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Brasiliana

Budismo para não-religiosos

por Gabriel Bonis publicado 19/09/2011 09h56, última modificação 27/09/2011 16h40
Líder espiritual máximo budista atrai multidão de pessoas de diversas religiões, ou sem crenças, em sua quarta passagem pelo Brasil

Na manhã ensolarada de sábado 17, cerca de 4,5 mil pessoas passam pelos apertados corredores de um dos auditórios do Anhembi, em São Paulo, rumo a um salão escuro. Sentam-se em cadeiras de plástico, ou se esparramam pelo chão, à espera dos ensinamentos do Dalai Lama, representante espiritual do Budismo - pela quarta vez no Brasil. São todos recebidos com bom humor pelo líder religioso, que avisa: “Vou expor alguns pontos e depois responderei a questionamentos da plateia, mas quero perguntas sérias e não tolas.”
O público chama atenção pela suas características distintas, com pessoas de diversas faixas etárias, religiões ou até mesmo sem uma crença definida, talvez influenciados pela carência de líderes espirituais em seu País.
“Levante a mão quem aqui não tem religião”, pede o Dalai Lama, sendo atendido prontamente por um incontável número de presentes. “Há sete bilhões de seres humanos neste planeta e muitos deles não possuem uma religião. A fé é pessoal, mas é preciso cultivar valores internos como a ética", diz, apontando o secularismo como uma opção aos não-crentes.

Tolerância que chama a atenção da professora de Ioga Patrícia Bezerra Cavalcante. “Ele não fala de religião e sim de religiosidade. Quer apenas que as pessoas pratiquem o bem e sejam íntegras”, destaca ela, com voz calma. "É muito corajoso um líder espiritual dizer a uma plateia de milhares de pessoas que não é preciso ter uma religião."

Mesmo sem ser budista, embora se informe sobre a filosofia, é a segunda vez que a professora vai ao encontro do Dalai Lama. “Na outra oportunidade foi ainda mais emocionante, pois estava em um momento de busca maior. Tive até tremores e quando consegui tocá-lo percebi que era um homem do bem”.
Cavalcante não é a única "não-budista" a procurar os dizeres do Dalai Lama, que falou sobre os mais diversos temas, desde a desigualdade social à ecologia, sem focar em religião, quase uma façanha. Ambos espíritas, o casal Fábio Cezar Pereira Rocha e Luciane aproveitou o evento para ver e ouvir de perto o tibetano. “É fantástico como ele consegue fazer uma inclusão religiosa ao não descriminar aqueles com uma crença ou sem”, diz o securitário, já mencionando aquele que considerou o maior ensinamento do dia: separar o homem de suas ações. “A tolerância significa não cultivar raiva dos que te prejudicam, mas é preciso se opor à má ação sem perder o respeito à pessoa”, friza o Dalai Lama.

Usando o traje milenar  típico do Budismo, em contraste ao cenário high tech a sua volta com telões de LED e microfe colado ao rosto, o líder espiritual de 76 anos estava à vontade com a plateia e familiarizado com os elementos tecnológicos.

Descontraído, fez até piada com o tradutor do evento, que mostrava-se atrapalhado ao segurar o microfone e ao mesmo tempo anotar as falas. "Providenciem um apoio ou ele terá que desenvolver a capacidade de ter quatro mãos."

Em meio a brincadeiras, o Dalai Lama citou a violência e as guerras do século XX e pediu uma mudança de postura da sociedade, uma vez que a globalização tornou o mundo interligado. “Devemos resolver nossos problemas com diálogo e paz. No passado, a derrota do meu inimigo era a minha vitória. Hoje, destruir o vizinho significa se destruir.”
Um ensinamento destacado pela psicóloga Ana Claúdia Lima, que se define como simpatizante do budismo e adepta de suas filosofias. "Precisamos conviver com as diferenças, pois a raiz da violência está também na dificuldade de aceitar o outro.”

Ela, que já esteve em uma palestra do Dalai Lama em visita anterior, usa outro conceito passado pelo líder espiritual ao pedir o desarmamento mundial a fim de alcançar a utopia de uma sociedade pacífica. “As pessoas precisam se desarmar internamente para construir uma sociedade de paz. Não dá para esperar uma mudança social sem uma transformação interna.”
Em meio aos cerca de 250 mil budistas no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), está Lia Beltrão. A jovem veio de Recife, onde mora, para ver o seu líder espiritual de perto pela primeira vez e trouxe a mãe como companhia. Há cinco anos no Budismo, seu sotaque extravasa o entusiasmo ao descrever sua participação em um centro que realiza retiros de até três anos na zona rural de Pernambuco. “Recebemos também pessoas que vão lá para ajudar a cuidar da horta, da cozinha ou das pessoas que estão mais isoladas.”

Ela conta que não buscou no Budismo uma religião e recorda o primeiro encontro com a filosofia asiática. “Fui a uma palestra sobre como ser seu próprio psicoterapeuta e a primeira pessoa que encontrei lá foi o meu psicoterapeuta”, afirma, seguida por estrondosas gargalhadas.
Uma busca pela espiritualidade também abordada pelo Dalai Lama, para quem é preciso se informar sobre o assunto, preferencialmente por meio de livros e fugindo do comércio espiritual, antes de decidir qual filosofia é a mais adequada. “Mas não se iludam, essa é uma tarefa que leva anos.”
“É emocionante ver como ele transcende a barreira da religião e um conforto saber que consegue falar de coisas universais usando uma tradição milenar", completa a jovem.

No caminho de volta, em meio a ruas desertas, encontro um casal também em busca de uma estação de metrô. A psicóloga Ana Cristina Moreira Lima e o funcionário público Pietro Valerio vieram do Rio de Janeiro para ver Dalai Lama. Praticantes do budismo há três anos, foram “iniciados” por um amigo de Recife, apesar de já conhecerem as tradições. Caminhando apressadamente por vielas próximas à estação Tietê, ela explica que é preciso escolher um professor, uma espécie de mestre, para lhe passar os ensinamentos.
- Mas fora esse contato, como você busca o conhecimento?
A psicóloga solta uma risada e diz: “Lendo muito! Você  não ouviu o Dalai Lama falando para gastarmos o nosso dinheiro com livros?"
Muito “zen”, o casal, que segue em direção à estação da Luz, afirma que é preciso experimentar o Budismo para saber se é a opção correta. “Tem funcionado muito bem para nós”, diz Valerio. “Afinal, uma tradição de mais de 2,5 mil anos deve ter algo de bom, mas pode ser que não seja algo para você.”

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