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Sociedade

Violência no campo

O Mato Grosso do Sul precisa de uma versão rural das UPP's

por Fernando Vives — publicado 30/11/2011 12h00, última modificação 01/12/2011 10h28
Afronta à autoridade do Estado chegou a tal ponto que o secretário da Presidência é quem tem que pedir licença para entrar em área de disputa entre índios e jagunços
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Índios protestam por direito ao uso de terra em áreas de conflito em Mato Grosso do Sul. Foto: Cimi

Os morros urbanos do Rio de Janeiro não são os únicos lugares do Brasil que precisam ser ocupados pelo poder público. O Mato Grosso do Sul acaba de nos dar um exemplo claríssimo de que, em várias regiões do País, quem manda não é o governo. Faz a lei quem tem mais dinheiro. E jagunços.

 

No último domingo 27, o secretário de Articulação Nacional da Secretária-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, visitou um acampamento indígena das comunidades guarani  kaiowá. A região foi palco de sangrentas disputas entre os produtores rurais da região e os indígenas, com baixas e intimidação sobre estes últimos - ao menos três seguem desaparecidos. Em jogo, os processos de demarcação de terras indígenas em disputa na região de Amambaí, cobiçadas pelos fazendeiros, que estão na Justiça.

Ao sair das comunidades, Paulo Maldos e sua equipe foram cercados por jagunços, que pediram o documento de todos os que estavam na comitiva (e repare aqui a inversão de valores: homens armados pediram os documentos a uma autoridade pública nacional). Segundo a Presidência declarou ao jornal Folha de S. Paulo, os jagunços fotografaram, filmaram e xingaram os índios que acompanhavam Paulo Maldos.

"Tinha gente protegida sendo filmada. Eles demoraram para entender que a Presidência da República e a Força Nacional de Segurança estavam presentes no local. Eu saio daqui preocupado com a segurança dos indígenas e adverti a ele (o jagunço) que, se algo ocorresse com as pessoas filmadas, ele seria investigado", disse Maldos, ao O Globo.

 

Integrantes da Força Nacional de Segurança foram chamados à região para escoltar a comitiva do governo. Após vários atos de intimidação, o enviado da Presidência conseguiu seguir viagem para Dourados, maior cidade da região.

É claro que o Mato Grosso do Sul não é um estado totalmente dominado por milícias de fazendeiros que se consideram acima da lei. Mas lá, sobretudo na região de Amambaí, o poder público, quando chega, é intimidado. A região, como outros lugares do território nacional, transformou-se ao longo dos anos em grandes zona de exclusão judiciária e da autoridade pública. Se o poder público é ameaçado, imagine os índios que lutam pelo direito de viver em suas terras ancestrais. Daqui a pouco vão precisar instalar UPPs, as unidades de polícia pacificadora, entre uma fazenda e outra para o poder público poder visitar as localidades.

O caso da comitiva de Paulo Maldos é só mais um, e certamente não será o último. Ou o Estado traça um plano para se fixar, de vez, no local e se colocar à frente dos interesses particulares locais, ou noticiaremos eternamente casos obtusos como esse. E sem índios para contar a história.

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