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O melhor do melhor dos Brasileiros

por Matheus Pichonelli publicado 21/11/2011 13h44, última modificação 06/06/2015 18h15
Imprevisível, cheio de viradas e jogos históricos, o Campeonato Brasileiro de 2011 já é o melhor desde o início dos pontos corridos
ronaldinho

Contra o Santos, no 1º turno, Ronaldinho deitou e rolou num dos grandes jogos da temporada 2011. Foto: Alexandre Vidal - Fla Imagem

Ainda que o Corinthians perca o rumo e seus dois últimos jogos, contra Figueirense e Palmeiras – sonho que invadiu as mentes de palmeirenses, são-paulinos e santistas na madrugada de domingo para segunda-feira – os torcedores do time terão motivo de sobra para se lembrar do Campeonato Brasileiro de 2011 como um torneio inesquecível. Do espírito corintiano, maloqueiro e sofredor, como pede a torcida, a equipe do técnico Tite tem de sobra.

O time acumulou resultados heroicos na temporada, quase sempre de virada ou pelo placar mínimo. Resolveu aperreiros internos, sobreviveu a pelo menos duas ondas de instabilidade (passou o campeonato inteiro quase sem vencer dois jogos seguidos) e viu nascer ídolos novos, como Willian, Emerson, a dupla de volantes Paulinho e Ralf – de longe, a melhor do País – , reencontrou Líedson, ídolo antigo de gols precisos e herois como Adriano, que pode ter aberto o caminho sem volta para o pentacampeonato com um chute único e certeiro, característico de quem mantém a frieza no sangue justamente na hora em que o sangue da torcida ferve. Um gol de jeito, sem força – diferente dos petardos contra a Argentina nas finais da Copa América, em 2004, e na Copa das Confederações, em 2005 – construído numa arrancada de Emerson, talvez a maior contratação que a equipe tenha feito desde Ronaldo.

Com a sequência de triunfos dos melhores times na reta final, fica difícil dizer que o título tenha caído, dessa vez, no colo de quem menos errou. Se olhar pelo retrovisor, o Corinthians verá um cogumelo de poeira provocado por equipes que chegam impecáveis à reta final. O Vasco montou em 2011 o melhor time desde o fantástico plantel de Romário, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano e Euller, que levou a Copa João Havelange e a Copa Mercosul de 2000 (numa virada estrondosa, na final, após uma derrota por 3 a 0 para o Palmeiras no primeiro tempo). A equipe cruzmaltinha tem simplesmente o melhor zagueiro da temporada, Dedé, que nos últimos jogos desandou a fazer gols feito centroavante em boa fase. Tem também dois ídolos antigos, Felipe e Juninho Pernambucano, que ainda tem bola pra gastar e aplausos para receber – basta analisar o golaço do meia canhoto no jogo de sábado, contra o Avaí. Teve também o mérito de resgatar Diego Souza, um dos grandes meia-atacantes da atualidade e que reencontrou o bom futebol em São Januário. O Vasco de 2011 é uma espécie de garçom que carrega intactas três bandejas em duas mãos: já ganhou a Copa do Brasil e segue vivo, vivíssimo, nos dois torneios que lhe restam neste ano, o Brasileiro e a Sul-Americana.

Atual campeão, o Fluminense é outro time que resolveu gastar a bola nas últimas rodadas. Tudo graças ao artilheiro Fred, a quem poucos apostavam que manteria o comprometimento até o fim do Nacional. Pois não é que o centroavante de cabelo desarrumado e cara de quem acabou de acordar de bode começou a decidir? Nas duas últimas partidas, fez nada menos do que sete gols. E passou a ameaçar a artilharia até então garantida de Borges, atacante que no Santos vive a melhor fase da carreira.

Falar em Santos, uma pena o time ter perdido a linha na metade do segundo turno. Não fossem esses deslizes, típicos de quem já se prepara para um torneio maior (o Mundial), o time chegaria inteiro nas últimas rodadas brincando de colecionar, numa só temporada, os títulos que muitos clubes levam anos para conseguir. O time possui, de longe, o melhor elenco, além de Neymar, o melhor jogador em atividade no País há pelo menos duas temporadas.

O que não é pouco.

Há menos de cinco anos, parecia impossível pensar que ídolos que viveram o auge da carreira na seleção ou em solo europeu um dia voltariam a dividir botinadas com adversários em estádios como o Pacaembu, o Orlando Scarpelli, a Fonte Nova, a Vila Belmiro.

Hoje, Ronaldinho Gaúcho, Deco, Juninho Pernambucano, Adriano e Luís Fabiano fazem o que podem e o que não podem para se destacar entre nomes como Leandro Damião, Osvaldo, Willian, Kempes, Anselmo, Bill...

O resultado foi que o nacional deste ano teve pelo menos dois jogos que já têm lugar garantido na história dos clássicos de todos os tempos: os 5 a 4 do Flamengo contra o Santos, em plena Vila Belmiro, com direito a reviravoltas e as melhores apresentações de Neymar e Ronaldinho no ano; e os também 5 a 4 do Fluminense contra o Grêmio, com os quatro gols de Fred e viradas a cada instante. Há quem diga que os placares são fruto de defesas ruins, irresponsabilidade tática, clima de amistoso entre solteiros e casados (ou Amigos do Ronaldinho contra Amigos do Neymar).

Eu discordo. Tanto os placares elásticos como a instabilidade das equipes vêm do fato justamente de as equipes estarem mais preparadas para reagir em momentos adversos do que em anos anteriores.

Penso que, se fossem em outros tempos, como nos penosos Brasileiros de 2007 a 2010, times como o Botafogo de Loco Abreu, o Inter de D’Alessandro ou o Flamengo de Ronaldinho poderiam levar o título com um pé nas costas. E os times que hoje lutam para não serem rebaixados, como o Bahia de Souza e o Cruzeiro de Montillo, poderiam lutar pelo menos por uma vaga na Libertadores.

Em 2011, a instabilidade das equipes foi nada menos do que um resultado natural: pouca gente teve vida fácil nas rodadas contra times que, disputando o título ou não, já entravam em campo com sangue nos olhos, seja para escapar do rebaixamento, seja para garantir vagas nos torneios sul-americanos, seja simplesmente para jogar água nos chopes da torcida adversária, como vai acontecer nas próximas rodadas com o duelo dos arquirrivais. Quem viver verá.

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