaram da cidade o governador Carlos de Campos. No comando, em sua maioria, camadas da média oficialidade. Quatro dias depois, era instalado um governo provisório, que se manteria até 27 de julho. O país vivia sob o estado de sítio do governo Arthur Bernardes (1922-1926).

Entre as reivindicações dos revoltosos estavam: “1º Voto secreto; 2º Justiça gratuita e reforma radical no sistema de nomeação e recrutamento dos magistrados (...) e 3º Reforma não nos programas, mas nos métodos de instrução pública”. No plano político, destaca-se ainda “a proibição de reeleição do Presidente da República (...) e dos governadores dos estados”.

Várias guarnições de cidades próximas aderiram ao movimento. Apesar da falta de um programa claro, setores do operariado organizado apoiaram os revolucionários e exortaram a população a auxiliá-los no que fosse possível.

As ruas da capital foram palco de intensos combates, com direito a fuzilaria, granadas e tiros de morteiros. Cerca de trezentas trincheiras e barricadas foram abertas em diversos bairros.

A partir do dia 11, o governador deposto, instalado nas colinas da Penha, seguindo determinações do presidente da República, decidiu lançar uma carga de canhões em direção ao centro. O objetivo era aterrorizar a população e forçá-la a se insurgir contra os rebelados.

De forma intermitente, os bairros operários da Mooca, Ipiranga, Belenzinho, Brás e Centro sofreram bombardeio por vários dias. Casas modestas e fábricas foram reduzidas a escombros e cadáveres multiplicavam-se pelas ruas. Sem conseguir dobrar a resistência, o governo federal decidiu bombardear a cidade com aviões de combate.

Três semanas depois de iniciada, a rebelião foi acuada. Dos 700 mil habitantes da cidade, cerca de 200 mil fugiram para o interior, acotovelando-se nos trens que saíam da estação da Luz. O saldo dos 23 dias de revolta foi 503 mortos e 4.846 feridos. O número de desabrigados passou de 20 mil. No final da noite do dia 28, cerca de 3,5 mil insurgentes retiraram-se da cidade com pesado armamento em três composições ferroviárias. O destino imediato era Bauru, no centro do estado.

Deixaram um manifesto, agradecendo o apoio da população: “No desejo de poupar São Paulo de uma destruição desoladora, grosseira e infame, vamos mudar a nossa frente de trabalho e a sede governamental. (...) Deus vos pague o conforto e o ânimo que nos transmitistes”.

As tensões não cessariam. No ano seguinte, parte dos revolucionários engrossaria a Coluna Prestes (1925-1927). Mais tarde, outros tantos protagonizariam – e venceriam - a Revolução de 30.

A revolução que não foi

A segunda data, 9 de julho, é marcada pelo estopim de uma revolução que não faz jus ao nome. Exaltada e cultuada como uma manifestação de defesa intransigente da democracia, ela faz parte da criação de certa mitologia gloriosa para São Paulo.

O evento, em realidade, representa a sublevação da oligarquia cafeeira contra a Revolução de 30, que a retirou do governo e se constituiu no marco definidor do Brasil moderno.

Aquele processo não pode ser visto apenas como uma tomada de poder por um punhado de descontentes. Suas causas envolvem as contrariedades nos meios militares e contradições do próprio desenvolvimento do país. A crise de 1929 acabara de chegar, colocando em xeque o liberalismo reinante.

A Revolução consolidou a expansão das relações capitalistas, que trouxe em seu bojo a integração ao mercado – via Estado – de largos contingentes da população. O mecanismo utilizado foi a formalização do trabalho. As novas relações sociais e a intervenção do Estado na economia – decisiva para a superação da crise e para o avanço da industrialização - implicaram uma reconfiguração e uma modernização institucional do País.

A consequência imediata foi a perda da hegemonia da economia cafeeira, centrada principalmente em São Paulo e parte de Minas Gerais. Percebendo as mudanças no horizonte, as classes dominantes locais foram à luta em 1932.

Explodiu então a rebelião armada das forças insepultas da República Velha, querendo recuperar seu domínio sobre o País. Tendo na linha de frente a Associação Comercial e a Federação das Indústrias (Fiesp), o levante tinha entre seus líderes sobrenomes importantes do Estado, como Simonsen, Mesquita, Silva Prado, Pacheco e Chaves, Alves de Lima e outros. O movimento contou com expressivo apoio popular, uma vez que os meios de comunicação (rádio, jornais e revistas) reverberaram as demandas das classes altas.

A campanha que precedeu a sublevação exacerbou uma espécie de nacionalismo paulista, incentivado por grupos separatistas. Entre esses, notabilizava-se o escritor Monteiro Lobato. A síntese da aversão local ao restante do país expressava-se na difundida frase, que classificava o estado como “a locomotiva que puxa 21 vagões vazios”, em referência às demais unidades da federação.

O objetivo do movimento, derrotado militarmente em 4 de outubro, era derrubar o governo provisório de Getulio Vargas e aprovar uma nova Constituição. Daí a criação do nome “revolução constitucionalista”, uma contradição em termos. Revolução é uma ação decidida a destruir uma ordem estabelecida. A expressão “constitucionalista” expressava uma tentativa recuperação do status quo, regido pela Carta de 1891. Se era “constitucionalista”, não poderia ser “revolução”.

Os sempre proclamados “ideais de 1932” são vagas referências à legalidade e à democracia. Mas não existia, por parte do topo da pirâmide social paulista, nenhuma formulação que fosse muito além da recuperação da hegemonia regional (leia-se, dos cafeicultores).

Oitenta e dois anos depois, o 9 de julho segue comemorado como a data magna do estado, uma espécie de 7 de setembro local. E os acontecimentos de 5 de julho de 1924 continuam como páginas obscuras de um passado distante.