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Sociedade

Tragédia

Ocupação intensa do território não pode continuar, afirma urbanista

por Felipe Corazza — publicado 17/01/2011 16h50, última modificação 17/01/2011 17h15
O arquiteto e professor de planejamento da FAU-USP Nabil Bonduki aprofunda a análise sobre a catástrofe no Rio de Janeiro e afirma que a tendência com a especulação imobiliária é de piora

Enquanto a imprensa e a população procuram culpados para as tragédias das enchentes no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, a ocupação e a impermeabilização do solo segue criando as condições ideais para que os desastres se repitam.

Para o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, a questão da ocupação é o centro da discussão sobre as enchentes e deslizamentos de terra. "A ocupação do solo tem seus limites. Há processos, principalmente onde há uma cobertura vegetal pequena com base de rocha. Com o tempo, ocorre um descolamento dessa parte superficial". Esse, no entanto, é apenas um dos problemas.

A busca por mais espaço, especificamente com a especulação imobiliária intensa, gera pressão para que novas áreas sejam impermeabilizadas e ocupadas. O impacto disso vai além do que normalmente é visto. A ocupação vai "criando uma ilha de calor violentíssima na região, tendo como consequência o aumento das tempestades. Com isso, vem outro problema: áreas que antes eram viáveis para ocupação começam a não ser mais", esclarece Bonduki.

Isso pode explicar, em parte, por que construções que estavam em áreas antes seguras da região serrana do Rio de Janeiro foram devastadas pelas tempestades. "Às vezes, aparentemente, não há risco de deslizamento da construção, mas você pode ter um deslizamento da camada sobre a qual ela está. Esse processo de ocupação tão intensa do território não pode continuar".

Bonduki lembra, também, que a densidade das cidades está diminuindo, ou seja, pessoas ocupando mais espaço, sem que a legislação acompanhe o problema: "Não existe nenhuma legislação que estabeleça medidas máximas de ocupação. Você tem, hoje, apartamentos de 500, 600 metros quadrados com duas pessoas morando. Se esse é o parâmetro de sucesso das pessoas, a tendência é gerar uma falta de espaço". A compensação para a falta de espaço: mais ocupação.

Reconstrução
Vendo a devastação da região serrana fluminense, fica difícil imaginar que algo possa ser reconstruído nas áreas que foram soterradas pelos deslizamentos. Mas, então, o que fazer? No mínimo, segundo Bonduki, melhorar as estruturas e a capacidade de resposta a uma calamidade deste porte.

"Se caiu uma vez, pode cair outra. Mas essa é uma discussão mais complexa. Se você pegar áreas de terremoto, por exemplo. São Francisco, nos Estados Unidos, foi devastada por um terremoto, foi reconstruída e está lá. Nos lugares do mundo em que as pessoas convivem com catástrofe, existem mecanismos de proteção" afirma.

O arquiteto menciona, também, o terremoto de 8,8 graus na escala Richter que atingiu o Chile em fevereiro do ano passado. "Havia, ali, construções que levavam em conta essa possibilidade. E nós não temos essa cultura. Talvez, em alguns desses lugares, seria o caso de fazer fundações mais profundas. É preciso fazer uma avaliação".

Ainda não há dados preciso sobre os planos para a reconstrução da região serrana do Rio. O governo federal anunciou a liberação de 500 milhões de reais para a região, por meio do PAC2. O valor é semelhante ao estimado pelo prefeito de Teresópolis, Jorge Mário Sedlacek (PT), apenas para a reconstrução do município.

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