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Os desafios para inovar

por Gabriel Bonis publicado 18/10/2011 00h05, última modificação 18/10/2011 09h51
Em seminário de CartaCapital, analistas apontam que as políticas de incentivo do governo ao setor são insuficientes e falta informação às empresas

As universidades e empresas precisam melhorar o seu relacionamento para que que o País tenha melhores condições de investir em inovações. Foi esse um dos motes debatidos na segunda-feira 17 no seminário Desafios da Inovação no Brasil e no ABC, organizado pelas revistas CartaCapital e Inova ABCD e pela  Universidade Federal do ABC, na própria instituição. O evento, que abriu a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, reuniu especialistas de diversas áreas para discutir o tema.

No entanto, o distanciamento entre as universidades, geradoras de conhecimento e mão de obra potencialmente inovadora, e as empresas acabou ganhando destaque nas duas mesas de debate. “Os setores produtivo, acadêmico e de pesquisa precisam dialogar e isso é um desafio”, diz Mário Reali,presidente do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, instituição que defende os interesses dos sete municípios da região paulista (Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul).

Segundo Reali, o consórcio tem uma agenda especial para facilitar essa importante conexão. “Há um pólo tecnológico que articula o setor produtivo com as universidades, mostrando como criar oportunidades, produtos e pesquisas de desenvolvimento de novas tecnologias”, aponta o também prefeito de Diadema, antes de criticar a majoritária participação do setor público no financiamento das inovações. “As universidades não podem ser as únicas nas pesquisas."

Mauro Borges Lemos, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (Abdi), avalia que um dos problemas para aliar a pesquisa científica e as empresas é a configuração das leis do Bem e de Incentivo à Inovação. “A impossibilidade de contabilizar o pesquisador em horário de trabalho parcial nas empresas é uma desafio do programa Brasil Maior, que exige uma mudança nessas leis. Porém, o Ministério da Fazenda ainda enfrenta dificuldades para controlar os registros.”

Contudo, esse não é o único fator de tensão entre os acadêmicos e o mercado. Ricardo Abramovay, coordenador de um projeto da Universidade de São Paulo sobre os impactos socioeconômicos das mudanças climáticas no Brasil, acredita que os pesquisadores têm preconceito contra o setor privado. "Para alguns, esse laço poderia levá-los a viciar uma pesquisa de acordo com os interesses da empresa."

Por outro lado, há quem acredite que as empresas não são diretamente dependentes de acadêmicos para inovar. De acordo com o presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), Carlos Eduardo Calmanovici, a inovação é feita a partir das companhias. “As empresas são o elo porque buscam a competitividade, levando a inovações. Além disso, firmas com esse perfil são mais competitivas e pagam melhor”, afirma.

De acordo com ele, a Anpei abriga hoje 250 empresas, responsáveis por 2/3 do esforço para a inovação no País, um número ainda baixo. “Os resultados da última Pesquisa de Inovação Tecnológica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que menos de 5% das empresas ditas inovadoras lançam de fato produtos.”

Um cenário que pode mudar com pressões sociais, estímulos e políticas públicas de longo prazo. “As inovações nas cadeias produtivas são necessárias para sustentar o crescimento. Essa é a melhor forma de garantir a geração de riqueza, que depende da pesquisa e inovação, garantindo crescimento econômico com desenvolvimento social.”

Outro desafio, segundo Mauro Borges Lemos, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (Abdi), para a inovação nas empresas brasileiras é a estagnação da produtividade do trabalho. “Há um descompasso relevante entre o aumento real do salário e o retorno em produtividade, que não tem sido garantido pelo desenvolvimento científico.”

O presidente da Abdi explica que esse quesito teve um grande salto nos últimos 200 anos, sustentado por processos tecnológicos e organizacionais inovadores. Com isso, nas últimas quatro décadas a expansão econômica mundial criou três blocos de países: os de nível um, com baixo grau de desenvolvimento científico, que não inovam ou se desenvolvem; os de nível dois (possuem uma relação desproporcional entre ciência e tecnologia) e os nível três, no qual existe correlação robusta entre ciência e tecnologia.

O Brasil se encaixa no segundo tópico, aponta Lemos, uma posição em que os países se esforçam mais na ciência e conseguem produzir pouca tecnologia. Ao contrário do nível três, no qual as nações possuem uma escala científica avançada e geram mais produção tecnológica. “O maior desafio do Brasil é passar para esse estágio, um salto quantitativo e qualitativo.”

Para isso, porém, é preciso uma política industrial consistente. Fato que não ocorre, segundo o ex-secretario-executivo da Agência de Desenvolvimento do ABC, Fausto Cestari.“Hoje a inovação é um processo de elite. Saber fazer um projeto para a Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia (Finep) é ouro. Quanto custa? Quem faz?”, indaga. “Além disso, para conseguir liberar recursos pressupõe-se o lucro real das empresas, um universo possível para apenas 7% das companhias em território nacional. Ou seja, as 250 empresas da Anpei detêm todo o financiamento.”

O Estado brasileiro, porém, passou a assumir riscos investindo em empresas que desenvolvem tecnologias importantes para o País, algo que a Finep ainda não pode fazer. Segundo Lemos, esse modelo precisa mudar para haver um melhor financiamento da inovação. Ele ainda aponta dados negativos na pesquisa trimestral Sondagem da Inovação Tecnológica, da Abdi. “No primeiro e segundo trimestres de 2010, houve expansão no esforço de investimento. No entanto, a partir do terceiro trimestre do último ano até esse momento registramos apenas quedas.”

Um fator capaz de explicar o resultado é a visão da maioria das empresas de médio e pequeno porte de que os investimentos no setor estão fora de suas realidades, diz Cestari. “A inovação é competitividade e sobrevida, essas empresas precisam se organizar com orçamento e estratégia”. Ele destaca, no entanto, que faltam gestores de inovação e informações às empresas.

Por isso, Luis PauloBresciani, secretário-executivo do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, destaca a necessidade de uma aliança entre os principais atores para a inovação, como universidades, empresas e o governo. “É preciso fortalecer o acesso aos recursos e criar novos fundos, além de desenvolver as capacidades das empresas para o aprendizado tecnológico e a cooperação para a informação.”

Contudo, Abramovay atenta para que as empresas também adotem a sustentabilidade. Segundo o professor da USP, citando um recente estudo sobre a utilização de recursos naturais realizado pelo PNUMA, órgão das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a América Latina vive um processo de aumento da importância dos bens primários na exportação. “Estamos discutindo inovação com o peso das commodities cada vez maior na economia destes países", diz. "Há um contexto de tensão entre a necessidade de conhecimento e as oportunidades da velha economia, ainda promissoras para agentes individuais.”

É preciso aumentar a eficiência no uso das matérias-primas e gastar menos força na produção de bens de consumo, aponta o estudioso. Na América Latina, explica, a intensidade do gasto da energia elétrica para a produção cai menos que a média global e no mundo apenas 2% da matriz energética é sustentável.

“Quanto há de financiamento a custo zero para as empresas investirem em energias sustentáveis?”, questiona Cestari. “Enquanto isso, a Foxxconn [montadora de tablets chinesa] ganha isenção do governo”, dispara.

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