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Sociedade Banksiana

O pensamento vivo de E.Banks

por Miguel Martins publicado 04/12/2013 06h22, última modificação 04/12/2013 07h00
Quem é o guru da associação contrária às biografias não autorizadas e envolvida em polêmica sobre a Lei Áurea
Divulgação
E. Banks

"Minha presença é sentida apenas na obra que produzi"

A Antiga e Iluminada Sociedade Banksiana, ex-Associação Eduardo Banks, ganhou fama repentina ao defender durante uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal o veto a biografias não-autorizadas. Acusada de também pleitear a indenização a herdeiros de proprietários de escravos (os integrantes negam) e ser contra a união civil homossexual, a associação virou para muitos mais um símbolo do obscurantismo. CartaCapital ouviu Eduardo Banks, guru da entidade cuja sede no Rio de Janeiro está infestada de cupins. Ultimamente, os participantes têm se reunido esporadicamente no bar Amarelinho, no centro da capital fluminense. Autodidata, autodenominado “filósofo, dramaturgo e compositor”, descendente do Capitão Eduardo Frederico Banks (???), o fundador da associação expõe a seguir seu pensamento vivo. Humorista? Destrambelhado? Cada um tire as próprias conclusões.

CartaCapital: O senhor poderia me contar um pouco da história da associação?

Eduardo Banks: Mais de cem anos atrás, e no passado, esse tempo decorre como uma noite em sono profundo, uma jovem mulher russa contou a um homem seu sonho: “Sonhava que dividia um grande apartamento cheio de livros e flores, e quartos de ambos os lados. Os três viviam e trabalhavam juntos em perfeita harmonia e o fato de serem homens, e ela mulher, não tinha a menor importância”. Eu não era o homem para quem a mulher contara o sonho, mas talvez estivesse nele, como o terceiro incluído de uma “santa trindade”. Não existindo mais conventos ou mosteiros (há os que sobem nas torres dos campanários das igrejas porque procuram solidão, e não cristianismo) pensei em retomar o belo sonho daquela jovem russa, e agora, não em três, mas junto com doze companheiros (sendo eu o décimo terceiro) firmamos os estatutos da então nominada Associação Eduardo Banks, escolhemos o dia em que completei 28 anos de idade, ou seja, em 18 de novembro de 2006, para dar vida civil a este hoje ainda pequeno “homem artificial”, ora Leviathan, ora Homunculus. Se me faltarem herdeiros diretos, a Associação Eduardo Banks, hoje renomeada Antiga e Iluminada Sociedade Banksiana, faria as suas vezes, sucedendo-me na gestão dos direitos patrimoniais de minhas obras, e obstando à publicação de biografias não-autorizadas que porventura se fizessem a meu respeito.

CC: Qual sua participação na associação?

EB: Não é do meu intuito liderar a associação. Trato-a como o escritor libanês Khalil Gibran ensinava a tratar os filhos: “procedem de vós, mas não pertencem a vós”. Isso me obriga a ser o mais distante dentre os filiados; minha presença é sentida apenas na obra que produzi, e que a associação um dia terá que assumir. Por vezes penso em desfiliar-me, a fim de que os meus companheiros se perdessem para conseguirem encontrar a si mesmos. Quando se afastarem de mim, finalmente ter-me-ão compreendido.

CC: Quais são suas atividades profissionais? O senhor se declara como “filósofo, dramaturgo e compositor”, certo?

EB: Tentar conhecer um homem a partir de sua “profissão” é a melhor maneira de não saber nada sobre ele; deveria antes perguntar pelos meus ócios, do que por minhas atividades. Começando pela filosofia — esta doce ociosidade para psicólogos — cujos primeiros fragmentos bosquejei na tenra idade de treze anos, publiquei enfim “Ouroboros: Um Livro para Instrução de Todas as Gentes” o primeiro livro de muitos que ainda espero dar ao prelo, ironicamente começando minha vida pública na idade em que outros a terminaram. O lançamento foi em 19 de julho de 2011, na extinta Livraria Camões, por volta das sete horas da noite. Embora destinado a “todas as gentes”, não é prudente que seja lido, nem pelo primeiro, tampouco pelo segundo que apareça, eu aconselho. Dos mil exemplares que mandei tirar, mal devo ter conseguido vender a décima parte.

O ser dramaturgo abeberou-se de mim junto com a poesia; esta me seduziu, após um tempo em que não olhava para essas meninas tolas, quando, aos dezessete anos, li de um fôlego a “comédia heróica” Cirano de Bergerac, de Edmond Rostand, na tradução de Porto Carrêro (muito superior ao original, para glória das letras portuguesas) seguida por Os Lusíadas, de Luis de Camões, e as traduções das obras de Homero feitas por Manoel Odorico Mendes. Com estas leituras, aprendi sozinho a metrificar, como se ainda estivesse no Século XVI, época pela qual decerto trocaria este Terceiro Milênio, pois vale isso.

Dessarte me veio, ainda no ano de 1998, a concepção de uma coletânea com dez peças curtas, dentre tragédias e comédias, a que dei o nome de “Os Prosquenergonas”, do grego “proskene” (proscênio) com “ergon” (potência) coincidindo cada uma delas em número de versos com um dos Cantos d’Os Lusíadas; somente metade do trabalho encontra-se concluído agora em 2013. Por uma dessas peças — o “Aquiles Ultrajado” — a primeira na seqüência da obra, mas a segunda na escrita, obtive “Menção Honrosa” na categoria de texto teatral do “Prêmio Rio Jovem Artista 2000”, conferido pelo Instituto Municipal de Arte e Cultura (Rio/Arte). Esta mesma peça foi inscrita em 2001 no Projeto “Nova Dramaturgia Brasileira”, organizado pelo teatrólogo Roberto Alvim, então Diretor da Sala Paraíso do Teatro Carlos Gomes, porém terminou recusada para a encenação porque, segundo me disse o próprio Roberto, o Rio de Janeiro não dispõe de atores à altura dos papéis, ou que fossem capazes de extrair do texto a energia que nele se encontra.

Quanto à música, fiz-me auto-didata assim como em todo o restante (meus estudos formais chegaram apenas à 7ª Série do Ensino Fundamental, concluindo o antigo Ginásio apenas em 2008, ao ser aprovado no Exame de Certificação de Competências de Jovens e Adultos e o Ensino Médio em 2010, ao obter aprovação no ENEM); sempre quis aprender a tocar um instrumento, e no apartamento onde cresci existia (e ainda existe) um piano Pleyel, vertical, que meu avô materno presenteara à minha mãe em 1957, mas ela não permitia que eu sequer abrisse a tampa, por estar desafinado e infestado de cupins; então, em 1994, aproximadamente, graças à cumplicidade de meu pai, eu forcei a fechadura do piano quando minha mãe saía, e fui praticando aos poucos a leitura de partituras e o dedilhado da mão direita (jamais consegui desenvolver a mão esquerda), e com isso me foram vindos os primeiros temas musicais, organizados, aos poucos, em peças avulsas, de cerca de um minuto de duração, ou menos. Em 2007 eu já tinha escrito certa quantidade de peças, mas não havia como ordenar os manuscritos; daí que eu comprei um disco de instalação com o programa editor de partituras Encore 4.5 (das mãos de um “camelô”, na frente do Edifício Avenida Central, reconheço), e com ele pude passar a limpo as composições que já tinha, e ainda escrever peças novas. Assim que em quarenta dias logrei escrever as minhas “XII Sonatas para Instrumentos de Tecla”, que espero apresentar ao público em breve, dentro da série “Música no Museu”, e em oitenta dias, as “VI Partitas para Cravo”, dentre outras galanterias de menor fôlego.

CC: A associação esteve presente na audiência pública do STF sobre a polêmica das biografias. Em relação à questão, por que vocês são contrários à posição da Associação nacional dos Editores de Livros, favorável às biografias não autorizadas?

EB: Quanto a mim, somente posso dizer que homens do meu quilate não deixam biografias, mas sim, mitos e lendas. Lamento que a cultura filistéia haja obtido êxito em substituir os aedos, bardos e escaldos por biógrafos, e para cúmulo, sem a menor cortesia com os “escolhidos” biografados, como se já não bastassem os jornalistas atrás de “furos” de reportagens e paparazzi profanando celebridades com seus flashes. “A Náusea” de Sartre é, deviam lembrar-se disso, a história de um homem que se confronta com o seu próprio vazio interior ao tentar reconstituir a biografia de um nobre do Século XVIII, e quando o infeliz biógrafo se dá conta de que o biografado está irremediavelmente morto, ele perde o contacto com o sorriso zombeteiro do aristocrata, e com isso também se perde: não consegue mais escrever, pois sua vida era a vida de um falecido.

CC: Em 2009, apresentou-se à Comissão de Legislação Participativa um projeto de lei que procurava indenizar descendentes de proprietários de escravos do século XIX, em nome de Waldermar Annunciação Borges de Medeiros, então presidente da associação. A entidade apoiava o projeto?

EB: Esta questão se encontra judicializada. Não posso dar uma palavra a respeito, nem consentir que ninguém fale de fora dos autos. Quem vai dizer se tal “projeto” foi ou não “de fato” apresentado a qualquer órgão ou Comissão do Congresso Nacional será o Poder Judiciário, e não a minha pessoa.

CC: Em um ofício enviado à CLP, Borges de Medeiros apresentou o projeto sob o argumento de que o estatuto da associação permite ao presidente encaminhar sugestões legislativas sem consultar a Assembleia Geral da entidade. Ele agiu unilateralmente?

EB: Da minha parte, desconheço a existência de qualquer “projeto” ou “ofício”, nem posso me pronunciar se o Sr. Waldemar Annunciação Borges de Medeiros “agiu unilateralmente”, ou sequer se “agiu”, ou se alguém falsificou a assinatura dele. A minha assinatura é que não apareceu em lugar algum, e para minha esfera de interesses, é tudo o que importa.

CC: A associação é contra a união civil entre homossexuais?

EB: Outro antes de mim falou: “acerca de duas pessoas nunca refleti profundamente: é o atestado de meu amor por elas”. Ou talvez tenha sido dito por mim mesmo, antes de tornar-me quem eu sou.