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Crônica / Matheus Pichonelli

Ópio do povo: use sem culpa

por Matheus Pichonelli publicado 01/07/2013 16h43, última modificação 02/07/2013 07h40
Assim como as máfias do esporte, o mimimi-anti-paraíso-da-alienação não vai me fazer gostar menos de futebol. Nem da seleção. Por Matheus Pichonelli
Nationaal Archief / Flickr
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Assim como as máfias do esporte, o mimimi-anti-futebol-paraíso-da-alienação não vai me fazer gostar menos do esporte. Nem da seleção

Que eu saiba, não sou nacionalista. Diferentemente de Policarpo Quaresma, o personagem de ufanismo exacerbado de Lima Barreto, jamais moveria uma guerra para dizer que o rio Amazonas é maior que o rio Nilo. Tenho urticária quando alguém, mesmo bem intencionado, começa a cantar do meu lado que é brasileiro com muito orgulho e com muito amor. Nada contra orgulhos ou amores, mas toda vez que escuto o refrão, que vale tanto para brasileiros orgulhosos como para brasileiros indignados, penso que o Caetano Veloso tinha razão quando interrompeu o seu “Proibido Proibir” aos berros e vaticinou: “Se vocês em política forem como são em estética, estamos fritos”.

Não sou sommelier de política nem de estética, mas gosto de futebol. Torcer por uma equipe é, talvez, o único hábito de infância que ainda carrego no bolso. Deixei de gostar de muita coisa com a idade. A preferência musical mudou. Os motivos para viajar mudaram. Os planos para o futuro também. As influências, idem. Mas quando ligo o rádio, a tevê ou me sento em uma arquibancada para acompanhar uma partida de futebol, volto a ter 12 anos. Era a idade que eu tinha quando vi o Brasil ganhar a Copa de 1994. Foi a minha primeira Copa (tenho lembranças vagas das anteriores) e meu primeiro título. Por essa Copa eu moveria uma guerra: diga perto de mim que ganhamos a taça e assassinamos o futebol-arte (clichê dos clichês) e ganhará um inimigo por três gerações. Guardo num baú de prata (digo num baú de prata porque, como diz a música, prata é a luz do luar) as defesas do Taffarel, os cruzamentos do Jorginho, os desarmes do Aldair, os petardos do Branco, os lançamentos do Bebeto, os biquinhos de chuteira do Romário e, sim senhor, as enceradas do Zinho.

Naquela Copa, provei do ópio e peguei gosto. O azar é todo meu.

Hoje gosto de futebol pelos mesmos motivos que levam alguém a desdenhá-lo: sem saber o porquê. Poderia dizer que o esporte explica a existência, que os posicionamentos e conquistas de espaço em campo são os mesmos da rotina jogada, que a coletividade do esporte é uma patada na individualidade, que me encanta saber que nada na vida se ganha sozinho sem uma pequena ajuda dos amigos ou parceiros de zaga e ataque e que, não importa o quanto isso soe irracional, nada será tão vibrante como uma torcida uníssona (à exceção, é claro, da supracitada “sou brasileiro com muito orgulho com muito amor”). Ainda assim, prefiro deixar a resposta ao inconsciente: gosto de futebol pela mesma (não) razão de quem desgosta. E gosto de gostar: isso me quebrou o gelo em conversas no elevador, no corredor da firma, na fila no banco e até mesmo na sala de espera de um hospital por ter, simplesmente, um assunto em comum com alguém que gosta tanto ou mais do esporte do que eu. Mais: não tenho repertório suficiente para convencer meus amigos a me visitar num domingo sem sol e botar os assuntos em dia. Mas o jogo da tarde tem – e é o que me faz reunir amigos que, em dias normais, estariam dispersos.

Digo tudo isso porque gostar de futebol me leva a gostar da seleção brasileira. Não porque Neymar (em outros tempos, Ronaldo ou Romário) me represente (termo da moda) ou carregue nas chuteiras os anseios de um país possível. Mas sim porque gosto de torcer, gosto do futebol jogado e, principalmente, gosto de voltar aos 12 anos toda vez que me sento num sofá ou numa arquibancada de estádio.

Não deixo de ter outras preocupações nem antes nem durante nem depois de um apito. A maioria delas está dissociada do futebol em si; outras estão conectadas a ele: lamento, todos os dias, o fato de o futebol brasileiro ser comandado por José Maria Marin (como lamentei quando era comandado por Ricardo Teixeira); lamento o mandado para mandar prender e mandar soltar concedido à Fifa para montar a Copa no Brasil; lamento os dispêndios em concreto e metal que levantaram estádios sem erguer uma única via, uma única linha de trem, uma única nova rede de esgoto; lamento os elefantes brancos natimortos em cidades sem equipes ou torcida; e lamento as desapropriações autoritárias para limpar o entorno desses elefantes.

Sou contra tudo isso como sou contra a gripe, a arrogância, os desperdícios. Enquanto puder, vou continuar dizendo o quanto tudo isso me incomoda, seja na vida privada, seja na vida profissional, que me permite expor este texto para além do meu círculo de relacionamento. Por isso não tenho o menor receio em dizer que comemorei, e comemorei muito, a vitória da seleção brasileira por 3 a 0 sobre a Espanha. Não porque tenha problemas com meus complexos de vira-lata, mas porque gosto da seleção – e não deixei de gostar porque discordei (e ainda discordo) de parte da lista de convocados (11 Hulks não valem meio Kaká), da teimosia manifestada por Luiz Felipe Scolari ou porque a vitória deu sobrevida a uma CBF corroída por quem jamais deveria ter chegado ao posto.

Mas uma coisa é ser crítico  em relação aos gastos excessivos para as obras da Copa. Outra, bem diferente, é acreditar que a seleção é um exército a serviço da alienação, da ditadura, do papa, da Telexfree e tudo mais.

As máfias do esporte, como as máfias do transporte público e outras máfias, não me representam. Nem por isso vão conseguir me fazer desistir de gostar de futebol ou de torcer pelo futebol – da mesma maneira que defender a dignidade dos transportes públicos não me leva a pedir a eliminação dos transportes públicos das nossas vidas.

Se os charlatões do esporte não me fizeram gostar menos de futebol, a patrulha que nas últimas 24 horas vociferou contra quem traiu uma nação em crise – e caiu, sem culpa, nos braços do povo e do ópio – não deve provocar o menor arranhão. Ainda que tentem me convencer, por correntes de e-mail ou manifestos pelo Facebook, que tudo o que vimos em campo estava armado para distrair uma população em fúria – tudo, claro, combinado com os russos e os espanhóis, que provavelmente não sabem o que é uma crise nem o que é uma população em fúria e à roda do desemprego.

Se torcer pelas equipes que aprendi a gostar me fará um traidor da causa, assino aqui meu atestado de infidelidade: vou traí-la muitas e muitas vezes. Futebol e culpa são palavras dissociadas para quem, a essa altura do campeonato, está contaminado pelo esporte. Eu, pelo menos, não tenho a menor vontade de procurar a cura. Seria como me desfazer, em um exercício forçoso de civismo ingênuo, de algumas das minhas melhores lembranças – as passadas, as futuras e as que ainda absorvo depois da sova aplicada no domingo por Fred, Neymar e companhia.

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