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Sociedade

Especial - 50 anos do golpe

O sonho não morreu

por Gilberto Natalini — publicado 27/03/2014 03h57
Depois de muita luta, a democracia chegou, mas ainda é incapaz de produzir justiça social, afirma o vereador Gilberto Natalini

Eu tinha 12 anos quando o golpe derrubou o presidente João Goulart. Era estudante, cursava o ginásio, interessado em filosofia, ciências e política. A ditadura foi um susto grande para mim, minha família e amigos.

Vivia em torno de um grupo de pessoas lideradas por um tio. José Lira Madeira era ativista político, do PCB, e comandava em Macaé (RJ) apoio ao governo Jango. Foi lá que aprendi minhas primeiras noções sobre socialismo. Tive meus primeiros sentimentos de indignação contra as injustiças sociais, os primeiros atos de militância política. Meu tio esteve preso várias vezes. Amigos dele também. Generino, um camponês, foi caçado em Macaé como um animal.

Os anos se passaram, o regime militar se consolidou, os movimentos sociais se reorganizaram. E eu, cada vez mais, coloquei-me no campo da oposição aos golpistas.

Aos 16 anos, no final de 1968, cheguei a São Paulo para estudar Medicina. Veio a bordoada do AI-5. Foi a gota d’água. Aprovado na Escola Paulista de Medicina, entrei na universidade disposto a atuar, firmemente, para ajudar na reconquista da democracia.

Tempos difíceis. Clima de terror. Com cuidado, passei a buscar pessoas que pensavam como eu. Formamos um grupo que não escondia opiniões políticas de contestação ao regime militar. Alunos antigos e professores sofreram perseguições e prisões. O caso mais emblemático foi o do diretor da Escola Paulista de Medicina, professor Marcos Lindeberg.

Demos peso à nossa atuação. Fizemos contatos com outras escolas de Medicina. No primeiro encontro das escolas de Medicina, com presença pequena de participantes, agentes do Dops tomaram conta do lugar.

Fomos adiante com o jornal mural das escolas médicas, chamado Articulação. Retomamos o Centro Acadêmico (que nunca virou diretório, por resistência) da Escola Paulista de Medicina e editamos o jornal O Barretinho.

Em 1972, fui preso pela Operação Bandeirantes/Doi-Codi, com mais dez colegas de turma. Sete foram soltos. Ficamos presos Paulo Horta, Walter Nascimento e eu, acusados de ligações com o Movimento de Libertação Popular, o Molipo.

Eu era independente, apesar de manter contato com todos os grupos de oposição ao regime, clandestinos ou não, defensores da luta armada ou não. Recolhíamos dinheiro e remédios, e ajudávamos na área médica, por solidariedade. Na prisão, sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, fomos torturados. Como sequela, sofro com a surdez parcial.

Além do Ustra, lembro-me dos torturadores capitão Ubirajara, JC, Jacó, capitão Albernáz e doutor José, entre tantos outros.

Estavam presos conosco Vieira, Pedro Rocha, Moacir Longo, Márcia Amaral, o sobrinho do dom Paulo Evaristo Arns, Egberto, João Chile, Eládio e Paulo de Tarso Venceslau.

Depois de um tempo no Dops, na cadeia do delegado Sérgio Paranhos Fleury, fomos soltos. Sobrevivi!

Voltamos à Escola Paulista de Medicina e, com a generosidade de professores liberais como Oswaldo Ramos, Spork, Duílio, Milton, Bobrow e Gebara, estudamos muito, fizemos segunda época e passamos para o quarto ano.

Estávamos cada vez mais engajados na luta pela redemocratização do Brasil. Fui preso 17 vezes durante o regime militar.

Em 1976, organizamos um grupo e fomos atender voluntariamente no Cangaíba, na zona leste de São Paulo, onde até hoje atendo no ambulatório da Igreja Bom Jesus do Cangaíba, com Henrique Francé e Nacime Mansur. Lá, conscientizamos a população em torno da luta por saúde pública e qualidade de vida.

Nesse grupo estavam Júlio César, Paulo Mourão, Daniel Klotzel, Walter Feldman, Paulo Horta, Walter Nascimento, Zé Eduardo, Sueli Lourenço, Francé, Nacime e vários outros.

Atuamos na luta contra a carestia, pela Anistia e a Constituinte livre e soberana. Apoiamos movimentos de operários por salário e liberdade sindical. Fui diretor do Sindicato dos Médicos em três gestões.

De 1976 a 1986, militei no PC do B. Boa parte do nosso grupo de médicos e líderes populares seguiu o mesmo caminho. Atuávamos publicamente no MDB, que se tornou a frente política contra a ditadura.

Com a Anistia, voltaram os exilados. Prestes, Brizola, João Amazonas, Arraes, Serra e tantos outros. Em 1982, Montoro conquistou o governo de São Paulo. Em seguida, começou a articulação pelas Diretas-Já.

Eu vivia às turras com os órgãos de informação e a polícia do regime militar. Fui preso várias vezes no período, inclusive pelo Dops sob o comando de Romeu Tuma, por seis vezes.

Caí de cabeça na mobilização pelas Diretas-Já. Tancredo Neves ganhou no Colégio Eleitoral, com o apoio de todos nós. A ditadura entregou o poder a Sarney, que esteve com eles durante todo o tempo. O país avançou rumo à Constituinte.

Minha luta continua até hoje. A nossa democracia, depois de tantas batalhas, ainda não produziu justiça social e respeito ao dinheiro público, princípios pétreos de ética e da moralidade.

Em meu quarto mandato como vereador de São Paulo, presido a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, voltada para o resgate da nossa memória.

Passamos a limpo a história da ditadura. Precisamos nos lembrar para não repetir. Construir o presente e semear um futuro melhor.

Os meus sonhos nos idos de 1964 continuam comigo até hoje. Não temos espírito de vingança. Não vamos fazer com eles o que fizeram com a gente.

*Gilberto Natalini, médico, vereador pelo PV de São Paulo e presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog. Seu depoimento é parte de uma série de artigos para o especial Ecos da Ditadura, sobre os 50 anos do golpe militar