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Sociedade

Entrevista - Ana Moser

O legado dos Jogos está em segundo plano, diz Ana Moser

por Ana Chiavegatti — publicado 23/09/2015 06h19, última modificação 25/09/2015 09h59
Medalhista olímpica lamenta que o poder público não tenha aproveitado as Olimpíadas para incentivar a cultura esportiva no País
Atletas pelo Brasil

De Lábrea (AM)

Medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, Ana Moser se aposentou, mas não abandonou o esporte. Por meio do Instituto Esporte & Educação, a ONG que comanda, Ana Moser tenta ajudar o País a se tornar uma potência olímpica, um objetivo que passa, segundo ela, pela universalização do esporte nas escolas brasileiras. Convidada da Caravana do Esporte e das Artes, organizada pela ESPN, Ana Moser conversou com CartaCapital e lamentou a falta de planejamento do Brasil para usar os Jogos Olímpicos como ponto de virada na expansão da prática do esporte. “A grande prioridade é entregar os Jogos”, diz. “O legado ainda é interpretado como construção, como transporte, como o que fica pra cidade do Rio de Janeiro”.

CartaCapital: O seu nome foi ventilado para a Autoridade Publica Olímpica, a APO Por que não deu certo? 

Ana Moser: Fui convidada pela Presidência da República para atuar na APO com foco no que tenho feito bastante nesses anos todos, que é a questão do legado dos Jogos Olímpicos, mas isso acabou não vingando. É uma posição que precisa passar pelo crivo do Senado e, politicamente, era uma época em que nada do governo passava. Hoje em dia ainda está difícil, mas na época estava ainda pior. Não foi possível.

Eu me disponibilizei, seria uma coisa muito diferente, eu teria de abrir mão de uma série de coisas, especialmente do Instituto Esporte Educação. Como tenho atuado em várias instituições que têm relação com grupos de empresários e outros atores do cenário esportivo, de uma certa maneira, iria representar isso tudo. Então, me propus a atuar nessa linha, mas não foi possível. Acabou, a vida segue a vida, sem problemas.

CC: Qual sua expectativa para o legado esportivo e social dos Jogos?

AM: De uma maneira geral, só é possível aquilo que é planejado. A questão do legado está em segundo ou terceiro plano em termos de prioridade. A grande prioridade é entregar os Jogos. E mesmo com a questão do legado dentro do Movimento Olímpico estando muito mais presente, por exemplo, do que na Copa do Mundo, ele ainda é interpretado como construção, como transporte, como o que fica pra cidade do Rio de Janeiro. O que eu entendo como legado e que se tem trabalhado no meio esportivo de uma maneira bem forte é o legado esportivo e social, humano. Então, em um país como o Brasil que não tem uma cultura de prática esportiva em larga escala, um legado seria ter ampliado essa cultura. Quer dizer, ter mais gente fazendo esporte, basicamente. E isso ainda está como uma intenção.

CC: O poder público não está preocupado com isso?

AM: Ainda não há planos ou uma intencionalidade tácita que possa ter chance de se tornar realidade. Estamos ainda hoje, a menos de um ano das Olimpíadas, debatendo o como. E, numa outra situação, se olharmos, por exemplo, para os últimos Jogos Olímpicos, em Londres, o legado para a população da Inglaterra, e no caso deles até para a população mundial, já era algo que estava em ação anos antes da realização dos Jogos. Acho que no Brasil teremos avanços, e já estamos tendo, mas num ritmo e numa carga muito menor do que se poderia ter para sair desses Jogos Olímpicos com essa cultura ampliada, para além da cidade do Rio de Janeiro e para além do que é o esporte de alto rendimento. É o esporte das pessoas comuns. Nisso vamos avançar devagarinho, mas o ritmo poderia ser outro, poderia ser muito mais intenso. 

CC: Fala-se na transformação o Brasil em potência olímpica. Essa é uma ideia verossímil?

AM: O Brasil vai ter nesses Jogos Olímpicos de 2016 os melhores resultados que já teve em termos esportivos. Acho que é inevitável que tenhamos melhores resultados em todas as modalidades, especialmente naquelas que não temos tradição. Porque em todas as modalidades foi feito um trabalho de estruturação – de centro de treinamento, de técnicos estrangeiros, de competição prévia aos Jogos Olímpicos, Bolsa Atleta, bolsa técnicos. Enfim, um avanço muito grande em termos de esporte olímpico. 

CC: Mas para o Brasil se tornar realmente uma potência olímpica não seria necessário universalizar a prática do esporte nas escolas? Há falta de interesse nisso?

AM: O que acontece é que esse investimento todo está sendo feito nos últimos seis, oito anos. E ele trabalha com o que já temos de atletas ou de potenciais atletas de grande resultado internacional, o que não garante a renovação, porque você tem qualidade e não quantidade. Quando falamos de legado, miramos nessa questão: uma potência olímpica é um país que tem a prática do esporte em larga escala, aí os atletas que representam nos Jogos Olímpicos são cada vez melhores. E isso não temos como garantir que o Brasil vai realizar. Para garantir isso, teríamos de estar colocando ações em prática e ainda estamos na fase do plano.

CC: A que você atribui isso?

AM: Não sei se é falta de interesse, talvez não seja isso. Talvez seja a questão da distância que estamos de uma realidade idealmente boa. Então, temos que, em todos os níveis, correr atrás de uma defasagem muito grande. O foco está no grande desafio que é construir os Jogos e receber os atletas estrangeiros e todo o mundo – turistas e imprensa – para os Jogos Olímpicos, o que já é um grande desafio para o Brasil. Tenho toda a certeza que vamos entregar uma grande competição, um grande evento, mas o resultado para além dos Jogos é uma questão que está aí para ser respondida.

CC: É razoável supor que após os jogos de 2016 o investimento no esporte olímpico vá diminuir. Isso é preocupante?

AM: Há anos atrás tínhamos uma condição econômica muito mais favorável. Hoje, temos uma situação em que o recurso é mais curto. Não sei se efetivamente vai cair totalmente o investimento depois dos Jogos Olímpicos, mas a tendência é que se diminua esse investimento público e privado. Acho que é uma curva decrescente natural. Espero que não seja muito, para que não comprometa o que já se conquistou, o que já conseguiu se evoluir.

Eu quando entrei na área social, aprendi um conceito muito de início: os projetos são sustentáveis quando são importantes para as pessoas. Então, se uma pessoa que é do interior do Brasil não se sente favorecida por um movimento de Jogos Olímpicos, aquilo não vai ser importante para ela, e o que não é importante pode ser deixado pra depois. Essa é a grande chance que poderíamos ter aproveitado de maneira mais ampla.

Ainda dá pra correr atrás desse objetivo, mas sem certezas do que vai acontecer depois dos Jogos Olímpicos. Acho que o Brasil viveu essa década esportiva e está debatendo esporte, entendendo mais de esporte, que está se tornando mais presente na vida das pessoas. Se isso vai ser o suficiente para isso ser importante para as pessoas, para que elas lutem para que isso se mantenha, só saberemos depois.

CC: Por décadas até os atletas de alto nível tiveram dificuldades de financiamento. Acha que esse cenário pode se tornar realidade novamente?

AM: Não tem como garantir o que vai continuar depois. Espero que se mantenha o nível de investimento, que se mantenha a visibilidade do esporte dentro da nossa sociedade. Mais uma vez, acho que poderíamos ter preparado melhor esse terreno. Ainda temos tempo para isso, não muito, mas ainda temos tempo para conquistar avanços, para que tornem essa a nossa parcela do que é a vida em sociedade.

O esporte é só um pedaço que concorre com outras questões, como educação, moradia, emprego, saúde. O esporte tem um pouco de tudo isso – não o esporte só das Olimpíadas, mas o esporte da vidas pessoas – tem muito de educação, de saúde, de segurança, de ocupação dos espaços públicos, de identidade. Não só identidade da bandeira do Brasil subindo em uma entrega de medalhas no pódio olímpico, mas uma identidade dos povos, da vida, do dia a dia das pessoas. É um caminho de comunicação, de posicionamento, de ética, de valores, mas que só é real quando está em prática. Em teoria são só palavras, mas isso vira realidade quando se traduz em realidade no dia a dia das pessoas.

É um grande investimento que o Brasil está fazendo nessa década. O Brasil fala de esporte há 10 anos e é conhecido no mundo não só pelas suas conquistas econômicas e sociais, mas também por esses dois grandes eventos que estamos recebendo. Estamos recebendo o mundo no espaço de dois anos, o que é inédito. E eu torço muito para que possamos aproveitar da melhor maneira possível e que possamos colher os frutos e os benefícios depois.

*A repórter viajou a convite da ESPN