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O PSDB sem rumo

por Aurélio Munhoz — publicado 13/07/2011 17h00, última modificação 05/10/2012 12h04
Fragilizado, o partido perde agora Gustavo Fruet, deputado federal mais votado da história do Paraná, que arrebatou 2,5 milhões de votos na disputa ao Senado em 2010

A ruidosa saída do ex-deputado federal paranaense Gustavo Fruet do PSDB, anunciada na quarta-feira 13, equivale a um golpe de katana - a mortal e afiadíssima espada japonesa usada pelos praticantes das artes marciais - em um partido que parece cada vez mais fragilizado.

Não há exagero nenhum na afirmação. Aos desavisados, importa esclarecer que Gustavo é um dos melhores quadros da política brasileira. Doutor em Direito das Relações Sociais, “Guga”, como é conhecido nos círculos mais íntimos, exerceu três mandatos de deputado federal - o último deles, com o apoio de 210.674 eleitores, a maior votação de um deputado no Paraná em 2006.

Nestas três passagens por Brasília, recebeu três indicações do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) como um dos “100 cabeças do Congresso Nacional” e foi um dos únicos onze parlamentares levados à final do exigente Prêmio Congresso em Foco, conferido por 176 jornalistas de 49 veículos de comunicação que cobrem o Legislativo.

Compreende-se porque Gustavo recebeu estrondosos2,5 milhões de votos nas eleições ao Senado do ano passado no Paraná (resultado que quase tirou a vaga do três vezes governador Roberto Requião), dos quais cerca de 650 mil apenas em Curitiba.

Ao fazê-lo, mais do que provar sua enorme popularidade, mostrou que tem personalidade e deixou de lado os vínculos eleitorais que o associavam ao seu pai, o ex-prefeito de Curitiba Mauricio Fruet, um ícone da política paranaense. Gustavo se destacou por mérito próprio - e por méritos de cunho ético, fato notável, considerando-se a alta incidência de aves de rapina do mais baixo estirpe que pululam pelo Congresso Nacional.

Não à toa. Entre outras atividades significativas, o ex-tucano exerceu com brilhantismo seu papel de subrelator de Movimentações Financeiras na  CPI dos Correios do Congresso Nacional, junto com o deputado federal Osmar Serraglio, (PMDB/PR). Sem excessos, Gustavo é quase uma unanimidade positiva na política brasileira.

No entanto, de forma míope, foi triplamente preterido pelo alto tucanato paranaense. Primeiro, quando abriu mão de uma garantida reeleição à Câmara Federal para, a pedido do partido, disputar uma duvidosa eleição ao Senado. Segundo, quando foi descartado como secretário estadual do governo Beto Richa. Finalmente, o mais grave, quando abandonado pelo PSDB como candidato a prefeito de Curitiba nas eleições de 2012.

Merecidamente, o PSDB do Paraná é um microcosmo da fragilizada legenda tucana no Brasil. Enfraquecidos por três derrotas sucessivas na disputa pela Presidência da República, pela redução da sua representação tanto no Congresso Nacional quanto nos Estados, pelo pragmatismo dos governadores no seu relacionamento com o Palácio do Planalto e pela tibieza de muitos dos seus dirigentes, os tucanos estão deixando escorrer pelos dedos a chance de ser o grande partido de oposição ao projeto político-eleitoral do PT. Sua única voz forte neste terreno é, curiosamente, outra liderança paranaense - o combativo senador Alvaro Dias.

Não era para ser assim. Quando fundou o PSDB, há 23 anos, o areópago tucano de então ( formado por lideranças do porte de Franco Montoro, Mario Covas, José Serra e Fernando Henrique Cardoso) concebeu um partido social-democrata moderno, com um projeto de poder claro e de lonzo prazo - duas décadas, pelo menos, como alardeava FHC, o “princípe dos sociólogos”. O mesmo Fernando Henrique que se superou no papel ao afirmar, neste ano, que a oposição tem que procurar os votos da classe média - e não os dos pobres.

Deu no que deu. Feito menino levado, o PSDB não fez bem sua lição de  casa no campo da oposição na era pós-FHC, como aliás desejam os eleitores da legenda, especialmente os que depositaram seus votos sagrados nos principais atores da arena tucana - como o senador Aécio Neves (MG), o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o ex-presidenciável José Serra .

Amarga, agora, a possibilidade de ver de novo frustrados seus projetos de recuperar - já nas eleições municipais de 2012 - parte da densidade eleitoral perdida nas últimas eleições e sobretudo de projetar um protagonismo no tabuleiro político nacional capaz de reconduzi-lo à Presidência da República, em 2014.

Não se sabe qual será o rumo de Gustavo Fruet a partir de agora; a candidatura a prefeito de Curitiba pelo PDT do falecido caudilho Leonel Brizola, com o possível aval do PT e do PMDB, é o mais provável. Para o eleitor, porém, isso não importa. Ao senhor do voto, importa apenas saber para onde caminham as verdadeiras lideranças. Ao desprezar Gustavo, o PSDB, porém, mais uma vez, não percebeu isso. Caminha, sem rumo e  sem bússola, no tormentoso oceano da política brasileira.

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